terça-feira, 16 de junho de 2009

Laboratório das memórias


à procura dos nitratos ...


( ... )





A antiga " Foto Melo ", é um mundo de emoções e recordações. Não há viva alma no Mindelo que não tenha um retrato feito por Papim ou pelo pai, D`Jin D`Jon













Milhares e milhares de imagens fotográficas, que numa primeira estimativa podem ascender a mais de cem mil, representam as famílias e os quotidianos mindelenses em expressivos retratos de época, captadas por duas gerações de fotógrafos caboverdianos – João Melo (D`Jin D`Jon) o fundador da Foto Melo na ultima década de séc XIX e mais recente, Eduardo Melo ( Papim) homem de riso aberto, coração bom, amante do belo e da natureza, dotado de luz e de um imenso sentido de humor que ainda hoje adocica a memória de quem a ele se refere. Espalhou sodade, admiração e paixões. 

 
O acervo é propriedade da família e ela cabe decidir o futuro deste património.
São cinco, ao todo, os filhos do Papim e, alguns, seguindo a tradição da família e de muitas outras famílias cabo-verdianas, que no princípio do séc XX, embarcaram no "Ernestina" rumo à América, alguns destes também assentaram arraiais na Califórnia e por lá ficaram. Segundo relatos de familiares próximos, os filhos de Papim são grandes admiradores do pai, apreciam-lhe o carácter e o génio, mas nenhum seguiu a profissão. Assim quando, há cerca de dez anos, desapareceu o fotógrafo o "assunto" ficou arrumado; adormecido em caixas de papelão num canto da casa de José Melo, um dos muitos sobrinhos do Papim, dirigente da "Biosfera", prestigiada associação ambiental de Cabo Verde.

Estas imagens mais do que simples fotografias (do que simples chapas), constituem um valioso património documental profundamente enraizado nas memórias e nos afectos das famílias de S. Vicente.
Num primeiro levantamento, foram identificados vários processos fotográficos: negativos em suporte de vidro e em película, tais como os negativos em nitrato e acetato de celulose a preto e branco e alguns escassos cromogéneos, acondicionados em envelopes "fabricados" pelos autores, reaproveitando cartas, facturas, cadernos de escola, folhas de revistas e jornais, e outros papéis e papelinhos, de toda a natureza e feitio que, só por si, constituem uma rara (e absolutamente inesperada) iconografia associada, que só o improviso tornou possível. Também foram identificadas provas impressas em papel de revelação, algumas das quais montadas em álbuns fotográficos, representando vistas panorâmicas da ilha de S. Vicente, eventos sociais, procissões, festas, bailes, barcos, viagens de família, entre outros assuntos. A amostra até agora trabalhada, revelou-nos que a larga maioria das imagens são retratos de pessoas e/ou grupos em atitude de pose, tendo como fundo um telão, com uma vista da baía do Mindelo, pintado numa parede do antigo estúdio da Foto Melo. São imagens cuidadosamente encenadas, ao estilo e gosto da época. Por tudo isto a Foto Melo está na vida da grande maioria das famílias de S. Vicente, que descrevem ao minímo detalhe o instante fotografado e as sensações experimentadas.
Nesta primeira fase, a equipa técnica improvisou no Mindelo, em casa particular, um laboratório para observação dos espécimes fotográficos, preocupando-se em recolher dados para execução de um relatório técnico, que dará conta do estado da colecção e remeterá para um plano de tratamento, conservação, estudo e comunicação (acessibilidade das imagens, produtos relacionados, exposições, etc.), a entregar a todas as partes envolvidas, com natural primazia para a família Melo, proprietária do acervo, que despoletou este processo de observação e pesquisa. Foram também tomadas medidas de emergência que visaram minimizar os factores de deterioração em que se encontrava esta colecção, que passaram pela sua transferência para uma outra casa da família Melo, na cidade do Mindelo, que reúne melhores condições ambientais e de segurança. Esta solução de emergência responde, no momento, a uma necessidade imediata de preservação mas é obviamente provisória até que se encontre, com o acordo das partes, o espaço adequado à sua conservação, estudo e musealização (*), tornando-o acessível a todos os mindelenses e a quem os visita. O imenso acervo da antiga "Foto Melo" é um património de inegável valor identitário e de memória para São Vicente, um património histórico e estratégico de Cabo Verde e um inesgotável laboratório para o estudo da arte fotográfica e da imagem como produto de uma técnica e signo de cultura, relevante em qualquer parte do mundo. É um património artístico que, devidamente conservado e musealizado , poderá contribuir para criar postos de trabalho, emprego qualificado na área da cultura e do património, mais conhecimento sobre a História e as pessoas de Cabo Verde. A exemplo de outros arquivos do género, as edições de produtos associados, poderão contribuir para garantir a sustentabilidade e reverter para o estudo e conservação do acervo, prestando serviços úteis à comunidade que garantam a satisfação das pessoas e a operacionalidade social deste raríssimo bem cultural. A "Foto Melo" foi uma casa de prestígio e poderá continuar a ser, uma marca de qualidade para São Vicente. Estes acervos (e existem vários, ligados à fotografia e ao cinema em Cabo Verde) são espelhos da sociedade mindelense que se fundem num caleidoscópio de espantos e ilusões, profundamente inspirador.

Agradecimentos especiais a Lígia Leite, bibliotecária da Biblioteca Municipal do Mindelo, Josina Freitas, directora do CCM - Centro Cultural do Mindelo, Daniel Brito e Antónia Mosso, proprietários da Livraria Semente e Tiago Peixoto, biólogo e investigador na área da Ecologia Marinha (que nos deu casa e companhia na rua da Praia). A todos obrigada pela amizade, pela colaboração e pelo excelente acolhimento.






Mindelo, 16 de Junho de 2009

Isabel Victor e Bruno Ferro



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(*) Missão criada no âmbito do Centro de Estudos de Sociomuseologia  da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias de Lisboa em cooperação da Câmara Municipal de Setúbal/Arquivo Fotográfico Américo Ribeiro/ Divisão de Museus



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