quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Mesquitela Lima " As vidas não têm preço "

Mindelo 1929Lisboa 2007
antropólogo e escritor cabo-verdiano _______________________________________________________________
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Ali estava a sua vida de cidadão, pelos livros, pelos retratos de homem amado, pelas vivências de docente e de conferencista, mas também pelos movimentos de rebeldia política e sobretudo pelas savanas e planaltos de Angola. Aqui viveu desde 1969, até se instalar, pós-25 de Abril, no rés-do-chão de um prédio antigo da Rua Alves Redol, voltado para a escadaria do sobe e desce estudantil do Instituto Superior Técnico de Lisboa.

É aqui que tenho as minhas peças... como as poderia guardar? encaixotadas não falavam comigo...”, explicou-me perante a minha surpresa de, mal ter entrado pela porta da cozinha, onde o professor tomava o pequeno almoço, me encontrar em pleno “museu”, transplantado na sequência da descolonização portuguesa de Angola onde criou o Museu do Dondo.
E foi através desta incursão que o neto do que foi governador de Cabo Verde em 1913, D. Bernardo Mesquitela, assumiu o papel de catedrático (jubilado da Universidade Nova e actual director do Instituto Superior de Gestão), na pesquisa da compreensão do “homo sapiens” e me transportou para uma viagem na História. Diz quem o teve como professor que “ele era sempre assim. Tinha o dom da palavra, nunca se sentava nas aulas e levava os seus alunos a sentirem-se protagonistas dos factos”.


Augusto Mesquitela Lima, que estava a escrever sobre “O Caos” (obra científica) dedicava muito do seu tempo, em palestras, conferências e eventos sobre Cabo Verde. Estudou em Portugal numa altura em que os Estudantes da Casa do Império, em Lisboa, germinavam as “independências” das colónias. Doutorou-se em França e Estados Unidos quando se viviam as experiências “inigualáveis de camaradagem”, assim dizia do “Maio 68”, chegando a estar preso por aderir a esse movimento.

Entre países de toda a África, mas também da Índia, Brasil e China, é de Angola, terra da sua mulher que predomina o povoamento que se agarrava às paredes de sua casa: “Este é o meu mundo, o ser humano e seu comportamento são a minha paixão”, dizia o professor enquanto pelo corredor, repleto de vitrinas, cheias, me apontava: “Aqui um bronze do Benim, uma peça raríssima; ali “são homens tchokoe e kioko”, acolá “huílas” de Angola”. Em seguida, indicava-me desenhos de mulheres africanas cujas tribos se distinguem pelos penteados, adornos, danças, num Continente a que se atribui a origem do ser humano, tese que o antropólogo corroborou.
A expansão museológica prosseguia em direcção à sala onde um confortável sofá e uma mesa clássica eram os únicos elementos que caracterizam um espaço para refeições em ocasiões especiais. Por todo o lado, miniaturas de peças artesanais, pinturas executadas por amigos como Kiki Lima ou Malangatana, se misturavam com outras de maior porte como a cadeira de um rei africano, os bancos de régulo, fotografias de “senhores” cuja ostentação do poder está simbolizada por um “homem grande” com óculos de ouro, mas sem lentes.


Mesquitela Lima buscava nestes objectos, sempre a reminiscência humana e até dos Imbondeiros, retratados em quadros - árvore peculiar, de copa de folhas tão pequenas e um tronco tão largo que, escavado, se torna habitação de humanos - procurou, num trabalho fotográfico, formar “uma sinfonia de seres enigmaticos”.


No escritório emergia, de montes de livros já sem espaço (perto de 30 mil), uma secretária com um computador que aguardava a memorização, sempre adiada, de todo este espólio. Entre tantos autores e temas estão também os seus mais de 30 trabalhos científicos, o primeiro dos quais, aos 19 anos, intitulado “Tatuagens da Lunda”. E na convicção de que “todo o profissional de antropologia possui algo de escritor “publicou também uma obra sobre a poesia do compositor de ascendência italiana, Sérgio Frusoni e um comentário literário sobre o manuscrito nos anos 50, para teatro, de Nhô Djunga, como era conhecido o fotógrafo João Cleofa Martins, ambos do Mindelo, sua terra natal.

Sempre por perto, aquela angolana de olhos verdes, de quem tem três filhos e uma vida de 49 anos de “cumplicidades, de bons e maus momentos”, acompanhou-o neste recuar da memória, sem tempo.


O quarto do casal, limitado a uma cama e um roupeiro, aparentava ser o repouso do “guerreiro” vigiado apenas pela vasta colecção de misteriosas máscaras ao lado das quais permanecerá, virtualmente, a sua: a de um antropólogo e investigador, um actor social que gostava de ser eterno e que deu a sua alma ao serviço do conhecimento dos povos. Que a sua obra seja pois, alimento de outros homens e mulheres Grandes.
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Fonte: Jornal A Semana Online 17-01-07, por: Otília Leitão

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