ce désir sauvage, certain jour,
de mêler du sang et des blessures
aux gestes contractés de l’Amour
et de percevoir, sous les morsures
qui perpétuent le goût des baisers,
les sanglots de l’amante, et ses râles…
ah! rudes désirs inapaisés
de mes noirs ancêtres canibales…
léon laleau
in: anthologie de la nouvelle poésie nègre et malgache de langue française, organizada por l. s. senghor
______________________________________________________________________________
citado por http://www.salamalandro.redezero.org/canibal-um-poema-de-leon-laleau-poeta-haitiano/
__________________________________________________________________________________
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
A deusa. Quem é a deusa ?
Agostinho da Silva responde a André Abrantes Amaral, em entrevista gravada, em 1990, numa manhã de Abril, no miradouro de São Pedro de Alcântara. no âmbito de um despretensioso exercício académico do 10º ano, realizado por três curiosos estudantes, para a disciplina de jornalismo.
sigam-me ... )
AA – O senhor professor é católico?
AS – Olhe não sei, se sou, se não. Sabe? __________Não me sinto autorizado... Se eu fosse o Papa... Mas como não sou, não sinto autoridade de decidir uma coisa dessas. Bom, uma das coisas que definem ser católico é ser baptizado, eu não consenti o baptismo, mas os meus pais acharam que me deviam baptizar e baptizaram, não é assim? Bem, depois pergunto: O que é ser católico? Perguntam-me: “ É católico?” Por exemplo baptizado, “ sim senhor, sou baptizado.”
Agora se me perguntam, se acredito num Deus criador do mundo, digo “ Querido amigo que grande atrapalhação.” Se vou para a física, o físico não diz o mundo, o físico diz o universo não foi criado. Mas há que estabelecer uma diferença entre universo e mundo? Claro que há!
O universo é um termo que resume tudo: Imaginado e não imaginado. E o mundo? O mundo, e agora vou dar a grande novidade, o mundo é um adjectivo. Toda a gente acha que o mundo é um superlativo, mas não, é um adjectivo. É um adjectivo, porque se pensarem, o contrário de mundo é imundo. E imundo toda a gente acha que é um adjectivo. Então se imundo significa sujo, complicado, alguma coisa de que me afasto, mundo o que é? Significa límpido e puro. É verdade! O Camões tem uma frase em que fala das limpas almas. São almas puras, almas límpidas. Então o mundo o que é? É aquela parte do universo, que nós percebemos. O universo pode ser infinito, sabe-se lá o que há. Mas o mundo, é aquilo que eu percebo. Agora se eu digo: “Deus criou o mundo.”
Vocês perguntam: “ Mas você acredita que Deus criou o mundo?” Se, o mundo, as possibilidades de ele se conhecer no universo, me é dada por alguma coisa fundamental, no dito universo, eu aceito que sim. “É a criatividade?” “Hã?”. A única coisa que não foi criada no mundo é a criatividade. Essa não podia ter sido criada porque ela é ela própria. Mas se o senhor me diz: “Então, você acredita que há criatividade no mundo?” Como não hei-de acreditar? Está no próprio universo, na cor das asas das borboletas, na matemática que se vai inventando, naquilo que se sente na vida, em qualquer dessas coisas, Então você diz: “ Deus é a criatividade” Vamos a isso. Mas o Papa concordava com você? Ele não. Mas o que há é uma ultima instância da Igreja católica, que é o Papa ou o Concílio, o que vocês a quiserem nesse sentido. Cada coisa, quando se resolve fazer isto ou aquilo, tem que se chegar a todas as espécies de definições.
Bem então o próprio Cristo: Cristo é considerado na igreja, O filho de Deus. O que significa isto, ser filho de Deus? Claro que se há um Deus criador do mundo, no primeiro momento antes de ele criar o mundo esse Filho aconselha Deus a esconder que ele existia, portanto havia uma segunda personagem, que se pode dizer filho da primeira personagem e acusando o ouvir o divino em si mesmo o que dá perfeitamente a questão do Espírito Santo. Bem portanto, o difícil, não é ser católico, o difícil é não ser outras coisas também. Se eu disser assim: Você é dos Judeus?” “Sim.” Então acredita no Deus criador mas não em Cristo. Porque ai houve logo uma reivindicação. “Então e os deuses que tinham os gregos, que tal? “Muito bem, acredito; Sim. Naquele ideal de ter liberdade, nessa coisa toda.” Mas há uma coisa que eles nunca conseguiram: Foi verem-se livres das prisões de espaço e de tempo, que prendem o homem, que não deixam ser tão alto como eram os deuses, que eles imaginavam. Mas há alguma hipótese de ser, de chegar a isto? Talvez haja! E então sito Camões. Então sito Camões, onde? Na ilha dos amores e você diz: “Então quem é este, que sita a ilha dos amores?” Claro. O Camões disse: “ Enquanto se trata de cumprir uma empresa, todos nós temos de ser disciplinadíssimos” Senão como é que o Vasco da Gama chegava a Índia? Mas depois de cumprir a empresa, a nossa obrigação é sermos nós próprios.” Todos aqueles marinheiros que desembarcaram na ilha dos amores, eles já não são mais marinheiros, nem coisa nenhuma, eles são eles próprios! O que é que fazem na ilha? Isso é extremamente interessante. Eles primeiro livram-se do corpo, esquecem-se que têm corpo. Se alguém vos perguntar: “ Qual é a primeira coisa para uma pessoa se esquecer que tem corpo?” Bem, uma economia que satisfaça todas as necessidades, e depois uma ciência que ajude a superar a doença quando ela aparecer. Bem e o que é que acontece? Eles por exemplo livraram a cabeça de toda a espécie de pesadelos que o corpo cria e ficaram com a cabeça limpa, para escutar quem? A deusa. Quem é a deusa? É o nome que Camões dá a criatividade. A deusa fala aos portugueses e o que é que acontece? Acontece que ele conhecem o futuro e vêm-se livres do tempo, sabem o que acontece do outro lado do mundo, porque a deusa lhes mostra a máquina do mundo, lá ao longe e diz: “Estão fora do espaço.” Portanto livres de impostos, livres do tempo e do espaço, prontos a ouvir a deusa e a nascerem com a criatividade. E onde é que nós achamos a criatividade no mundo? Na arte, na ciência e na mística. Portanto, quando o homem pretende lançar-se à arte, à ciência e à mística ou à metafísica ou à filosofia, como vocês quiserem, o homem casou-se com a deusa. Então Camões foi o único a falar nisso? Não! O outro que falou nisso foi Vieira! E o jesuíta a par do aventureiro? E o jesuíta a par do aventureiro! Claro que as receitas que dá o Vieira, para a pessoa se livrar do corpo, não são as mesmas que deu o Camões. São a meditação de qualquer religião que a pessoa tenha, e mais, isto aquilo de preceitos e aquela coisa roda. Para ouvir a voz de quem? O Vieira não diz a deusa, diz Deus. Que também é criatividade. Portanto no século XIII, com Camões e com Vieira, uff, isto...
E depois ainda com Pessoa, os portugueses recebem todo este conceito do estimulo da história, e estudando o programa dos descobrimentos é que havemos de fazer os descobrimentos do futuro: Como é que nós vamos caminhar, para estarmos com a nossa vida bastante livre e promovida por nós próprios, para podermos fazer a arte, fazer a ciência, fazer a mística, casando-nos com a criatividade. Vocês então perguntam: “ Excepcional, como é?” Pois até agora, só estivemos raciocinando, não estivemos fazendo poesia nem sonho. Simplesmente, estamos presos às coisas, que tem de se dar tempo a que o pão rebente, e primeiro devemos ter uma prática exactamente como temos o sonho, e toda a nossa vida deve ser o levar a prática a coincidir com o sonho, ou seja, fixar o horizonte tanto que se amplie esse mesmo horizonte.
__________________________________________________________________________
sábado, 16 de janeiro de 2010
Terramoto. magnitude 7. Haiti .16h53. terça.12.epicentro. Leogane
______________________________________ A desgraça rasgou dramaticamente o anonimato. Trouxe rostos à boca de cena (infelizmente suplicantes ... ) seria bom tê-los conhecido antes ________________________________
_____________________________________________________________________________
le rappeur américano-haïtien Wyclef Jean (photo) appelle à la solidarité internationale.
"A chaque heure qui passe, nous apprenons la mort ou la disparition d'un artiste, assure le critique musical de FRANCE 24, Amobe Mevegue. Nous sommes par exemple sans nouvelles d'un groupe célèbre, Boukman. C'est une situation très inquiétante."
La chanteuse Emeline Michel, le groupe Tabou Combo, l'écrivain Dany Laferrière... Haïti jouit d'une scène culturelle très riche. Deux jours après le séisme, toute la communauté artistique est ébranlée.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
"... como nos LIVROS ... nos romances de cavalaria, um amor cortêz ... "
elf
in "a nave dos amantes", ed corpos celestes, espaço sideral, sd
Em fundo, ouço as notícias tristes que sopram do Haiti
Desalento fustigado pela [incomensurável] tragédia ...
_________________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
Empty Plate, New York, 1947 © Irving Penn
(...) por mais estranho que possa ser o claustro e a palavra reiterada. como desaguantes pedaços de um coração chegam-me o mármore e a espada. amanheço pelo ruído de um tambor e com a chama do antigo. que é volúpia inconfidente. ai quantos ais são colisões e cálices de lata_________ai deuses de argamassa que assim nos são sangria. ah______quem dera ser a face de Eckhart.
isabel mendes ferreira
_________________________________________________________________________
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
HOJE
Fotografia: Irving Penn
_____________________________________________________________________________
O dia não foi meu
e tantos outros que o não são
erro no calendário
ou voluntária distracção
E os dias que foram meus
gestos de outros são
que se dão a quem os quer
nos dias que o não são
E da pressa de os perder
do descanso de os contar
ganho vícios da noite
que me sabem perdurar
HOJE, Marcelino Vespeira
in " A única real tradição viva", ed. Assírio & Alvim
_______________________________________________________________________________________________
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
ODE DESCONTÍNUA E REMOTA PARA FLAUTA E OBOÉ. DE ARIANA PARA DIONÍSIO.
Cleopatra with the Asp (1630), Royal Collection, Windsor; Reni, Guido
É bom que seja assim, Dionisio, que não venhas.
Voz e vento apenas
Das coisas do lá fora
E sozinha supor
Que se estivesses dentro
Essa voz importante e esse vento
Das ramagens de fora
Eu jamais ouviria. Atento
Meu ouvido escutaria
O sumo do teu canto. Que não venhas, Dionísio.
Porque é melhor sonhar tua rudeza
E sorver reconquista a cada noite
Pensando: amanhã sim, virá.
E o tempo de amanhã será riqueza:
A cada noite, eu Ariana, preparando
Aroma e corpo. E o verso a cada noite
Se fazendo de tua sábia ausência.
II
Porque tu sabes que é de poesia
Minha vida secreta. Tu sabes, Dionísio,
Que a teu lado te amando,
Antes de ser mulher sou inteira poeta.
E que o teu corpo existe porque o meu
Sempre existiu cantando. Meu corpo, Dionísio,
É que move o grande corpo teu
Ainda que tu me vejas extrema e suplicante
Quando amanhece e me dizes adeus.
III
A minha Casa é guardiã do meu corpo
E protetora de todas minhas ardências.
E transmuta em palavra
Paixão e veemência
E minha boca se faz fonte de prata
Ainda que eu grite à Casa que só existo
Para sorver a água da tua boca.
A minha Casa, Dionísio, te lamenta
E manda que eu te pergunte assim de frente:
À uma mulher que canta ensolarada
E que é sonora, múltipla, argonauta
Por que recusas amor e permanência?
IV
Porque te amo
Deverias ao menos te deter
Um instante
Como as pessoas fazem
Quando vêem a petúnia
Ou a chuva de granizo.
Porque te amo
Deveria a teus olhos parecer
Uma outra Ariana
Não essa que te louva
A cada verso
Mas outra
Reverso de sua própria placidez
Escudo e crueldade a cada gesto.
Porque te amo, Dionísio,
é que me faço assim tão simultânea
Madura, adolescente
E por isso talvez
Te aborreças de mim.
(...)
_____________
[Júbilo memória noviciado da paixão (1974)]
[in Poesia: 1959-1979/ Hilda hilst. - São Paulo: Quíron; (Brasília): INL, 1980.]
_____________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________
sábado, 2 de janeiro de 2010
Eu sou a fotografia _______________________________________________________

"Nenhum sonho se cumpre. Um sonho é sempre o sonho de um sonho."
"A ditadura portuguesa foi de sacristia. A ditadura no Brasil foi de quartel." Quem fala assim, com conhecimento de causa, é Fernando Lemos, 83 anos de idade, radicado no Brasil há quase seis décadas. Fernando Lemos - surrealista que, como Man Ray, se notabilizou através da fotografia - é a memória viva de grande parte da melhor inteligência lusa e brasileira do século XX. Criador multifacetado e crítico felino do "português suave".
Fernando Lemos está em Portugal. Visitei, há dois dias, a magnífica exposição de fotografias (cerca de meia centena) da sua autoria na Fundação Cupertino de Miranda, em Famalicão.
Até final de Fevereiro do novo ano, vale a pena ______________________
impressionaram-me sobretudo os retratos (cinematográficos) de Hilda Hilst, Lígia Fagundes Teles, Jorge de Sena, António Pedro, Jacinto Ramos, José Viana, José Cardoso Pires, Cesariny, Vieira da Silva e Sofia de Melo Breyner, entre outros, realizados nas décadas de 40/50 do sec XX. Um poeta da imagem, há mesmo quem lhe chame o "Agostinho da Silva da fotografia". Não arriscaria tal comparação, mas acho que se igualam no génio, na inquietação, na interpelação dos olhares, no arrojo do pensamento. Uma exposição a não perder com catálogo anunciado para Março. Até lá, está à venda na Fundação, pela módica quantia de quinze euros, o recheado catálogo de 188 páginas de uma outra exposição sobre a vida e obra deste fascinante e multifacetado artista; um belíssimo livro editado pelo Sintra Museu de Arte Moderna - Colecção Berardo, em 2005, por altura da exposição retrospectiva denominada " Fernando Lemos e o Surrealismo ".
Ler AQUI entrevista / Fernando Lemos: Eu sou a fotografia - Cultura - PUBLICO.PT
______________________________________________________________________________
quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
2010: o ano do Contacto
______________________________________
Um prodigioso Ano
VivA !
___________________
quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
Caiu sobre o país uma cortina de silêncio
a voz distingue o homem mas há homens que
não querem que os demais se elevem sobre os animais
e o que aos outros falta têm eles a mais
no dia de natal eu caminhava
e vi que em certo rosto havia a paz que não havia
era na multidão o rosto da justiça
um rosto que chegava até junto de mim de nicarágua
um rosto que me vinha de qualquer das indochinas
num mundo onde o homem é um lobo para o homem
e o brilho dos olhos o embacia a água
Caminhava no dia de natal
e entre muitos ombros eu pensava em quanto homem morreu
por um deus que nasceu
A minha oração fora a leitura do jornal
e por ele soubera que o deus que cria
consentia em seu dia o terramoto de manágua
e que sobre os escombros inda havia
as ornamentações da quadra de natal
Olhava aquele rosto e nesse rosto via
a gente do dinheiro que fugia em aviões fretados
e os pés gretados de homens humilhados
de pé sobre os seus pés se ainda tinham pés
ao longo de desertos descampados
Morrera nesse rosto toda uma cidade
talvez pra que às mulheres de ministros e banqueiros
se permita exercitar melhor a caridade
A aparente paz que nesse rosto havia
como que prometia a paz da indochina a paz na alma
Eu caminhava e como que dizia
àquele homem de guerra oculta pela calma:
se cais pela justiça alguém pela justiça
há-se erguer-se no sítio exacto onde caíste
e há-de levar mais longe o incontido lume
visível nesse teu olhar molhado e triste
Não temas nem sequer o não poder falar
porque fala por ti o teu olhar
Olhei mais uma vez aquele rosto era natal
é certo que o silêncio entristecia
mas não fazia mal pensei pois me bastara olhar
tal rosto para ver que alguém nascia
" Um rosto de Natal ", Ruy Belo - Todos os Poemas II. Lisboa: Assírio Alvim, 2004
______________________________________________________
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
ALBERTO MUSSA ELOGIADO EM FRANÇA
A versão francesa de “O Enigma de Qaf”, de Alberto Mussa, estará oficialmente nas livrarias em Janeiro de 2010, mas mereceu já uma referência muito elogiosa na “Livres Hebdo”, revista de referência sobre literatura e mercado editorial, por um dos mais respeitados críticos franceses, Jean-Maurice de Montrémy: «Este livro teria encantado Borges e Cortázar» disse ele, e ainda: «O leitor só pode deliciar-se com a cultura, a imaginação, o requinte e a inteligência de Alberto Mussa».
Romance galardoado com os prémios da Associação Paulista dos Críticos de Arte (2004) e da Casa de Las Américas (2005), "O Enigma de Qaf" foi editado em 2008, em Portugal, pela Campo das Letras. Traduzido para inglês, espanhol, italiano e agora para francês, será lançado pela editora Anacharsis, uma nova editora que quer proporcionar ao público francês o imaginário de culturas distantes através de uma literatura exigente, inventiva e sofisticada.
Edição/reimpressão: 2006
Páginas: 224
Editor: Campo das Letras
ISBN: 9789896251109
________________________________________________________________
Pré - Natal
sábado, 19 de dezembro de 2009
Uma noite de "quase Natal" para lembrar (e foi o Alípio que lembrou) que existe no céu, visível em noites de breu, uma constelação chamada constelação da utopia, para onde vão todos aqueles que, no mundo, tombaram (e que continuam a tombar) em defesa da Liberdade e dos direitos humanos. Eles tombam e a Terra recebe o seu corpo, mas não morrem, transformam-se em estrelas e essas estrelas desenham no céu a mais bela de todas as constelações. __________________________________________________
Ler mais em http://associabril.blogspot.com/
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
Fotografia por sergio jacques
Esta noite está frio. Muito frio.
Amanhã, se o frio continuar, arrancarei as folhas ao caderno para fazer lume
(se não fizer vento, continuarei a escrever nas cinzas)
Errante . Navegante
_____________________________________________________________
“A era moralista tinha por ambição a disciplina do desejo, nós exacerbamo-lo; ela exortava aos deveres de cada um para consigo mesmo e para com os outros, nós convidamos ao conforto. A obrigação foi substituída pela sedução, o bem-estar tornou-se Deus e a publicidade o seu profeta.”
Gilles Lipovetsky, O Crepúsculo do Dever. A Ética Indolor dos Tempos Modernos, Lisboa, D. Quixote, 1994, p. 62.
_____________________________________________________________________
domingo, 13 de dezembro de 2009
"As pessoas que dormem mal parecem sempre mais ou menos culpadas. O que fazem elas ? Tornam a noite presente."
_____________________é com esta desassombrada afirmação de Maurice Blanchot, que entramos no "Nocturno Indiano" de António Tabucchi _ 118 páginas de puro prazer ____________________
(Uma conjectura do autor é a de que este livro poderia servir de guia a um amante de viagens absurdas. E não deixa de ser absurda esta busca de um amigo que desapareceu, sombra que pertence a um passado também ele conjectural, numa Índia que se conhece quase só através de quartos de hotel, de hospitais, de estações de caminho-de-ferro. Uma Índia que todavia transparece em conversas com poetas nómadas, Jesuítas portugueses, prostitutas de bombaím, uma reporter que fotografa a miséria de Calcutá. Mas este misterioso ballet de sombras é sobretudo um hino às faculdades criativas da linguagem, pois é graças a uma palavra evocada em várias línguas que o viajante se aproxima daquele que procura. É graças à escrita que esta viagem se transforma em livro, passa de insónia ao sonho ...)
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
Tempo . Tempo . Tempo compositor de destinos
Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo tempo tempo tempo
Quando o tempo for propício
Tempo tempo tempo tempo...
________________________________________________________________
____________________________________________________________
_________________________________________________________
_______________________________________________________________________
POEMA OPACO SOBRE A MESA
que idade é? para ser evidente é só virar ao contrário. ou então absorver-se.
absorvo-me. reabsorvo-me. o belo é supletivo da liberdade.
o belo aprisionado. e o infinito é tão portátil quanto a imobilidade da casa.
mas do conteúdo da casa ninguém deverá falar. – o infinito é indirectamente portátil.
e ninguém sente. e ninguém pensa.
ERROS DE DESCARTES E DAMÁSIO. ninguém sabe:o sofrimento envelhece
com o rejuvenescimento tardio. {e a culpa. onde está a culpa?}
a culpa de ver dois amantes com as águas redondas. a culpa de
reconhecer por exclusão de som, por exclusão de conclusão e primeira metáfora.
{para regressar, o amor deve fornicar}, [alguém entra no poema com esta ideia,
válida a todas as luzes, e por isso fica, deve ficar.]
por fim, há exclusão de latitude, eu diria, porque há repetição e depois redundância.
{a inocência é tão selvagem quanto o desejo}, a mesma voz inibe
os outros rios arrefecidos, de modo a que a minha discricionariedade
congele, e o poema conclua sozinho: a idade espera que o sangue jubile, passe a servir as árvores.
Sylvia Beirute
inédito
in http://sylviabeirute.blogspot.com/
_______________________________
_________________________________________________________________________
_______________________________________________________________________
POEMA OPACO SOBRE A MESA
que idade é? para ser evidente é só virar ao contrário. ou então absorver-se.
absorvo-me. reabsorvo-me. o belo é supletivo da liberdade.
o belo aprisionado. e o infinito é tão portátil quanto a imobilidade da casa.
mas do conteúdo da casa ninguém deverá falar. – o infinito é indirectamente portátil.
e ninguém sente. e ninguém pensa.
ERROS DE DESCARTES E DAMÁSIO. ninguém sabe:
a culpa de ver dois amantes com as águas redondas. a culpa de
reconhecer por exclusão de som, por exclusão de conclusão e primeira metáfora.
{para regressar, o amor deve fornicar}, [alguém entra no poema com esta ideia,
válida a todas as luzes, e por isso fica, deve ficar.]
por fim, há exclusão de latitude, eu diria, porque há repetição e depois redundância.
{a inocência é tão selvagem quanto o desejo}, a mesma voz inibe
os outros rios arrefecidos, de modo a que a minha discricionariedade
congele, e o poema conclua sozinho: a idade espera que o sangue jubile, passe a servir as árvores.
Sylvia Beirute
inédito
in http://sylviabeirute.blogspot.com/
_______________________________
_________________________________________________________________________
"As fiandeiras", (1655) Diego Rodrigués da Silva Velazquez
Num primeiro plano as cinco mulheres tecendo, mais ao fundo, outras cinco mulheres examinando uma peça que conta a história de Aracne. Segundo a lenda, Palas Atena irada por Aracne se gabar de tecer tão bem quanto ela, transformou-a numa aranha e obrigou-a a tecer para o resto da vida.
A mulher puxando a cortina, convida-nos a olhar a cena. A mulher mais velha, fiando na roca, é Palas Atena e a que está enrolando a lã que é Aracne.
____________________________________________________________________
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
sábado, 5 de dezembro de 2009
_________
Schulz, Bruno, Obra completa, ed. Juan Carlos Vidal, Madrid, Siruela, 1993
(citado por J. A. Bragança de Miranda, "Corpo e imagem", ed. Nova Vega, 1ª edição, 2008)
_________________________________________________________________________________________________________________________________
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
" teu segredo" Clarice Lispector
_______________________________________________________
Utilidades __________________________________________
Assunto: sites para conhecimento e divulgação sobre multidificiencia
Dislexia
· Portal da Dislexia - http://www.dislexia-pt.com/sinais_alerta.htm
· Dislexia: Perceber o que os meus olhos vêem - http://alunos.por.ulusiada.pt/21656106/
· Artigos e informações sobre Dislexia - http://www.dyslexia-teacher.com/
Autismo
http://www.sensite.co.uk/approach/theme_4.html
· Actividades para autistas -
http://actividadesautistas.blogspot.com/
· Partilha de experiências e trabalhos - http://partilharombroamigo.blogspot.com/
· PECS (Picture Exchange Communication System) - http://www.pecs.org.uk/
· PECS (Picture Exchange Communication System) - http://www.autistas.org/pecs.htm
· Associação Portuguesa de Síndrome de Asperger -
http://www.apsa.org.pt/bin/PresentationLayer/home_00.aspx
· Federação Portuguesa de Autismo - http://www.appda-lisboa.org.pt/federacao/
· Banco de imagens gratuitas - http://www.picto.qc.ca/
· Imagens para colorir - http://www.coloring.com/pictures/choose.cdc
· Recursos educativos 1.º ciclo - http://www.cantinhodateresa.net/corpo.htm
· Actividades 1.º ciclo e pré-escolar - http://www.catraios.pt/
· Rua Sésamo - http://www.sesameworkshop.org/
· Passatempos, jogos educativos, colorir e multimédia - http://www.smartkids.com.br/
· Actividades pré-escolar, 1.º e 2.º ciclo - http://www.junior.te.pt/
· Recursos - http://www.akidsheart.com/
· Actividades e recursos para crianças do 2-6 anos - http://www.first-school.ws/
· Cooperativa de Educação e Reabilitação de crianças inadaptadas de Fafe - http://www.cercifaf.pt/
· Aplicações interactivas para o 1.º ciclo e a Educação Especial -
· http://www.cercifaf.org.pt/mosaico.edu/
Diversos
· Entre Amigos – Rede de Informações sobre Deficiência - http://www.entreamigos.com.br/
· Programas educativos interactivos - http://misprogramaseducativos.blogspot.com/
· Estimulação sensorial e criativa - http://www.boohbah.tv/
· Actividades pedagógicas para E.E. pré-escolar -
http://www.malhatlantica.pt/apoio_pre_escolar/actividades.htm
· Conteúdos pedagógicos abordados através de animações, jogos, sons e imagens -
http://www.estarconsigo.com/animacoes.htm
· Noddy - http://www.noddy.com/funtime/index_pt.html
· Puzzles, jogos e diversas actividades - http://www.poissonrouge.com/
· Ruca - http://ww1.rtp.pt/wportal/sites/tv/ruca/index.php
· Teletubbies - http://www.bbc.co.uk/cbeebies/teletubbies/
· Recursos sobre Ciências da Natureza - http://www.cientic.com/portal/
· Eu Sei! – Centro de Competência TIC da ESE de Santarém - http://nonio.eses.pt/eusei/
· No Mundo das Fábulas - http://nonio.eses.pt/fabulas/
· Actividades 1.º ciclo – Univ. Évora - http://www.minerva.uevora.pt/web1/
· TIC Ciênci@ - Univ. É vora - http://www.minerva.uevora.pt/ticiencia/index.htm
· Aventuras na Web – 1.º ciclo - http://www.minerva.uevora.pt/pre1ciclo/webquests.htm
· Netescrit@ - http://www.nonio.uminho.pt/netescrita/princ1.html
· Molecularium – Simulações em Química-Física - http://www.molecularium.net/
· Softciências - Jogos sobre a Tabela Periódica - http://nautilus.fis.uc.pt/cec/jogostp/
· Softciências – Camada de Ozono - http://nautilus.fis.uc.pt/cec/ozono/
· Softciências – Caça ao Tesouro - http://nautilus.fis.uc.pt/cec/ct/
· Jogo das Coisas – Centro de Física Computacional - http://www.jogodascoisas.net/
· Cadernos Net – Actividades/Webquests – 1º, 2º, 3º ciclos, Secundário e Técnico – Proformar - http://cadernosnet.proformar.org/intro.swf
Institucionais
· Ministério da Educação - http://www.min-edu.pt/
_________
Fonte: GAM - Grupo para a Acessibilidade nos Museus
http://www.gam.org.pt/
Utilidades __________________________________________
Assunto: sites para conhecimento e divulgação sobre multidificiencia
Dislexia
· Portal da Dislexia - http://www.dislexia-pt.com/sinais_alerta.htm
· Dislexia: Perceber o que os meus olhos vêem - http://alunos.por.ulusiada.pt/21656106/
· Artigos e informações sobre Dislexia - http://www.dyslexia-teacher.com/
Autismo
http://www.sensite.co.uk/approach/theme_4.html
· Actividades para autistas -
http://actividadesautistas.blogspot.com/
· Partilha de experiências e trabalhos - http://partilharombroamigo.blogspot.com/
· PECS (Picture Exchange Communication System) - http://www.pecs.org.uk/
· PECS (Picture Exchange Communication System) - http://www.autistas.org/pecs.htm
· Associação Portuguesa de Síndrome de Asperger -
http://www.apsa.org.pt/bin/PresentationLayer/home_00.aspx
· Federação Portuguesa de Autismo - http://www.appda-lisboa.org.pt/federacao/
· Banco de imagens gratuitas - http://www.picto.qc.ca/
· Imagens para colorir - http://www.coloring.com/pictures/choose.cdc
· Recursos educativos 1.º ciclo - http://www.cantinhodateresa.net/corpo.htm
· Actividades 1.º ciclo e pré-escolar - http://www.catraios.pt/
· Rua Sésamo - http://www.sesameworkshop.org/
· Passatempos, jogos educativos, colorir e multimédia - http://www.smartkids.com.br/
· Actividades pré-escolar, 1.º e 2.º ciclo - http://www.junior.te.pt/
· Recursos - http://www.akidsheart.com/
· Actividades e recursos para crianças do 2-6 anos - http://www.first-school.ws/
· Cooperativa de Educação e Reabilitação de crianças inadaptadas de Fafe - http://www.cercifaf.pt/
· Aplicações interactivas para o 1.º ciclo e a Educação Especial -
· http://www.cercifaf.org.pt/mosaico.edu/
Diversos
· Entre Amigos – Rede de Informações sobre Deficiência - http://www.entreamigos.com.br/
· Programas educativos interactivos - http://misprogramaseducativos.blogspot.com/
· Estimulação sensorial e criativa - http://www.boohbah.tv/
· Actividades pedagógicas para E.E. pré-escolar -
http://www.malhatlantica.pt/apoio_pre_escolar/actividades.htm
· Conteúdos pedagógicos abordados através de animações, jogos, sons e imagens -
http://www.estarconsigo.com/animacoes.htm
· Noddy - http://www.noddy.com/funtime/index_pt.html
· Puzzles, jogos e diversas actividades - http://www.poissonrouge.com/
· Ruca - http://ww1.rtp.pt/wportal/sites/tv/ruca/index.php
· Teletubbies - http://www.bbc.co.uk/cbeebies/teletubbies/
· Recursos sobre Ciências da Natureza - http://www.cientic.com/portal/
· Eu Sei! – Centro de Competência TIC da ESE de Santarém - http://nonio.eses.pt/eusei/
· No Mundo das Fábulas - http://nonio.eses.pt/fabulas/
· Actividades 1.º ciclo – Univ. Évora - http://www.minerva.uevora.pt/web1/
· TIC Ciênci@ - Univ. É vora - http://www.minerva.uevora.pt/ticiencia/index.htm
· Aventuras na Web – 1.º ciclo - http://www.minerva.uevora.pt/pre1ciclo/webquests.htm
· Netescrit@ - http://www.nonio.uminho.pt/netescrita/princ1.html
· Molecularium – Simulações em Química-Física - http://www.molecularium.net/
· Softciências - Jogos sobre a Tabela Periódica - http://nautilus.fis.uc.pt/cec/jogostp/
· Softciências – Camada de Ozono - http://nautilus.fis.uc.pt/cec/ozono/
· Softciências – Caça ao Tesouro - http://nautilus.fis.uc.pt/cec/ct/
· Jogo das Coisas – Centro de Física Computacional - http://www.jogodascoisas.net/
· Cadernos Net – Actividades/Webquests – 1º, 2º, 3º ciclos, Secundário e Técnico – Proformar - http://cadernosnet.proformar.org/intro.swf
Institucionais
· Ministério da Educação - http://www.min-edu.pt/
_________
Fonte: GAM - Grupo para a Acessibilidade nos Museus
http://www.gam.org.pt/
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Tudo a desejo ...
______________________________________________________ Um dia Feliz, porque sim !
_______________________________________________________________________________
domingo, 29 de novembro de 2009
Notícias
http://alfarrabio.di.uminho.pt/zeca/cancoes/129.html
Alípio de Freitas esteve ontem (connosco) no museu ... em reverendíssimo silêncio. As cartografias da memória têm territórios in.cartografáveis. insondáveis _______________ constelações de utopias.
Aconteceu, no Sábado, mais uma Tarde memorável. Registada (filmada) para memória futura. Cartografias da Memória será título, tema e lema, do número 2 dos Cadernos do Museu, a editar brevemente (tão breve quanto o tempo o permitir).
Fotografias por Paula Viotti (a poeta do espaço)
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
o tempo________esse predador .
fulminoso regaço. fuzilante poço_____________(cativa de um doce naufrágio desloco o sujeito do verbo em frondosa arritmia para que mais tarde na geometria da acção que foi causa e espinho haja o pretexto e o consenso da tua celestial ambição_________eu diria que deste ao tempo a messiânica sombra do adeus. em teia. minucioso tear dos contrastes. assombro das oliveiras. mortas. tão secas.)
isabel mendes ferreira
in PIANO
_______________________________________________________________________
terça-feira, 24 de novembro de 2009
Araquerar
________________________________
Palavras Mágicas
Léxico Romanon/Calon - Português
Amale - Amigos
Andecrelar - Caminhar
Aocaná - Agora
Araquerar - Falar, Conversar
Argurar - Sofrer
Barbaló - Rico
Barí - Essência, Virtude, Jóia
Brincunchar - Brincar
Buti - Trabalho
Butré - Muito
Calon - Cigano
Camelar - Amar
Cámepe - Amor
Chaborilhos - Crianças ciganas
Chanelar - Entender
Charaburri - Triste
Chororó - Pobre
Colcorró - Sozinho
Dedinhar - Dançar
Dicar - Ver
Drabarav - Ler
Drom - Caminho
Dyene - Pessoas
Gadjó - Não cigano
Garlochí - Coração
Gozuncha - Alegria
Guilhadar - Bailar, Cantar
Jacharar - Zangado
Lachi - Feliz
Lacorilhos - Crianças não ciganas
Lequevav - Escrever
Môl - Vinho
Narrar - Ir embora
Orobelar - Chorar, Lamentar
Pacha - Vida
Pachi - Vergonha
Payo - Não cigano
Penar - Dizer, contar
Perguntecelar - Perguntar
Quehonche - Ódio
Rom/Roma - Cigano/s
Romanon/Calon - Língua dos ciganos
Salar - Rir
Siklav - Aprender
Sinhela - Verdade
Sinhelar - Ser
Siruga - Música
Techarí - Liberdade
Tsira - Pouco
Vaqueripen - Conversação
Vengue - Duende
Zueno - Beijo
POESIA MATEMÁTICA
Fotografia por Dede Fedrizzi
Um dia
Doidamente
Por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
E viu-a, do Ápice à Base…
Uma Figura Ímpar;
Olhos rombóides, boca trapezóide,
Corpo ortogonal, seios esferóides.
Fez da sua
Uma vida
Paralela à dela.
Até que se encontraram
No Infinito.
“Quem és tu?” indagou ele
Com ânsia radical.
“Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode chamar-me Hipotenusa.”
E de falarem descobriram que eram
- O que, em aritmética, corresponde
A alma irmãs
-Primos-entre-si.
E assim se amaram
Ao quadrado da velocidade da luz.
Numa sexta potenciação
Traçando
Ao sabor do momento
E da paixão
Retas, curvas, círculos e linhas sinoidais.
Escandalizaram os ortodoxos
Das fórmulas euclideanas
E os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas
E pitagóricas.
E, enfim, resolveram casar-se.
Constituir um lar.
Mais que um lar.
Uma Perpendicular.
Convidaram para padrinhos
O Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e
Diagramas para o futuro
Sonhando com uma felicidade
Integral
E diferencial.
E casaram-se e tiveram
Uma secante e três cones
Muito engraçadinhos.
E foram felizes
Até àquele dia
Em que tudo, afinal,
Se torna monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum…
Frequentador de Círculos Concêntricos.
Viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
Uma Grandeza Absoluta,
E reduziu-a a um
Denominador Comum.
Ele, Quociente, percebeu
Que com ela não formava mais
Um Todo.
Uma Unidade.
Era o Triângulo,
Chamado amoroso.
E desse problema ela era a fracção
Mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a
Relatividade.
E tudo que era expúrio passou a ser
Moralidade
Como aliás, em qualquer
Sociedade.
Millôr Fernandes
Li há dois verões ... amei perdidamente____________________________
Na verdade, as cartas podem ser lidas como se fossem contos, pois são independentes umas das outras, unindo-as apenas a melancolia do discurso narrativo e algumas personagens recorrentes.
A localização espacial distribui-se por vários locais da Europa Mediterrânica ou do Sul, Portugal incluído, passando por lugares como Creta, Heraklion, Lisboa, Veneza, Nápoles com uma escapadela a Paris.
As personagens incluem um narrador cuja complexidade faz lembrar os heterónimos de Fernando Pessoa – desde o médico ao músico ou ao encenador -, embora possuindo sempre a mesma “voz” que exprime anseios, angústias e problemas existenciais muito similares: há duas esposas, uma amante de longa data, as amantes ocasionais, o rival, aqueles que zelam pela saúde mental e física do narrador e protagonista.
O tempo esgota-se nas expectativas e nos sonhos adiados sine dia, na procura do amor inesquecível, absoluto e capaz de expulsar o maior inimigo do depressivo, quando instalado na rotina do quotidiano: o tédio.
Nos textos de Tabucchi, consegue-se identificar intertextualidades com Proust, Mann, Pessoa e inclusive conseguimos encontrar uma alusão a Alfredo Duarte na carta intitulada Estranha forma de vida, sem esquecer a referência a referência a Nikos Kazantzakis.
O tempo perdido pode ser recuperado através de um instante, susceptível de eclipsar toda uma vida de tédio. Esta expectativa parece ser aquilo que mantém o mesmo narrador agarrado à vida – e à escrita – cuja linha percorre os meandros do labirinto de emoções: o fio da vida, deixado por uma atenciosa Ariadne mas que, a qualquer momento pode ser cortado por uma das Parcas.
As intertextualidades estendem-se ao campo musical e às artes cénicas, nomeadamente na referência à Norma de Bellini, na carta intitulada Casta Diva, e à música popular italiana, com especial incidência no sentimentalismo das canções napolitanas.
A extensa cultura do Autor abrange os múltiplos domínios da Arte como a literatura, a música, mas também o cinema e o teatro. Uma faceta que se projecta de tal forma no narrador principal, que não é de todo inverosímil que nos perguntemos se não se trata antes de um auto-retrato. Existem, várias possibilidades de leitura numa obra como esta: as cartas podem ser pequenas estórias independentes entre si. No entanto, no final é possível efectuar uma ligação entre elas como num puzzlle gigante que deixa, no entanto, alguns enigmas.
As Cartas são escritas, sobretudo, em tonalidades neutras ou sombrias. Variações de luz que advêm do cenário, onde a luminosidade parece, por vezes, oprimir o narrador, face à impossibilidade de partilhar/comungar os pequenos prazeres com alguém capaz de saborear na mesma medida a possibilidade da fruição do Prazer. Esta particularidade faz com que o discurso narrativo oscile entre uma narrativa serena, ora polvilhada de nostalgia ora apimentada de humor negro. As estórias desfilam como cariátides na fachada de um templo.
Um bilhete no meio do mar dá-nos a panorâmica de uma ilha grega através da narrativa que descreve o périplo pelo recantos mais pitorescos de um lugar agreste, pelo seu primitivismo e relevo acidentado, mais apropriado para cabras montesas do que propriamente para seres humanos. A faceta gourmet do narrador revela-se na descrição detalhada do processo da confecção artesanal do queijo típico da região, preparado com o cuidado e a devoção, votados normalmente ao cerimonial de um ritual religioso, onde até as ferramentas e utensílios usados no processo, adquirem um valor histórico, emocional e até mesmo sagrado, para os proprietários.
No discurso do narrador, desta estória está patente a ausência da partilha de pequenos prazeres que são o sal da vida e que o narrador saboreia com devoção. A impossibilidade de partilhá-los com o ser amado – que os não aprecia – acaba por fermentar sentimentos azedos onde cabem a mágoa e um certo rancor, aliados à solidão e à melancolia. E onde a vontade de salvar um bilhete, uma missiva que cai acidentalmente ao mar é tão ténue – ou o tédio está já de tal forma instalado – que impede a acção de qualquer uma das partes.
Na segunda carta, O Rio, cársico, que atravessa a montanha por dentro, acabando por dividi-la a meio é o mesmo que vai cavando um vale, um fosso interno na relação do narrador com a companheira. Sendo historiadora, a esposa desta personagem, vive voltada para o passado ao passo que o espírito questionador daquele leva –o a voltar-se para o futuro. Ambos se debruçam sobre tempos diferentes o que faz com que, ao cartesianismo de um deles e respectiva sujeição ao quotidiano se oponha a emotividade, o actuar por impulso do companheiro, motivado por um ideal.
A acção continua a passar-se na Grécia, desta vez na de Kazantzakis, mais propriamente em Heraklion. O narrador exprime a sua antipatia pelo polémico autor de A Última Tentação de Cristo, embora o admire e de certa forma o inveje, reconhecendo uni-los o sentimento de soberba. Na verdade, separa-os apenas a forma como o demonstram. O narrador vomita-o sob a forma de hybris, correndo o risco de incorrer na ira dos deuses, enquanto que, em Kazantzakis, esta manifesta-se sob a forma de coragem.
Esta narrativa em forma de carta, é uma reflexão sobre a fragmentação do tempo e o esboroar dos sonhos. E do desejo, que vai rasgando a alma ao meio, tal como nos rios cársicos, e que se manifesta num eterno adiar da felicidade a ser concretizada num futuro distante.
Forbidden Games é construída a partir de uma fotografia, uma imagem de uma mulher nua numa varanda parisiense. Na carta, é utilizada a imagem recorrente de uma jovem para atravessar o rio do tempo e inspirar uma arrebatada estória de paixão. Aqui, os tempos e as épocas confundem-se no cenário da Paris histórica, permanecendo intacta, através do tempo, a recordação de um intenso momento de fruição erótica debaixo do tecto nevado das amendoeiras em flor.
A Circulação do sangue é uma carta dedicada à “muito querida e amada” hemoglobina do narrador, uma dissertação acerca do medo da morte e do peso da idade, que se acumula progressivamente no líquido que corre nas veias, comprometendo a circulação. Sempre impregnada com o mais negro sarcasmo a emergir da reflexão sobre a relação entre ciências exactas e ciências humanas ou a relação entre o microcosmo cerebral e o macrocosmo que é o universo.
Em Casta Diva, o narrador mostra-se aos leitores na sua faceta de encenador, enquanto escreve uma carta à Prima Donna advertindo-a da necessidade de se submeter às suas directrizes, por mais excêntricas que lhe pareçam, sem questionar nem contestar. A versão da “Norma” imaginada por si foge aos cânones ditos “normais” ou clássicos, uma vez que alterna os diálogos melodramáticos que caracterizam a ópera, com o visual futurista dos cenários e guarda-roupa. O efeito final resulta num sincretismo temporal que se alia à mistura de estilos musicais e acabam por transformar um melodrama numa ópera buffa.
A referência ao papel das Parcas é de uma ironia e cepticismo macabro, no diálogo com a protagonista da peça de Bellini.
A analogia entre um sacerdote, em pleno acto sacrificial, com um cirurgião moderno só aumenta o aspecto tétrico da cena com os instrumentos de corte, dispostos diante daquele numa bandeja. A cena torna-se hilariante quando é encenada a fuga dos protagonistas numa potente motorizada. Mais uma vez, o rio da vida atravessa as épocas históricas, transportando os sedimentos de uma para a outra…até mesmo na mistura de ritmos e estilos musicais que juntam a música lírica às canções populares napolitanas e sambas cariocas…
Passei lá por casa mas não estavas, é mais uma narrativa em forma de carta. Um lugar na memória onde a amnésia se manifesta como o aprisionamento do passado numa carta dirigida, mais uma vez, a um amor, também ele já distante no tempo. Onde a reclusão forçada num paraíso artificial funciona como um íman, da mesma forma que a casinha de chocolate serviu para atrair Hansel e Gretel a uma armadilha. O discurso dominante na linguagem do narrador nesta carta, lembra um pouco a movimentação das personagens de Jacques Tati, onde o doente amnésico observa a sua vida de fora como se esta não lhe pertencesse. E não pertence, de facto…
A carta seguinte está relacionada com esta intitulando-se Da dificuldade de nos libertarmos do arame farpado ou da prisão murada para os excluídos. O narrador fala da evolução do século XX como sendo o tempo caracterizado pela trilogia do Zyclon B, da radioactividade e a do arame farpado (dos campos de concentração e das prisões). Todas elas formam de eliminarem aqueles que são indesejáveis para um ou mais grupos sociais.
Boas novas lá de casa é mais uma carta dirigida a um fantasma onde o narrador opta por falar do crescimento e evolução intelectual dos netos, da carreira do filho de ambos, das qualidades da nora e… da amante do filho, decorrente da necessidade deste em manter uma relação extra-conjugal isenta de tabus. Esta carta é como que uma espécie de retaliação, um saldar de contas face à constatação da como a paixão nasce, se desvanece e morre, erodida pelo tempo tal como as pedras do rio, morrendo quando a vida perde o sal…
Para que serve uma harpa com uma só corda?, fala de mais um amor que se perde no tempo. Onde é notória a nostalgia sentida em relação a um amor por uma mulher socialmente admirada e cujo rumo, a dada altura, divergiu do protagonista. Uma fuga para oriente, como o objectivo de perseguir uma vocação, em direcção à Grécia, é o bálsamo que actua como paliativo, adormecendo o sentimento que, em Portugal, se chamaria de saudade. O protagonista tem as características mentais de um Odisseu, com a sede de aventuras e viagens pelo mar fora onde os afectos encontrados em cada porto não conseguem ofuscar o mais elevado de todos os sentimentos: o amor, sublimado pela Arte em forma de Música.
O artista vive para tocar a sua música num momento único. Mas de todos os lugares onde exerce a sua adorada profissão, Nápoles parece ser aquele com que mais se identifica, uma vez que, ali, as pessoas parecem todas ter também uma vida dupla: de dia, são operários hortaliceiros e peixeiros; e de noite, tornam-se músicos e cantores a interpretar Verdi ou canções napolitanas que falem de nostalgia…
Já Sendo bom como é… é a carta do ódio. Ou melhor um amor-ódio a alguém do passado onde a ironia amarga é a fachada que esconde um fervoroso rancor por se ter sido preterido. Trata-se de uma carta de quem não tem paciência para as justificações moralistas ou politicamente correctas de alguém que busca consolo através da sublimação, numa atitude socialmente malvista. Onde a busca de uma justificação altruísta, moral ou nobre serve para justificar o qualquer acto menos digno ou totalmente egoísta como mecanismo de defesa usado, por exemplo, para justificar “os cornos plantados na testa de alguém”. De onde emerge o sentimento de vingança, saboreada como o néctar dos deuses, numa personalidade rancorosa e sentimental que se oculta por detrás de um aparente cinismo.
Livros nunca escritos, viagens nunca feitas refere-se aos projectos, sempre adiados, onde a melancolia se encontra camuflada, sepultada, debaixo da máscara do sarcasmo. Nesta missiva, assistimos ao confronto entre o espírito cartesianos da jovem e o e o daqueles que mantém o espírito errante do poeta ou a atitude questionadora do filósofo.
Na carta A máscara cansou-se notamos uma deliciosa intertextualidade com William Shakespeare onde o narrador se identifica com Hamlet. Sendo que a amada é uma Ofélia que optou pela fuga à vida. O cenário é, tal como em “Casta Diva” vanguardista e atípico. O narrador traça um auto-retrato do homem que se esconde por detrás da máscara da cultura, da ironia e do sarcasmo: “sou orgulhoso, vingativo, e ambicioso; tenho mais pecados à mão do que pensamentos para os glosar”.
O suicídio desta Ofélia é a herança deixada ao Hamlet que escreve esta carta, juntamente com o remorso que lhe está inerente.
Estranha forma de vida é um título que remete para a letra de um fado cantado por Amália Rodrigues. Acção passa-se no Porto, na Ribeira, com reminiscências a uma infância passada em Barcelona. O estímulo que desperta a memória é a vendedora de laranjas que perambula pelas vielas da Cidade Invicta, ao mesmo tempo que trauteia uma morna de Cesária Évora. Um livro perdido , esquecido pelo hóspede anterior numa das gavetas do quarto de hotel faz companhia ao narrador que aqui é um viajante solitário, excêntrico, independente e misantropo, que gosta de “mijar para o mar tirando partido do vento”.
Véspera da Ascensão relata o reencontro, entremeado pelo divagar pela obra de poetas e escritores que estimulam artificialmente o imaginário ao recorrer aos químicos e ao álcool.
Sucedem-se imagens “de saudade e de tristeza porque ninguém poderá restituir-me o tempo que deixei escoar por entre os dedos do amor”.
Em Meus olhos claros, meus cabelos de mel, revive-se a história de um amor antigo, interdito pelas convenções sociais, porque nascido de uma amizade e tornado clandestino pela percepção, algo tardia, da paixão numa altura em que já não eram livres…
Te voglio, te cerco, te chiammo relata a teluricidade do encontro imaginário com a mulher que quis mudar o parquet do apartamento num dos textos anteriormente descritos…
A Carta a escrever é aquela que é dirigida, mais uma vez, à primeira mulher, morta, suicida, a eterna Ofélia. Fala-lhe dos netos e da vida: “nunca pensamos que o tempo é feito de gotas e que basta uma simples gota, para que o líquido se derrame pelo chão e a mancha se alastre e se perca”. Trata-se de uma carta pensada mas que nunca passou para o papel.
Por último, Está a fazer-se cada vez mais tarde é deliciosamente complexa, labiríntica, tal como aliás toda a obra. Esta carta é, no entanto, o corolário da obra até por conter dois narradores, estruturando-se uma carta que está contida noutra carta. A do primeiro narrador, consiste na missiva de alguma entidade suprema que aparenta comandar os destinos dos homens, como as antigas Parcas. Átropos, a Parca que corta o fio da vida está representada, aqui, no papel de amante do segundo narrador, que é também o protagonista do romance epistolar de que aqui tratamos. Encontra-se em Creta, o local da acção da primeira deste conjunto de cartas, deixando-nos adivinhar um final sinistro, enigmático, mas implacável.
A frase “Está a fazer-se cada vez mais tarde” soa, aqui, como uma sentença. O fio perde-se. Parte-se. No labirinto mais conhecido da História do Ocidente, por esta sombria Ariadne.
(Uma obra digna do génio que a escreveu)
Por Cláudia de Sousa dias, socióloga e critica literária
em http://hasempreumlivro.blogspot.com/
(um sítio culto. um sítio de culto na esfera dos livros __________absolutamente incontornável )
________________________________________________
Subscrever:
Mensagens (Atom)




























