quarta-feira, 11 de março de 2009

Amo tracinho te












Quando pela primeira vez escrevi amote
fui repreendida
pela gramática
Não quis saber
Tinha-te mais comigo
Assim numa palavra só
Quando pela primeira vez soletrei
a-mo-te tive medo e com pressa e gula
te comi inteiro te reuni em mim
Quando pela primeira vez
nos começamos a separar respeitei a ortografia e sem dar
por isso separei-te de mim
amo tracinho te
Quando
pela primeira vez nos reunimos soletrei melancolicamente
a-ma-me como quem esbagulha uma romã
Quando
pela última vez me disseste amo tracinho te
tudo
estava certo e solitário
eu separada de ti por um pântano
de ninguém
tu à distância sem mim sem barco
e sem vontade
Esbracejei não me quis conformar
Acenei-te gritei-te de longe Amasme?
numa palavra só
de braços estendidos a lutar contra os ventos separadores
da ortografia e do alto mar
Respondeste gritaste
claro que te amo
te
amo
te
amo
escandiam os ventos e o eco
em duas palavras
separadas
Então entre mim e ti o pântano cresceu
Depois secou
Depois a crosta terrestre desfez-se e refez-se
E houve
Novos mares e continentes e tudo ficou provisoriamente
adulto e definitivo
reconciliado com a geografia e a gramática
eu
tu
solidamente
solidariamente sós





Teresa Rita Lopes


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