domingo, 15 de março de 2009

Como, logo existo

http://depressioncooking.blogspot.com/


Clara is a 93 year old cook and Great Grandmother. She is 100% Sicilian-American and grew up in a Chicago suburb, Melrose Park. She survived the Great Depression and claims to have actually gained weight during America's worst state of financial despair. How did she accomplish this? Check out her cooking show and discover her secret! Feel free to leave Clara a note at: DepressionCooking@gmail.com

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Segui esta pista e lá fui. Espreitei. Achei deveras interessante ... afinal nos momentos de crise o que ainda nos pode salvar é a reserva de conhecimentos, inteligência de antigos emigrantes de zonas periféricas, que rumaram ao novo mundo para trabalhar e viver. Pessoas que nunca esqueceram os tempos difíceis e que agora foram buscar ao património das famílias ensinamentos de sobrevivência e de enorme bom senso. Esta mulher (mãe a avó) americana de origem Siciliana, desencantou antigas receitas que ensinam a cozinhar com pouco dinheiro sem descurar, nos mais pequenos pormenores, o gosto e a qualidade dos pratos confeccionados. Isto é um acto de cultura da maior eloquência e responsabilidade. Clara podia chamar-se Maria, Amélia ou Joaquina. No mais ancestral gineceu, que sempre foi a cozinha, agora mediatizado por via da crise, esta e outras mulheres, um pouco por todo o mundo, mostram-nos que a comida é muito mais do que sustento; mostram-nos que a comida também é "boa para pensar"; que nos dá existência social, confirmando o pensamento de Lévi-Strauss. É no panelão das comidas, no acto de cozinhar, que se apura a mais subtil hibridação; é pelo fogo que se forja a prodigiosa simbiose entre natureza e cultura. Por força das necessidades, os emigrantes, desenvolvem formas criativas de sublimar a privação e ultrapassar as dificuldades. Desenvolvem-se adaptabilidades históricas. Cozinhar com poucos meios não significa comer mal. Clara lembra que as massas, a "pasta", era o prato diário em sua casa, na grande depressão de trinta. As massas não só saciavam a fome como cimentavam os laços entre pessoas de uma origem determinada. A comida é um meio poderoso de união (de comunhão). Quanto mais fragilizados, mais buscamos o que nos dá força, o que nos anima, o que nos lembra quem somos e de onde viemos. O padrão rural e os resquícios de uma cozinha frugal que a dureza de um passado recente impôs à maioria das pessoas dos países pobres do Sul, pode ser hoje uma tremenda mais valia. Ainda sabemos cozinhar, não perdemos o jeito de lidar com o fogo. A proximidade da terra, enraíza-nos, agarra-nos ao essencial. Ainda temos a rara capacidade de saber fazer muito, com muito pouco. Temos o gosto da comida e da mesa. Falta-nos cultivar o sentido da comunhão. Em tempo de crise, o sentido quase sagrado da comida (o valor da comensalidade) tem que ser retomado. É um valor fundamental da educação que a sociedade do lixo e do desperdício desgastou. Se a crise servir para o recentrar, nem tudo estará perdido. Ainda me lembro de levar uma palmada na mão por deitar pão para o chão. As minhas avós beijavam o pão antes de o deitar fora. Aprendi muito cedo que não se estraga comida. Que há preceitos no comer e no repartir. Cedo aprendi que a comida nos diferencia, que " como, logo existo ".

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