domingo, 17 de agosto de 2008

Misterieza


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“Há realidades que nunca entenderei, mesmo que esgote o vocabulário e a evocação da língua de beleza. É o inabitual que se chama mistério, corrijo – misterieza. Por esta rua, também não há sentido contrário, e penso em Benjamin, no seu suicídio permitido pelo Anjo da História, fruto de uma tentativa sem o segundo prato da balança, com as suas línguas, os animais cantores de leitura a aproximarem-se dele, e eu, uma entre eles; não sei por que nos chamamos assim, em vez de seres humanos cantores de leitura. (…) Os livros padecem de quem lê, que perdeu a capacidade de os provar; de os estimular, de os tornar fáceis sendo difíceis para o seu gosto anterior que não se desenvolveu para a flor da metamorfose; se a maior parte dos livros fossem sentimentos, seriam sentimentos mortalmente tristes, e as suas origens estariam desesperançadas. É esta conversa que tenho com os meus animais, na noite da chuva que tepidamente desce. São muitíssimos, nem sei quantos há, mas reconheço-lhes a qualidade; qualidade de recebê-los com um tom tão hospitaleiro que prefiro ser o hóspede da casa. Se eles têm nas mãos um livro, não me resigno a ele, dou-lhe luta que, às vezes, faz sangue no meu texto.”


Em "Os Cantores de Leitura", 2007

Maria Gabriela Llansol






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