segunda-feira, 23 de março de 2009

O sentimento oceânico


fotografia d`AQUI




Assim, estamos perfeitamente dispostos a reconhecer que o sentimento "oceânico" existe em muitas pessoas e nos inclinamos a fazer a sua origem remontar a uma fase primitiva do sentimento do ego. Surge então uma nova questão: que direito tem esse sentimento de ser considerado como a fonte de necessidades religiosas? Esse direito não me parece obrigatório. Afinal de contas, um sentimento só poderá ser considerado como a fonte de energia se ele próprio for expressão de uma necessidade intensa. A derivação das necessidades religiosas, a partir do desamparo do bebé, e do anseio pelo pai que aquela necessidade desperta, parece-me incontrovertível, desde que, em particular, o sentimento não seja simplesmente prolongado a partir dos dias da infância, mas permanentemente sustentado pelo medo do poder superior do Destino. Não consigo pensar em nenhuma necessidade da infância tão intensa quanto a protecção de um pai. Dessa maneira, o papel desempenhado pelo sentimento oceânico, que poderia buscar algo como a restauração do narcisismo ilimitado, é deslocada de um lugar em primeiro plano. A origem da atitude religiosa pode ser remontada, em linhas muito claras, ao sentimento de desamparo infantil. Pode haver algo mais por detrás disso, mas presentemente, ainda está envolto em obscuridade. Posso imaginar que o sentimento oceânico se tenha vinculado à religião posteriormente. A "unidade com o universo" que constitui o seu conteúdo ideacional, soa como uma primeira tentativa de consolação religiosa, como se configurasse uma outra maneira de rejeitar o perigo que o ego reconhece a ameaçá-lo a partir do mundo externo. (...)




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Sigmund Freud, "O Mal-Estar da Civilização"


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