terça-feira, 31 de março de 2009




O estado geral de medo durante o fascismo. Durante as dezenas de anos do Estado Novo, muitos portugueses olharam cuidadosamente em redor, na rua, no café ou na tasca, antes de exprimir a sua opinião sobre qualquer assunto tido por «político».


Diana Andringa
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Palavras sem fronteiras no Museu da Língua portuguesa




Exposição baseada na obra do embaixador Sergio Corrêa da Costa entra em cartaz no dia 06 de abril e interage de maneira inédita com acervo permanente do museu;

Pela primeira vez em três anos de existência, que se completam em 21 de março, o Museu da Língua Portuguesa lança uma exposição que se confunde com seu próprio acervo, ocupando os espaços da Grande Galeria, Auditório, Praça da Língua e até a Livraria da Imprensa Oficial.

Trata-se de Palavras sem fronteiras – Mídias Convergentes, baseada na obra do embaixador e membro da Academia Brasileira de Letras Sergio Corrêa da Costa, falecido em 2005. A realização é da Secretaria de Cultura do Governo do Estado de São Paulo e da Poiesis - Organização Social de Cultura que administra o museu.


Com curadoria de Maria Eugênia Stein e de Julio Heilbron, da EMC – Marketing Cultural, a mostra, que vai até 14 de junho, apresenta palavras que transitam por diferentes idiomas sem perder seus significados originais. Dividida em quatro módulos, utiliza o conceito de mídias convergentes, ou seja, a união de imagem, palavra, som e tecnologia digital.

“Esta exposição revela, de maneira moderna e dinâmica, como as palavras se movem e se mesclam a diversos idiomas, tão distintos como português e árabe, mas sempre mantendo o significado original. Certamente, enriquecerá ainda mais a visita ao Museu da Língua Portuguesa e surpreenderá o visitante”, afirma Antonio Carlos Sartini, diretor do museu.


Para a curadora Maria Eugênia Stein, “a montagem da exposição Palavras sem fronteiras - Mídias Convergentes, busca integrar, pela primeira vez, uma mostra inovadora com as concepções virtuais da Grande Galeria e da Praça da Língua, principais espaços expositivos do museu. O objetivo é compatibilizar conteúdos e tecnologias por meio de intervenções pontuais, em concordância e estreita sintonia com a percepção museográfica original da instituição”.


A primeira concepção de Palavras sem fronteiras, com linguagem multimídia e recursos tecnológicos de última geração, cuidadosamente selecionados com o propósito de transmitir os efeitos e impactos imaginados, foi realizada em 2007 nas dependências da Biblioteca Rodolfo Garcia, da Academia Brasileira de Letras, uma das mais modernas e bem equipadas do país, e alcançou expressivo sucesso.Sobre a obra Palavras sem fronteiras


Sergio Corrêa Costa sempre foi um apaixonado pela língua francesa, herança de sua mãe. E em 45 anos de carreira, nunca tinha passado nem um só mês na França. Quando se aposentou, se estabeleceu em Paris. E foi lá que surgiu a idéia de buscar palavras e expressões em francês que ultrapassavam suas fronteiras e foram ganhando o mundo. Inicialmente sem grandes pretensões, o projeto tomou corpo e acabou virando uma obra de referência no campo do vocabulário universal.


A obra Palavras sem fronteiras é, nas palavras do próprio embaixador, “uma coleção de palavras que viajam pelo mundo”. Publicada originalmente na França sob o título Mots sans Frontières por Éditiions Du Rocher, em 1999, obteve no mesmo ano o Grande Prêmio da Fundação Prince Louis de Polignac. No Brasil, o livro foi editado em 2000, pela Editora Record, e contém um índice com três mil palavras e expressões e 16 mil exemplos de seus empregos. O material foi recolhido pelo embaixador durante dois anos em jornais de 15 países, de oito línguas, que refletem 46 idiomas e acabam por integrar uma espécie de “vocabulário sem fronteiras”, que aumenta sem cessar e aproxima as culturas.Corrêa da Costa coletou palavras com vocação cosmopolita, ou seja, que viajaram intactas ou com mínima variação para as demais línguas e se incorporaram a elas. Hoje, podemos pedir no mundo inteiro um capuccino, ou uma pizza, um carpaccio, lasanhas, um expresso. Os grafitti, os paparazzi, as prima donnas, as divas, os dilettantes, a extravaganza, o imbroglio fazem parte de nossas vidas. Quem não se interessa pela dolce vita, o farniente, os gran finales, até as proezas da Mafia ou dos maffiosi?


Sobre a exposição


A mostra Palavras sem Fronteiras ocupa os segundo e terceiro andares do museu. Ao sair do elevador e entrar no saguão do segundo andar, no entorno da Árvore da Palavra, o visitante já se depara com o primeiro módulo: um painel sobre o livro, o escritor e as palavras sem fronteiras. O espaço terá ainda duas telas de plasma. Uma apresentará momentos importantes da vida do escritor e a outra mostrará como a pesquisa foi realizada.O próximo módulo será apresentado na Grande Galeria – o telão de 106 metros. Entre os intervalos das projeções, uma animação gráfica com as palavras sem fronteiras. Sons de termos em diversas línguas compõem a trilha sonora desse módulo. São quatro filmes de cada vez, um ao lado do outro, cobrindo todo o comprimento da galeria.O terceiro módulo poderá ser visto no auditório e na Praça da Língua do Museu da Língua Portuguesa, localizados no terceiro andar. Serão apresentadas 12 criações de videopoesia de profissionais que têm se notabilizado nessa modalidade de expressão artística. Cada artista convidado interpreta simbolicamente, em linguagem virtual, uma das palavras identificadas pelo autor, considerando, além dos aspectos artísticos, a fidelidade ao conceito e aos componentes socioculturais contidos na proposta. As sessões no auditório serão apresentadas quatro vezes ao dia, duas de manhã e duas à tarde: 11h e 12h30, 14h e 15h30, respectivamente.


Algumas das palavras selecionadas e respectivos videoartistas:
Abat-jour (fr); abajur (po) – Walter Silveira
Barroco (po); baroque (fr, in); Barok (al) – Marcos Bonisson
Chérubin (hebreu); querubim (po) – André Vallias
Samba (po); samba (fr,in) – João Bandeira
Sertão (po); sertão (fr,in) – Gabriel Tupinambá


Após assistir a estes vídeos, o visitante irá ver, nos mesmos horários citados acima, animações com palavras sem fronteiras na Praça da Língua. Elas serão projetadas no teto da praça, envolvem todo o espaço criando, com seus movimentos e sincronismo, a sensação de um ambiente quase holográfico. Essas animações estão divididas por lugar de origem dessas palavras (inglesas, latinas, francesas, etc.). As sessões serão subsequentes às apresentadas no auditório, complementando-as. Sussurros e murmúrios compõe a trilha sonora desse módulo.Até mesmo a Livraria da Imprensa Oficial, no andar térreo do Museu, participa da exposição com uma cenografia especial. A partir do dia 4 de maio, textos e imagens impressos em vinil serão adesivados nos vidros do local. Este módulo foi produzido especialmente em homenagem à língua francesa – por ocasião do Ano da França no Brasil – e aproxima as Palavras sem Fronteiras da literatura brasileira.


O catálogo, que será lançado no dia 4 de maio, está em sintonia com o próprio conceito da exposição, e revela imagens dos filmes e instalações que criam outra dimensão para a compreensão da ideia fundamental que orienta a exposição.


Acessibilidade para pessoas com deficiência visual


A proposta da exposição também estará acessível às pessoas com deficiência visual com consultoria da Museus Acessíveis e apoio da Fundação Dorina Nowill para Cegos.

Serão oferecidas visitas educativas inclusivas com educadores treinados para conduzir as pessoas com deficiência visual no museu e proporcionarem um roteiro áudio-descritivo da exposição.

Além das visitas, a partir do dia 04 de maio, será oferecido acesso aos textos de curadoria da exposição, uma pesquisa sobre as palavras de língua francesa e o livro “Palavras sem Fronteiras” em versão resumida em terminais multimídia na Livraria da Imprensa Oficial.

Estes textos e o livro estão sendo produzidos pelo Departamento de Livro Digital Acessível da Fundação Dorina para Cegos, utilizando a tecnologia DAISE, que transforma os conteúdos textuais visuais em versões auditivas com diferentes possibilidades de busca.



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CANCLINI, Néstor Garcia. Culturas Híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. Tradução de Ana Regina Lessa e Heloísa Pezza Cintrão. 3. ed. São Paulo: Edusp, 2000 (Ensaios Latino-americanos, 1).
Marcos Aurélio Souza*
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Culturas híbridas - estratégias para entrar e sair da modernidade do argentino Néstor Garcia Canclini apresenta uma importante reflexão sobre a problemática da modernidade na América latina. O subtítulo desse livro, nesse caso, não é apenas mero complemento, mas sobretudo, uma poderosa sugestão. A modernidade já não é mais uma via sem saída, é possível entrar nela, assim com é possível e preciso sair dela. Daí, como saída, o autor apresentar questões como: pós-modernidade, hibridação, poderes oblíquos, descoleção e desterritorialização, as quais se configuram, de uma forma muito peculiar, no processo de modernização, estabelecido e estabelecendo-se, tardiamente, no chamado Terceiro Mundo latino.O livro de Canclini é o primeiro de uma série de publicações, intitulada Ensaios latino-americanos, publicada pela EDUSP, da qual faz parte outros títulos como América Latina do século XIX de Maria Lígia Coelho, Ángel Rama: Literatura e cultura na América Latina de Flávio Aguiar e Sandra Guardini e Paisagens imaginárias: intelectuais, arte e meios de comunicação de Beatriz Sarlo. O professor de História da arte da Universidade do México, com essa publicação, insere-se, também, no rol de vigorosos pensadores da contemporaneidade, a exemplo de Edward Said, Homi Bhabha, Stuart Hall, Kwame Appiah, e o nosso Silviano Santiago, intelectuais sintonizados com a produção multicultural: as relações e trocas simbólicas entre as nações, as diásporas, as novas tecnologias e seu impacto sobre a tradição, os cruzamentos entre o popular e o erudito, as culturas de fronteira etc. De forma original, Canclini analisa as estratégias de entrada e saída da modernidade, partindo do princípio de que na América latina não há uma firme convicção de que o projeto moderno deva ser o principal objetivo ou o algo a ser alcançado, "como apregoam, políticos, economistas e a publicidade de novas tecnologias" (p.17). Essa convicção tão presente e relevante para o crescimento econômico das chamadas potências mundiais, desestabilizou-se a partir do momento em que se intensificou as relações culturais com países recém independentes do continente americano, na medida em que se cruzaram etnias, linguagens e formas artísticas. Canclini prefere chamar essa nova situação intercultural de hibridação em vez de sincretismo ou mestiçagem, "porque abrange diversas mesclas interculturais - não apenas as raciais, às quais costuma limitar-se o termo 'mestiçagem' - e porque permite incluir as formas modernas de hibridação, melhor do que 'sincretismo', fórmula que se refere quase sempre a fusões religiosas ou de movimentos simbólicos tradicionais" (p. 19).O autor transita entre diferentes manifestações culturais e artísticas (muitas delas anônimas): desde passeatas reivindicatórias, passando pela pintura, arquitetura, música, grafite e histórias em quadrinhos até a simbologia dos monumentos. Com isso ele começa a refletir sobre o que chama migrações multidirecionais, relativizadoras do paradigma binário (subalterno/hegemônico, tradicional/moderno) que tanto balizou a concepção de cultura e poder na modernidade. Tal reflexão se desenvolve em sete capítulos sem uma linearidade ou um esquema predeterminado, segue um movimento típico do gênero ensaístico, coadunando-se com a postura descentrada do autor: "para tratar dessas questões é inadequada a forma do livro que se desenvolve de um princípio a um final" (p. 28), a forma do ensaio permite, então, "um movimento em vários níveis" (idem). Aproveitando a oportunidade de livre acesso, sem uma preocupação seqüencial, farei, aqui, uma leitura mais detida do sétimo capítulo, intitulado "Culturas híbridas, poderes oblíquos", a fim de mostrar, mais nitidamente, os instrumentos conceituais trabalhados, ou seja, a contribuição teórica do pensamento de Canclini para os estudos contemporâneos nos diversos setores do conhecimento (arte, antropologia, história, comunicação etc.). Esse setores, aliás, perdem suas antigas fronteiras, misturam-se, confundem-se, em consonância com as novas tecnologias comunicacionais da atualidade.Utilizando a metáfora do videoclip, o autor fala da linguagem das manifestações híbridas que nascem do cruzamento entre culto e o popular. Dessencializa, assim, tanto a idéia de uma tradição autogerada, construída por camadas populares, quanto a noção de arte pura, ou arte erudita. A linguagem paródica, acelerada e descontínua do videoclip representa a desconstrução das ordens habituais, deixando que apareçam as rupturas e justaposições, entre essas duas noções tradicionais de cultura, que culminam em um outro tipo de organização dos dados da realidade. A fim de conter as formas dispersas da modernidade, Canclini investiga o fenômeno da cultura urbana, principal causa da intensificação da heterogeneidade cultural. É na cidade, portanto na realidade urbana, que se processa uma constante interação do local com redes nacionais e transnacionais de comunicação.O autor nos lembra que a idéia de urbanidade não se opõe a idéia de "mundo rural" ou comunidade, "o predomínio das relações secundárias sobre as primárias, da heterogeneidade sobre a homogeneidade [...] não são atribuíveis unicamente à concentração populacional nas cidades" (p. 285). Dissolver-se na massa e no anonimato é apenas uma das facetas da metrópole, a outra é das comunidades periféricas que criam vínculos locais de afetividade e de condescendência e saem pouco de seus espaços. A questão é que essas estruturas microssociais da urbanidade - o clube, o café , a associação de vizinhos, o comitê político etc. - que antes se interligavam com uma continuidade utópica dos movimentos políticos nacionais, estão cada vez mais desarticuladas enquanto representação política. Isso se deve, dentre outros fatores, às dificuldades dos grupos políticos para convocarem trabalhos coletivos, não rentáveis ou de duvidoso retorno econômico - e é cada vez mais imperativo o adágio : "tempo é dinheiro". Os critérios mais valorizados são os que se ligam à rentabilidade e eficiência. "O tempo livre dos setores populares, coagidos pelo subemprego e pela deteriorização salarial, é ainda menos livre por ter que preocupar-se com o segundo, ou terceiro trabalho, ou em procurá-los" (p. 288). A maior relevância da mídia, hoje, nesse sentido, é por se tornar a grande mediatizadora ou até substituta de interações coletivas. A participação de camadas periféricas relaciona-se cada vez mais com uma espécie de "democracia audiovisual", em que o real é produzido pela imagens da mídia.Da idéia de urbanidade e teleparticipação, Canclini passa a investigar a questão da memória histórica, desfazendo a perspectiva linear de que a cultura massiva e midiática substitui a herança do passado e as interações públicas. Nesse sentido, investiga a presença dos monumentos e a sua relação ambivalente em meio as transformações da cidade. O monumentos não são mais os cenários que legitimam o culto do tradicional, "abertos à dinâmica urbana facilitam que a memória interaja com a mudança, que os heróis nacionais a revitalizam graças à propaganda ou ao trânsito: continuam lutando com os movimentos sociais que sobrevivem a eles"(p. 301).Através das fotos de monumentos mexicanos, o autor ilustra bem a reedição simbólica dessas grandes construções na contemporaneidade. Um cena pré-colombiana de índios pedestres, quase no nível da rua, mistura-se a cena dos pedestres urbanos na capital mexicana. Canclini sugere que a figura heróica de Zapata na cidade de Cuernavaca, esteja lutando contra o trânsito denso que sugere os conflitos a sua enérgica figura. Mostra uma outra representação, mais tosca, do herói mexicano em um povoado "sem cavalo, sem a retórica monumental da luta, levemente irritado, uma cabeça do tamanho da de qualquer homem". O hemiciclo a Juárez na Cidade do México é palco de múltiplas interpretações do herói nacional, o pai do laicismo sustenta as lutas contemporâneas a favor do aborto e manifestação de pais que protestam por seus filhos desaparecidos. "Os monumentos contém freqüentemente vários estilos e referências a diversos períodos históricos e artísticos. Outra hibridação, soma-se logo depois de interagir com o crescimento urbano, a publicidade, os grafites e os movimentos sociais modernos" (p. 300).Analisando ainda a problemática da cultura urbana, Canclini estuda dois processos diferenciados e complementares de desarticulação cultural: o descolecionamento e a desterritorialização. O primeiro envolve a recusa pós-moderna(1) de se produzir bens culturais colecionáveis, o que seria uma sintoma mais claro de como se desconstituem as classificações que distinguiam o culto do popular e ambos do massivo. Desaparece cada vez mais a possibilidade de ser culto por conhecer apenas as chamadas "grandes obras"; o ser popular não se constitui mais a partir do conhecimento de bens produzidos por uma comunidade mais ou menos fechada. O intelectual pós-moderno se constitui a partir de sua biblioteca privada, onde livros se misturam com recortes de jornais, informações fragmentárias no "chão regados de papéis disseminados", conforme Benjamim (citado por Canclini, p. 303).A partir dos novos dispositivos tecnológicos como a fotocopiadora, o videocassete e o vídeo game que não podem ser considerados como cultos ou populares, as coleções se perdem e com elas, as referências semânticas e históricas que amarravam seu sentido. No primeiro dispositivo há a possibilidade do manejo mais livre e fragmentário dos textos e do saber, no segundo é permitido a reorganização de produções audiovisuais tradicionalmente opostas: o nacional e o estrangeiro, o lazer e o trabalho a política e a ficção etc. O terceiro, enfim, desmaterializa e descorporifica o perigo "dando-nos unicamente o prazer de ganhar dos outros ou a possibilidade, ao sermos derrotados, de que tudo fique na perda de moedas numa máquina" (p. 307).Canclini afirma que o segundo processo, o da desterritorialização, se constitui como mais radical significado de entrada e saída da modernidade. Para ilustrar isso, ele analisa primeiro a trasnacionalização dos mercados simbólicos e as migrações. Nesse sentido desconstrói os antagonismos : colonizador vs. Colonizado e nacionalista e cosmopolita, ao enfatizar a descentralização das empresas e a disseminação dos produtos simbólicos pela eletrônica e pela telemática, "o uso de satélites e computadores na difusão cultural também impedem de continuar vendo os confrontos dos países periféricos como combates frontais com nações geograficamente definidas" (p. 310). É importante esclarecer, para destituir a idéia de maniqueísmo, que a difusão tecnológica também permitiu a países dependentes registrarem um crescimento notável de suas exportações culturais, basta lembrar do crescimento da produção cinematográfica e publicitária do Brasil nos últimos anos. Outro fator importante para a desterritorialização, é o que o autor chama de migrações multidirecionais, a constância cada vez maior da realidade diaspórica. Tal realidade é muito bem ilustrada pelo seu estudo sobre os conflitos interculturais em Tijuana, fronteira entre o México e os Estados Unidos. Ele afirma: "várias vezes pensei que essa cidade é , ao lado de Nova Iorque, um dos maiores laboratórios da pós-modernidade"(p. 315) . O caráter multicultural desse local não se expressa apenas no uso do espanhol e do inglês, mas nas relações divergentes e convergentes que se dão entre uma cultura e outra. Ao mesmo tempo há uma tentativa de retorno ao tradicional, ou pelo menos, uma tentativa de reinventá-lo. Em Tijuana, a busca pelo autêntico atende também aos interesses do mercado turístico. Visitantes tiram foto em cima de burros pintados que imitam zebra, ao fundo imagens de várias regiões do México: vulcões, figuras astecas, cactos etc. Ao final do seu trabalho, Canclini se detém no papel da arte no entendimento da hibridação na América Latina. Cita o manifesto antropófago no Brasil e o grupo Martín Fierro na Argentina, como interpretações de nossa identidade, realizadas, muitas vezes, a partir de elementos estéticos e sociais de outro país - Oswald vê o Brasil no alto do atelier da Place Clichy. Sobre o cosmopolitismo e localismo desses artistas afirma: "O lugar a partir do qual vários artistas latino-americanos escrevem, pintam ou compõe músicas já não é a cidade na qual passaram sua infância, nem tampouco é essa na qual vivem há alguns anos, mas um lugar híbrido, no qual se cruzam os lugares realmente vividos" (p. 327).Por outro lado, em conseqüência ao processo da descoleção, como já fora explicitado, o artista perde sua áurea como fundador da gestualidade e das mudanças totais e imediatas. As práticas artísticas carecem agora de paradigmas consistentes: o cânone, a genialidade e a erudição são idéias ultrapassadas e pretensiosas. Ao artista ou ao artesão (categorias cada vez menos diferenciadas) restam às vezes as cópias, a possibilidade de repetir peças semelhantes, ou a possibilidade de ir vê-las num museu ou em livros para turistas.
Não vejo nesses pintores, escultores e artistas gráficos a vontade teológica de inventar ou impor um sentido ao mundo. Mas também não há neles o niilismo abissal de Andy Warhol, Rauschemberg e tantos praticantes do bad painting e da transvanguarda. Sua crítica ao gênio artístico, e em alguns ao subjetivismo elitista, não os impede de perceber que estão surgindo outras formas de subjetividade a cargo de novos agentes sociais (ou não tão novos), que há não são exclusivamente brancos, ocidentais e homens. (p. 331)
Como proposta de uma prática artística híbrida, Canclini finaliza seu texto, falando do grafite e dos quadrinhos, gêneros impuros que desde o nascimento abandonaram o conceito de coleção patrimonial, e se estabelecem como "lugares de interseção entre o visual e o literário, o culto e o popular" (p. 336). A ambivalência do grafite se constitui, quando, ao mesmo tempo, que serve para afirmar territórios (arte neotribal) de grupos étnicos ou culturais, também desestrutura as coleções de bens materiais e simbólicos da chamada "alta cultura". Os quadrinhos contribuem para mostrar a potencialidade de uma nova narrativa e do dramatismo que pode ser condensado em imagens estáticas. É o estilo mais lido e o ramo da indústria editorial que produz maiores lucros; por sua relação constante com o cotidiano, acaba por revelar referências e contradições da própria contemporaneidade. Para ilustrar essas manifestações deslocadas, Canclini fala de uma famosa tira de Fontanarrosa, em que um personagem "contrabandista de fronteira" foge da polícia "de 15 países"- o personagem não contrabandeia através de fronteira, mas a própria fronteira: balizas, barreiras, marcos, arames farpados etc. Após vender uma defeituosa, ele tem que se esconder para não ser preso pela Interpol. No final, quando estava sendo perseguido, o personagem acaba por entrar numa manifestação popular, pensando se tratar de uma procissão, porém, na verdade, se tratava de um movimento grevista de policiais. A frase conclusiva que encerra a tira, dita por outro personagem que presencia toda a aflição do protagonista, é emblemática do momento pós-moderno: "A gente nunca sabe onde vai estar metido no dia de amanhã".

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(1)Canclini entende a pós-modernidade "não como uma etapa ou tendência que substituiria o mundo moderno, mas como uma maneira de problematizar os vínculos equívocos que ele armou com as tradições que quis excluir ou superar para constituir-se" (p. 28).

*Marcos Aurélio Souza, Prof. DLA/UESB, Grupo ICER


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(simília similibus)


Fotografia http://www.lilyacorneli.com/


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Quem deita sal na carne crua deixa
a lua entrar pela oficina e encher o barro forte:
vasos redondos, os quadris
das fêmeas - e logo o meu dedo se poe a luzir
ao fôlego da boca: onde
o gargalo se estrangula e entre as coxas a fenda
é uma queimadura
vizinha
do coração - toda a minha mão se assusta,
transmuda,
se torna transparente e viva, por essa força que a traga
até dentro,
onde o sangue mulheril queimado
a arrasta pelos rins e aloja, brilhando
como um coração,
na garganta - o sal que se deita cresce sempre
ao enredo dos planetas: com unhas
frias e nuas
retrato as lunações, talho a carne límpida-
porque eu sou o teu nome quando
te chamas a toda a altura
dos espelhos e até ao fundo, se teus dedos abertos tocam
a estrela
como uma pedra fechada no seu jardim selvagem
entre a água: tu tocas
onde te toco, e os remoinhos da luz e do sal se tocam
na carne profunda: como em toda a olaria o movimento
toca a argila e a torna
atenta
à translação da casa pela paisagem rodando sobre si
mesma - a teia sensível,
que se fabrica no mundo entre a mão no sal
e a potência
múltipla de que esta escrita é a simetria,
une
tudo boca a boca: o verbo que estás a ser cada
tua morte
ao que ouço, quando a luz se empina e a noite inteira
se despenha
para dentro do dia: ou a mão que lanço sobre
esse cabelo animal
que respira no sono, que transpira
como barro ou madeira ou carne salgada
exposta
a toda a largura da lua: o que é grave, amargo, sangrento.

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Herberto Helder, PHOTOMATON & VOX, Assírio & Alvim 1995

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Fotografia: Sophie Calle
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Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso.

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in "Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres", Clarice Lispector



Quer flor ?















Porto de abrigo para múltiplas derivas e migrações, Setúbal é claramente uma cidade de culturas, um complexo artefacto de identidades, nem sempre decifráveis, nem sempre inter.comunicáveis, nem sempre hábeis na arte de inter.viver, socialmente disfuncionais, intermitentes e permeáveis ao "ruído" (ao spam gerado pela ignorância e pelo medo do outro).
O fora e o dentro, o ser e o não ser, são face da mesma moeda. Os museus operam com processos, ferramentas e categorias identitárias.
Recentremo-nos no caso em apreço: " Ser setubalense " é uma categoria identitária que constituíu tema de debate em Tarde museológica. A comunidade cresceu, diversificou-se, mas a forma de a pensar, de a nomear, não cresceu com ela. Intensificada a discussão, percebemos que esta ainda não comporta a ideia de que são setubalenses todos aqueles que, por uma razão ou por outra, têm Setúbal ( ou a sua metáfora ) inscrita.
As culturas desconfiguram-se e reconfiguram-se em diferentes momentos. Não há culturas fechadas, nem identidades fixas. Tudo é mutável, tudo resulta de uma complexa construção que precisa de espaço e tempo para se reconhecer e dar a conhecer. Na vertigem dos dias, na voracidade dos novos tempos, ainda se torna mais difícil. É tudo tão rápido e difuso que chega a ser angustiante. Abrir canais acessíveis à cognição, ao diálogo e à livre fruição. Viver e fazer a experiência. Usufruir plenamente dos serviços museológicos é um direito a que todos (sem excepção) devem ter acesso. Diferença não pode ser sinónimo de exclusão. O desenvolvimento, a participação e a não discriminação, são direitos consignados pela constituição. Estão decretados mas não interiorizados. Ainda não é coisa amada (sentida). Falta dar operacionalidade ao conceito de património pleno (desarrumar as ideias; desfazer as caixas do "material" e do "imaterial" e de outros modismos que nos confinam), deixar fluir, abrir os museus à diversidade. Valorizar os processos de mudança, transformar produtos finais (outputs) em resultados (outcomes) . Rever as narrativas, os conteúdos e as formas (que, por vezes são fôrmas). Expôr-se, mais do que expôr. Admitir novos modelos de comunicação e de representação.
A comunicação entre culturas de diferentes etnias, nacionalidades, géneros, gerações, profissões, e as demais condições (nomináveis e inomináveis), é um processo lento, difuso, jamais acabado. Vai-se cumprindo timidamente nos gestos mais escondidos, em notas sensíveis, que só se revelam através do estreitamento das relações interpesssoais, da minúcia dos olhares, da escuta cerimoniosa, de subtis entendimentos. Estreitam-se na mútua confiança; na abertura crítica (e metódica) aos mundos próximos e distantes.
O aturado trabalho de campo que o Museu do Trabalho Michel Giacometti tem vindo a realizar com os diferentes grupos na comunidade, reforça a ideia de que as pulsões dominam as memórias e que as comidas e os modos de cozinhar, são sofisticados laboratórios de criação e hibridação das culturas. Processos alquímicos que buscam a essência (o in.manifesto); gestos repetidos que operam adaptações históricas (transmissíveis e transmutáveis). A pulsão de comer aguça o engenho, impõe a mistura de sabores, jeitos e trejeitos emergentes, que se fundem em fervilhantes panelões interculturais.
Talvez por isso, a praça de Setúbal, o belíssimo " Mercado do Livramento ", seja citado por setubalenses alentejanos, setubalenses algarvios, setubalenses Murtoseiros (varinos), setubalenses africanos, setubalenses chineses, setubalenses russos, setubalenses romenos, setubalenes goeses, setubalenses timorenses, setubalenses brasileiros, setubalenses pasquistaneses (quer flor ?), e ainda outros setubalenses, como um sítio de referência.
Um lugar de memórias. Um incontornável ponto de encontro.
E se o Museu fosse um grande mercado de marcas identitárias ? Resposta múltipla e colorida aos mais diversos sabores; ás mais intensas pulsões ? Um lugar de referência. amável. inspirador. atento. socialmente util ? Primordial como a vida. vivo.

Os comeres e a música são vida e ritmo, respiram e transpiram culturas/misturas.
A língua, mater dolorosa de Natália Correia, a cal o pão e o vinho.

O tradicional mercado ( metáfora contemporânea da ágora ou do Rossio) refuncionalizou-se para melhor servir, tornou-se "necessariamente" intercultural. Nas falas de outros falares ele faz sentido, está na rota das necessidades, é util e incontornável; para sobreviver teve que ser.
E se o museu fosse ?
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in " Interculturalidade: culturas (re)configuradas "
Isabel Victor
Museu do Trabalho Michel Giacometti
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Sugestão de leitura: ELIAS, Norbert e SCOTSON, John L.: Os estabelecidos e os Outsiders

Movimentos Sociais Urbanos






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Em muitas cidades portuguesas, os problemas urbanos, pelo menos desde os finais do século XIX, foram sempre gravíssimos. Neste livro analisa-se a dinâmica de participação dos cidadãos na resolução dos problemas urbanos existentes, do mesmo modo que se apresenta uma proposta para a gestão preventiva dos processos de degradação da qualidade de vida urbana, tomando como referência o caso de Setúbal na segunda metade do século XX.
Num país que não tem por hábito valorizar as boas práticas que se vão experimentando aqui e ali, o que nesta obra encontramos é uma reconstituição daquilo que se fez ― e daquilo que se deveria ter feito ―, numa cidade em concreto, para evitar as nefastas consequências de um urbanismo tardio, mesquinho e submetido exclusivamente a interesses fundiários e imobiliários.
O autor estudou Setúbal como um caso singular: nesta cidade, os habitantes, enquadrados em diversos tipos de organizações, conseguiram suscitar, apresentar, criticar, reabilitar e requalificar ideias, projectos e propostas de políticas urbanísticas estimulantes, que importa conhecer e reinventar.Escritores e poetas, políticos e filósofos, cientistas e técnicos ― muitos são os que continuam a interrogar-se, no início de um novo milénio, acerca da possibilidade ambiciosa de a humanidade dispor da «boa cidade». Uma cidade modelo pode ainda ser concretizada, desde que todos os intervenientes, habitantes-moradores incluídos, participem no processo de planeamento, execução e avaliação da requalificação da cidade manifesta. Nesse processo participativo todos poderão expressar a cidade oculta que cada um transporta e que funciona como referente crítico da realidade urbana existente.


in "As cidades na cidade", Carlos Vieira Faria



Carlos Vieira de Faria, estudou em Paris, licenciando-se em Sociologia. Trabalhou com Alain Touraine e Manuel Castells na École des Hautes Études en Sciences Sociales, onde concluiu em 1979 o mestrado. Com a co-orientação de Jean Remy, da Universidade de Louvain-la-Neuve, e Casimiro Balsa, da Universidade Nova de Lisboa, concluiu em 2004 o doutoramento em Sociologia. Foi docente no Instituto Superior de Serviço Social e na Universidade Autónoma de Lisboa. Actualmente é professor na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias.Entre 1971 e 2004 exerceu funções técnicas na hoje designada Direcção-Geral do Ordenamento e Desenvolvimento do Território, tendo desempenhado vários cargos e cumprido diversas missões no país e no estrangeiro. É membro da Association des Sociologues de Langue Française desde 1982. Desenvolveu actividade científica no CEOS ― Investigações Sociológicas (Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da UNL) entre 1995 e 2006. Publicou em 1981 o livro Novo Fenómeno Urbano: A aglomeração de Setúbal. Ensaio de Sociologia Urbana (Assírio e Alvim).A sua produção científica apresenta um fio condutor comum que dá conta das suas preocupações teóricas e profissionais: o estudo da cidade como artefacto e produto da acção humana, inacabada por natureza.



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sábado, 28 de março de 2009

à janela ...


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Tarde de vento.
Até as árvores
querem vir para dentro.

Paulo Leminski
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sexta-feira, 27 de março de 2009




O Museo Reina Sofía incorporará nos seus fundos permanentes em regime de depósito uma dezena de gravuras de Goya cedidos pelo Prado e pertencentes às suas séries Los desastres de la guerra e Los caprichos. Os exemplares expostos não serão sempre os mesmos mas irão rodando com o tempo e romperão a barreira cronológica tradicional que situa as obras mais “antigas” mostradas no Reina Sofía por volta de 1881, ano do nascimento de Picasso. Está previsto que o empréstimo destas peças se prolongue durante vários meses e que abra as portas a um período frutífero de colaboração entre o Prado e o Reina Sofía em que ambas as instituições possam ceder uma à outra, de forma temporária, obras não “essenciais” nas suas colecções com o propósito de enriquecer o conteúdo de determinadas mostras. Esta notícia coincide também com o processo de reorganização de salas e remodelação de colecção permanente em que se encontra o centro dirigido por Manuel Borja-Villel. O objectivo é distribuir os fundos do museu numa perspectiva diferente da actual, superando a disposição cronológica e por autor para estabelecer outros critérios que guiem o espectador pelos ciclos-chave da arte dos séculos XX e XXI.


Está previsto que esta reforma se conclua em Maio.








Disponível em: http://www.masdearte.com/
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quinta-feira, 26 de março de 2009


Foto Armando Cardoso



Este parte, aquele parte
e todos, todos se vão.
Galiza, ficas sem homens
que possam cortar teu pão

Tens em troca orfãos e orfãs
e campos de solidão
e mães que não têm filhos
filhos que não têm pais.

Corações que tens e sofrem
longas ausências mortais



Cantar de emigração, Rosalía de Castro
O nosso amargo cancioneiro, Livraria Paisagem, 1973 - Porto, Portugal












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segunda-feira, 23 de março de 2009




«Londres, mil novecientos siete.
Querido amigo: Siempre estuve segura, lo sabes, de que un día... Mas trata de excusarme si divago; es invierno y no ignoras cuán poco me ocupo de mí misma.Te espero. Los enebros han crecido y las tardes culminan hacia el río y los rojos islotes. Soy triste y, si no llegas, un tema de suspiros hundirá al gabinete, de un raso ajedrezado, en el inmundo estiércol del tedio y la derrota. Para ti habrá una torre, un jardín afligido y unas campanas graves húmedas de armonía; y no habrá té ni libros ni amigos ni advertencias, pues yo no seré joven ni querré que te vayas... »




(excerto de "Carta de una dama" de Vicente Nuñez)





Acabei de falar com um amigo e apeteceu-me Vicente Nuñez. Sem imagens nem rodeios. Sem outros adereços. Apenas Vicente Nuñez. A palavra pela palavra. Como seixo rolado na maré. Simplesmente. Apeteceu-me ... e voltarei a Vicente Nuñez.

O sentimento oceânico


fotografia d`AQUI




Assim, estamos perfeitamente dispostos a reconhecer que o sentimento "oceânico" existe em muitas pessoas e nos inclinamos a fazer a sua origem remontar a uma fase primitiva do sentimento do ego. Surge então uma nova questão: que direito tem esse sentimento de ser considerado como a fonte de necessidades religiosas? Esse direito não me parece obrigatório. Afinal de contas, um sentimento só poderá ser considerado como a fonte de energia se ele próprio for expressão de uma necessidade intensa. A derivação das necessidades religiosas, a partir do desamparo do bebé, e do anseio pelo pai que aquela necessidade desperta, parece-me incontrovertível, desde que, em particular, o sentimento não seja simplesmente prolongado a partir dos dias da infância, mas permanentemente sustentado pelo medo do poder superior do Destino. Não consigo pensar em nenhuma necessidade da infância tão intensa quanto a protecção de um pai. Dessa maneira, o papel desempenhado pelo sentimento oceânico, que poderia buscar algo como a restauração do narcisismo ilimitado, é deslocada de um lugar em primeiro plano. A origem da atitude religiosa pode ser remontada, em linhas muito claras, ao sentimento de desamparo infantil. Pode haver algo mais por detrás disso, mas presentemente, ainda está envolto em obscuridade. Posso imaginar que o sentimento oceânico se tenha vinculado à religião posteriormente. A "unidade com o universo" que constitui o seu conteúdo ideacional, soa como uma primeira tentativa de consolação religiosa, como se configurasse uma outra maneira de rejeitar o perigo que o ego reconhece a ameaçá-lo a partir do mundo externo. (...)




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Sigmund Freud, "O Mal-Estar da Civilização"


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domingo, 22 de março de 2009

Delicatessen




“Se o Universo é a infinita lembrança da esperança, ele é, por isso mesmo, a expressão cósmica da Saudade.Também a consciência humana resulta de um movimento reflexo do espírito criador sobre as suas formas já criadas, da esperança espiritual sobre a lembrança espiritual, da imaginação revolucionária sobre a memória conservadora. E, por isso, a alma, como síntese daquelas duas forças, é a expressão transcendente da Saudade.”



Teixeira de Pascoais: “Os Poetas Lusíadas”

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_________________________________________________________ obrigada.


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sábado, 21 de março de 2009





Toca, sente dentro
o mistério do mundo,
a porta radiosa
de cinco faces
o mundo falante
a rosa de fogo
o lírio de neve
o Verbo gerado
no seio cerrado
a noite negra
a face dourada
do anjo enviado
Pelo ar chegado
à câmara secreta



Dalila Pereira da Costa

in Hora de Prima






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Dia Mundial da Poesia no CCB






Depois do enorme sucesso da primeira edição, realizada em 2008, que trouxe ao CCB mais de duas mil pessoas, o programa para 2009, que volta a contar com o apoio do Plano Nacional de Leitura, alarga os horizontes geográficos da poesia feita em português: autores do Brasil, Angola, Cabo Verde e Moçambique, juntarão a sua voz aos seus confrades portugueses para celebrar a língua que todos falam – e na qual escrevem.


Poetas que lêem a sua poesia (e a de outros poetas), espontâneos que encontram o seu espaço para dar largas à sua vontade de comunicar através de um poema, oficinas em que as crianças (e os pais) aprendem a brincar com as palavras, pequenos concertos onde se apura a relação entre a palavra poética e a música, documentários onde se recolhe o rosto e a voz de poetas que já não estão entre nós, uma feira do livro exclusivamente dedicada aos poetas em língua portuguesa, uma maratona de leitura de Os Lusíadas, e mais, muito mais coisas ...






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Sublime


Le seul Orchestre Symphonique de RDC à Kinshasa

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quarta-feira, 18 de março de 2009

Mater dolorosa


Fotografia d`AQUI



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Língua Mater Dolorosa




Tu que foste do Lácio a flor do pinho
dos trovadores a leda a bem-talhada
de oito séculos a cal o pão e o vinho
de Luís Vaz a chama joalhada
tu o casulo o vaso o ventre o ninho
e que sôbolos rios pendurada
foste a harpa lunar do peregrino
tu que depois de ti não há mais nada,
eis-te bobo da corja coribântica:
a canalha apedreja-te a semântica
e os teus verbos feridos vão de maca.
Já na glote és cascalho és malho és míngua,
de brisa barco e bronze foste a língua;
língua serás ainda... mas de vaca.




Poema publicado pela primeira vez no livro "Inéditos", 1973-76, que integra a antologia de toda a poesia de Natália Correia, "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias"





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Lisboa tinha o mar mesmo ali. soberbo e submisso em ondas de volúptia. em carradas de peixes luminosos e traineiras brancas e azuis com nomes em letras grandes e vermelhas. lembrou-se da fogueira dos ciganos. do mistério rubro que andava à solta pelas noites de Agosto.







Isabel Mendes Ferreira

in “A mais loura de Lisboa "

terça-feira, 17 de março de 2009













Foto " Mar de Sesimbra", Fábio Vicente - Fevereiro 2009
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Dormir um pouco — um minuto,
um século. Acordar
na crista
duma onda, ser
o lastro de espuma
que há no sono
das algas. Ou
ser apenas
a maré, que sempre
volta
para dizer: eu não morri, eu sou
a borboleta
do vento, a flor
incandescente destas águas.





Albano Martins, in "Castália e Outros Poemas"












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The Oyster Eater - Jan Steen


Este quadro de extrema delicadeza e enorme sedução é mais pequeno que uma folha A4. Uma verdadeira preciosidade. Encontra-se exposto numa das salas dedicada à pintura de Jan Steen  no http://www.mauritshuis.nl/ em Haia.

domingo, 15 de março de 2009

Como, logo existo

http://depressioncooking.blogspot.com/


Clara is a 93 year old cook and Great Grandmother. She is 100% Sicilian-American and grew up in a Chicago suburb, Melrose Park. She survived the Great Depression and claims to have actually gained weight during America's worst state of financial despair. How did she accomplish this? Check out her cooking show and discover her secret! Feel free to leave Clara a note at: DepressionCooking@gmail.com

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Segui esta pista e lá fui. Espreitei. Achei deveras interessante ... afinal nos momentos de crise o que ainda nos pode salvar é a reserva de conhecimentos, inteligência de antigos emigrantes de zonas periféricas, que rumaram ao novo mundo para trabalhar e viver. Pessoas que nunca esqueceram os tempos difíceis e que agora foram buscar ao património das famílias ensinamentos de sobrevivência e de enorme bom senso. Esta mulher (mãe a avó) americana de origem Siciliana, desencantou antigas receitas que ensinam a cozinhar com pouco dinheiro sem descurar, nos mais pequenos pormenores, o gosto e a qualidade dos pratos confeccionados. Isto é um acto de cultura da maior eloquência e responsabilidade. Clara podia chamar-se Maria, Amélia ou Joaquina. No mais ancestral gineceu, que sempre foi a cozinha, agora mediatizado por via da crise, esta e outras mulheres, um pouco por todo o mundo, mostram-nos que a comida é muito mais do que sustento; mostram-nos que a comida também é "boa para pensar"; que nos dá existência social, confirmando o pensamento de Lévi-Strauss. É no panelão das comidas, no acto de cozinhar, que se apura a mais subtil hibridação; é pelo fogo que se forja a prodigiosa simbiose entre natureza e cultura. Por força das necessidades, os emigrantes, desenvolvem formas criativas de sublimar a privação e ultrapassar as dificuldades. Desenvolvem-se adaptabilidades históricas. Cozinhar com poucos meios não significa comer mal. Clara lembra que as massas, a "pasta", era o prato diário em sua casa, na grande depressão de trinta. As massas não só saciavam a fome como cimentavam os laços entre pessoas de uma origem determinada. A comida é um meio poderoso de união (de comunhão). Quanto mais fragilizados, mais buscamos o que nos dá força, o que nos anima, o que nos lembra quem somos e de onde viemos. O padrão rural e os resquícios de uma cozinha frugal que a dureza de um passado recente impôs à maioria das pessoas dos países pobres do Sul, pode ser hoje uma tremenda mais valia. Ainda sabemos cozinhar, não perdemos o jeito de lidar com o fogo. A proximidade da terra, enraíza-nos, agarra-nos ao essencial. Ainda temos a rara capacidade de saber fazer muito, com muito pouco. Temos o gosto da comida e da mesa. Falta-nos cultivar o sentido da comunhão. Em tempo de crise, o sentido quase sagrado da comida (o valor da comensalidade) tem que ser retomado. É um valor fundamental da educação que a sociedade do lixo e do desperdício desgastou. Se a crise servir para o recentrar, nem tudo estará perdido. Ainda me lembro de levar uma palmada na mão por deitar pão para o chão. As minhas avós beijavam o pão antes de o deitar fora. Aprendi muito cedo que não se estraga comida. Que há preceitos no comer e no repartir. Cedo aprendi que a comida nos diferencia, que " como, logo existo ".

Domingo




Laura Letinsky photo





_______________________________________________ perdidamente






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A humanização dos ditadores nunca me preocupou muito. A desumanização de que foram capazes, essa sim, preocupa-me, a mim e a todas as pessoas decentes, acredito. É muito mais inquietante percebermos que alguém que ama, que sofre, que gosta de passear e de fazer festas a um cão, que sorri para a empregada, que se preocupa com as vinhas e gosta de um bom copo de tinto, alguém que aprecia os prazeres da vida, é o mesmo alguém que reprime sem misericórdia, que manda matar, que sabe da tortura e a aceita. A existência de “monstros” desculpabiliza os homens. Mas haver homens iguais a mim que são capazes de tais torpezas alerta-me para o vizinho e para mim próprio. Nada é certo na vida, e é conveniente estar atento. Logo uma série de televisão sobre a vida amorosa de Salazar não me apoquenta. Saber que ele foi também capaz de pequenas tropelias sentimentais, que mentiu, traiu, escondeu-se, foi hipócrita, beijou, desejou, acariciou a pele de alguém, agarrou uma mão, tocou com o pé forrado a bota no delicado pé da mulher que estava ao seu lado no jantar, ou que deu uma queca bravia para os lados de Santa Comba Dão, com francesa ou portuguesa que se lhe atravessava pelo caminho, enquanto “estava casado com a Nação”, não me causa especiais engulhos. A Pide, a censura, o Tarrafal, Humberto Delgado (e muitos mais, com idêntica sorte), a guerra de África, as perseguições políticas, a falta de liberdade, o cinzentismo deste País (que ainda se prolonga em tantos salazarentos que por aí há, basta ler meia dúzia de blogues carregados de bolor e de ódio), isso sim, foi trágico. Saber que “ontem” existiu um homem, que até gostava de mulheres, mas que não gostava de pessoas que pensassem diferente dele, e que esse homem pôde chegar ao poder e fazer de um País o que lhe apeteceu, com a conivência cobarde de tantos, isso sim é revoltante. No entanto, salazarinhos de aviário continuam por aí, mandando beijinhos a senhoras, e proclamando a vontade de passar a ferro e fogo tudo quando mexa de forma diferente da sua. Preocupante, sobretudo quando há gente de boa fé (enfim, esperemos que estejam de boa fé!) que vai atrás da voz da sereia inquinada pelo ódio. Portanto, fica-se sabendo que amor e ódio coexistem na mesma pessoa facilmente. Quando ouvi falar na rodagem de “A Vida Privada de Salazar”, antecipei o pior, depois de livro de Felícia Cabrita, que oferecia pistas para uma escabrosa história de sexo e poder. Quase todos os portugueses sabiam do que se pretendia ter sido um “flirt” platónico com a jornalista francesa Christine Garnier que, no Verão de 1951, veio a Portugal fazer-lhe uma entrevista que deveria durar umas horas e acabou numa longa estada no retiro do Vimeiro, que culminaria num livro, “Vacances avec Salazar”. Mas, para lá desta aventura sentimental (e sexual), muitas outras se foram depois conhecendo a Salazar.

Sobre o filme " A vida privada de Salazar ", escrito por Lauro António

Continua ... AQUI (a não perder)




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Leftovers


Laura Letinsky photo , Chicago, from Hardly More Than Ever, digital C-print, 29.2x37 in., 2002.
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"I began to think about the idea of leftovers. It became important for me on a number of levels, because it has to do with what you do after the promise, when you realize the promise is not possible. This is fundamental to any utopian notion - the promise and its demise.
You can't have utopia without its loss."
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Laura Letinsky, entrevista de julie farstad

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quinta-feira, 12 de março de 2009

Os Tentáculos da Escrita


Francesca Woodman. fotos








A escrita é um polvo, um molusco versátil. Tem infinitos recursos. Escapa sempre. Abstractiza-se. Disfarça-se, adensa-se, adelgaça-se, esconde-se. Impele-se rápida. Compreende tudo: ascese, consolo íntimo, entrega; fluxos, refluxos, invasões, esvaziamentos, obstinação feroz. O seu rigor é místico. É uma infinita demanda. Perscruta o inaudito. Sideral Alice atravessa todas as portas, todos os espelhos. Cruza, descobre, inventa universos. A escrita é um fragmento do espanto, já alguém o disse.




Ana Hatherly, in 'Tisanas'










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quarta-feira, 11 de março de 2009







Ecce Homo, pintura de Giulio Cesare Procaccini


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Foi o próprio asco que me deu asas e forças capazes de pressentir as fontes?

De verdade, eu tive que voar ao lugar mais alto para poder reencontrar a nascente do prazer!











Friedrich Nietzsche, em " Ecce Homo"


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O Homem não Foge da Dor

imagem AQUI



Não é verdade que o homem procure o prazer e fuja da dor. São de tomar em conta os preconceitos contra os quais invisto. O prazer e a dor são consequências, fenómenos concomitantes. O que o homem quer, o que a menor partícula de um organismo vivo quer, é o aumento de poder: é em consequência do esforço em consegui-lo que o prazer e a dor se efectivam; é por causa dessa mesma vontade que a resistência a ela é procurada, o que indica a busca de alguma coisa que manifeste oposição. A dor, sendo entrave à vontade de poder do homem, é portanto um acontecimento normal - a componente normal de qualquer fenómeno orgânico. E o homem não procura evitá-la, pois tem necessidade dela, já que qualquer vitória implica uma resistência vencida. Tome-se como exemplo o mais simples dos casos, o da nutrição de um organismo primário; quando o protoplasma estende os pseudópodes para encontrar resistências, não é impulsionado pela fome, mas pela vontade de poder; acima de tudo, ele intenta vencer, apropriar-se do vencido, incorporá-lo a si. O que se designa por nutrição é pois um fenómeno consecutivo, uma aplicação da vontade original de devir mais forte. Em tudo isto, a dor não só tem por consequência necessária a diminuição da sensação de poder, como até serve, na maioria dos casos, como excitante da mesma sensação de poder, sendo o obstáculo um stimulus dessa vontade de poder.




Friedrich Nietzsche, in 'A Vontade de Poder'


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Amo tracinho te












Quando pela primeira vez escrevi amote
fui repreendida
pela gramática
Não quis saber
Tinha-te mais comigo
Assim numa palavra só
Quando pela primeira vez soletrei
a-mo-te tive medo e com pressa e gula
te comi inteiro te reuni em mim
Quando pela primeira vez
nos começamos a separar respeitei a ortografia e sem dar
por isso separei-te de mim
amo tracinho te
Quando
pela primeira vez nos reunimos soletrei melancolicamente
a-ma-me como quem esbagulha uma romã
Quando
pela última vez me disseste amo tracinho te
tudo
estava certo e solitário
eu separada de ti por um pântano
de ninguém
tu à distância sem mim sem barco
e sem vontade
Esbracejei não me quis conformar
Acenei-te gritei-te de longe Amasme?
numa palavra só
de braços estendidos a lutar contra os ventos separadores
da ortografia e do alto mar
Respondeste gritaste
claro que te amo
te
amo
te
amo
escandiam os ventos e o eco
em duas palavras
separadas
Então entre mim e ti o pântano cresceu
Depois secou
Depois a crosta terrestre desfez-se e refez-se
E houve
Novos mares e continentes e tudo ficou provisoriamente
adulto e definitivo
reconciliado com a geografia e a gramática
eu
tu
solidamente
solidariamente sós





Teresa Rita Lopes


segunda-feira, 9 de março de 2009

Tabucchi discípulo





Morreu a 28 de Agosto de 2008, com 88 anos, a grande filóloga e lusitanista Luciana Stegagno Picchio. Aqui reproduzimos a homenagem que lhe foi feita no jornal italiano Repubblica pelo seu discípulo e amigo Antonio Tabucchi.






Ascolta, la voce, di Luciana
in Repubblica — 30 agosto 2008 pagina 52 sezione: CULTURA






Gli incontri della vita sono guidati dal caso, ma quando non lo si lascia scivolare impunemente davanti agli occhi e lo si "riconosce" allora il caso, da sua cieca natura di coincidenza aleatoria, rivela il senso misterioso che portava con sé, diventa "Occasione" come diceva Montale, entra nella nostra vita quale evento, alla stregua degli altri eventi fondamentali da cui la nostra vita è segnata e scandita. Il "caso" che mi condusse da Luciana Stegagno Picchio si chiama Fernando Pessoa, anche se allora non sapevo bene chi fosse. O meglio, significa uno studente che pensava di essere tagliato per la filosofia, la Sorbona, molto tempo ben perduto a Parigi a scoprire cose diverse dalla filosofia, la decisione di tornare in Italia perché quello studente si era accorto che la letteratura gli piaceva di più. E un piccolo libro di versi dall' aspetto povero, un' edizione a tiratura limitata comprato per puro caso su una bancarella andando alla Gare de Lyon: Fernando Pessoa, Bureau de Tabac. Tabaccheria. Titolo davvero singolare per una poesia, perché di una poesia si trattava, firmata oltretutto da un certo alvaro de Campos che lì per lì mi sembrò uno pseudonimo dell' autore. Pessoa, chi era costui? E il portoghese, che lingua era? E il Portogallo, dov' era? Da qualche parte era, ma per l' Italia e l' Europa non stava in nessun luogo, perché il Portogallo di Salazar aveva girato le spalle all' Europa e l' Europa aveva fatto lo stesso con lui. Eppure, che grande poeta era quel signore ignoto di un paese ignoto che scriveva in una lingua ignota: lo intuivo dalla traduzione francese. E come sarebbe stato bello conoscere la sua lingua. Anno accademico 1964-' 65. Mi iscrissi alla facoltà di Lettere e filosofia dell' Università di Pisa, la mia città natale. E, per puro caso, nel dipartimento di Filologia romanza c' era un insegnamento di Lingua e letteratura portoghese. E io un giorno andai a sentire una lezione. E qui il "puro caso" finisce e diventa un' altra cosa. Perché in cattedra c' era una donna bella ed elegante che con la voce che meritano di essere lette le grandi poesie leggeva un' antica poesia del medioevo portoghese, coeva della Scuola Siciliana, che parlava di lontananze e di nostalgie. «Ondas do mar de Vigo/se vistes meu amigo?/E ay Deus, se verra cedo!». «Onde del mar di Vigo, avete visto il mio amico? Dio mio, che torni presto!», e ancora: «Alte onde del mare, avete visto il mio amico? Dio mio, che torni presto!». E poi, dopo la lettura, la professoressa raccontava di quella Scuola poetica che nella Galizia e nel nord del Portogallo aveva elevato il gallego-portoghese a lingua poetica "speciale", a tal punto che Alfonso X di Castiglia l' aveva eletta per le sue Cantigas alla Vergine. Quel professore d' eccezione era Luciana Stegagno Picchio. Quell' anno, sotto la sua guida studiai quei trovatori, le loro cantigas di scherno, di amore e di amicizia e appresi i primi rudimenti della filologia romanza. Alla fine dell' anno, dopo un buon esame (un puro caso), ebbi una borsa di studio e partii per il Portogallo. Conobbi un paese, conobbi scrittori e poeti perseguitati dal regime ai quali mi aveva indirizzato Luciana. E conobbi Maria José, che in seguito sarebbe diventata mia moglie. Ma soprattutto "riconobbi". Nel Portogallo degli anni Sessanta riconobbi l' Italia di cui mi aveva parlato mio nonno: un paese imbavagliato, castigato da un lungo fascismo. Un paese povero ma con una cultura e un passato ricchissimi. Un paese orgoglioso che il regime poliziesco non era riuscito a soffocare. Paradossalmente in un regime totalitario riuscii a capire meglio il valore della democrazia, ad apprezzare ciò che avevo e che a quel paese mancava. Il Portogallo era ormai entrato prepotentemente nella mia vita. Grazie a Luciana Stegagno Picchio. Nel tempo di quella borsa di studio saltai una generazione: al mio ritorno Luciana non era più solo la mia professoressa, era insieme un maestro e un interlocutore, una persona da cui si impara e con la quale si discute. Intanto Maria José era venuta a laurearsi in Italia e con Luciana era nato un sodalizio, come se noi tre fossimo un pezzetto di Portogallo fuori dal Portogallo. Di quel sodalizio è anche risultato la rivista Quaderni Portoghesi (1977-1988), da noi fondata a Pisa, attraverso la quale portammo il nostro Portogallo (erano numeri tematici) nelle università europee ed americane. Vi creammo una direzione collegiale condivisa con amici lusitanisti come, fra gli altri, Fernanda Toriello. Luciana, come i veri maestri, mi ha insegnato che lo studio è fatto di fatica, di pazienza e di rigore, e mi ha insegnato che la filologia è un grande strumento: non serve solo per l' edizione critica di un testo antico, è un metodo di indagine e in qualche modo una visione del mondo. E nella cultura del mondo intero ho viaggiato anche grazie a Luciana. Perché il suo è sempre stato un metodo comparatista dove la letteratura di lingua portoghese era uno dei termini di paragone, ma non si limitava al Portogallo, all' Africa e al Brasile, si confrontava col mondo intero. La sua Storia del Teatro Portoghese, che è del 1964, per far capire al lettore italiano la dimensione di un Gil Vicente, di un Cardoso Pires, di un Luis-Francisco Rebello, ad esempio, tratta con familiarità Ruzante, Pirandello, Brecht, e altri autori universali. Un' analoga impostazione ha La Letteratura Brasiliana pubblicata da Sansoni nel 1972, e poi ripresa in un' edizione molto ampliata e aggiornata da Einaudi nel 1997. Uno straordinario esempio, quest' ultimo, di un sapere composito che con la letteratura accoglie il cinema, la musica, il folclore, l' antropologia, l' economia, la politica. è impossibile, in un articolo, dare la misura dell' eccezionale produzione scientifica e critica di Luciana: oltre quattrocento voci annovera la sua bibliografia che spazia dalle raffinatissime edizioni critiche dei trovatori gallego-portoghesi a quelle di poeti contemporanei come Murilo Mendes; i suoi studi teorici; i suoi lavori di linguistica con Roman Jakobson; le sue recensioni e i suoi articoli su la Repubblica; i suoi saggi su Pessoa scritti lungo una vita e raccolti in un volume recente che ho avuto l' onore di presentare al pubblico del Salone del Libro di Torino (Nel segno di Orfeo. Fernando Pessoa e l' avanguardia portoghese, Il Melangolo, 2003). Oggi che Luciana ci ha lasciato, so che il cordoglio tocca non solo la cultura italiana ma quella di molti paesi: col Portogallo, il Brasile, gli Stati Uniti, l' Angola e gli altri paesi africani di lingua portoghese, la Spagna, l' Inghilterra, la Romania. Qui, dove mi trovo, Vigo non è poi tanto lontana e le onde sono quelle dell' Oceano Atlantico. Con l' avvicinarsi del settembre il mare sembra gonfiarsi e le onde si fanno maestose. Mi piace chiudere questo mio ricordo con la voce della mia amica Luciana che mi risuona nella memoria. Legge un' antica poesia.


ANTONIO TABUCCHI
Pubblicato da via dei Portoghesi.
AQUI

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