sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Fotografia @ Desiree-Dolron - Librario Julio Mella (2002-2003)
http://www.desireedolron.com


"Adoro livraria. É a mais culta de todas as lojas, além de um bom lugar para se divertir. Tem café expresso, sorvete, sofás e poltronas confortáveis, CDs, DVDs, Aspirina, quiosque do McDonald e, é claro, livros. Num dia de sorte você ainda pode surpreender aquele colega de trabalho de esquerda, entusiasta de uma nova revolução bolivariana nas Américas, bem de frente para a vitrina dos livros mais vendidos, folheando romances e novelas de baixa literatura. Ou, quem sabe?, flagrar aquela vizinha do andar superior, de ar compenetrado, óculos de aros baixos, supostamente, leitora compulsiva de Virginia Woolf, no momento exato em que ela acabou de pagar por um exemplar de O Segredo. E, o que é melhor, ela não pediu que embrulhasse para presente. A livraria não é apenas um universo de três estilos literários - ficção, não-ficção e auto-ajuda -, também, é um lugar para se falar mal de livros. Antes, um esclarecimento, "ficção", como sabem, é o gênero daqueles livros escritos pelas pessoas que por anos a fio, na hora de dormir, contavam histórias para os filhos quando estes ainda eram pequenos. Dessa maneira, foram desenvolvendo uma incrível capacidade na arte de inventar. Infelizmente, alguns degeneraram para o território das mentiras colossais, como os políticos, por exemplo. Por outro lado, "não-ficção", geralmente, são escritos por aqueles que preferiam comprar livros de histórias para a criançada, em vez de contá-las, pois andavam sempre ocupados, escrevendo relatórios importantes, assistindo futebol na TV, ou vendo telenovelas. Finalmente, os categorizados como de "auto-ajuda", são redigidos por aqueles que não adotaram nenhuma destas práticas. Fala-se mal de qualquer coisa, inclusive de livros. Tenho um amigo daqueles bem radicais, vegetariano, rato de cinemateca, fã ardoroso do cinema alternativo, tais como o iraniano, o paquistanês e o argentino, que não perdoa escritores que vendem muito; livros que viraram filmes; e aqueles escritos para pura distração. "O Código Da Vinci? Humm... virou filme, é ruim! Não leio baixa literatura". É curioso as categorias que inventam para a literatura: alta e baixa literatura, como se esta fosse a Idade Média. Quando era menino, li muitos livros de piratas que singravam os sete mares em busca de fortuna e aventura. Hoje, todos eles se classificariam como baixa literatura. O que eu sei é que, além das coordenadas da Ilha de Tortuga e outros conhecimentos adquiridos, me diverti muito lendo todos eles. Analisemos a obra de Lord Byron - topo desta categorização literária - no poema Corsário, onde este escritor inglês narra as aventuras de Conrado, cavalheiresco pirata dos mares gregos, homem fatal, irresistível, às voltas com mulheres apaixonadas, além de um sultão turco chamado Seyd nos seus calcanhares, disposto a decapitá-lo assim que o capturasse. Confessem, com todo respeito ao poeta, não serviria de enredo para um emocionante filme de capa e espada estrelado por Burt Lancaster ou Errol Flynn se vivos ainda fossem? Outro dia, diante de uma prateleira repleta de livros de auto-ajuda direcionados para a mulher, mirei num título inusitado: Homens são de Marte, Mulheres são de Vênus, de John Gray. Como é mesmo?, refleti, largando súbito o Neruda que segurava, dirigindo-me à toalete em busca de um espelho. Não que seja demasiado vaidoso com a aparência, mas ser parecido com um daqueles homenzinhos verdes, raquíticos e de cabeça gigantesca não era do meu agrado. Diante do espelho, senti-me aliviado, não que estivesse refletido ali nenhum George Clooney, contudo, era o meu rosto de sempre. Aliás, nesta mesma prateleira, mais à esquerda, havia outro título singular: Sorria, Você Está Na Menopausa, de Maria Helena Bastos. Esse negócio de livros às vezes assusta. Não, não me refiro a nenhum conto ou novela de terror de Algernon Blackwood, mas de certo livro que encontrei na casa da tia Marizete, sempre lembrada pelo seu famoso bolo de chocolate das Sextas feiras. Enquanto aguardava o precioso manjar, corri as vistas pela sala, defrontando-me com o título do tal livro: Manuel De Sobrevivência Da Mulher De Meia Idade, de Léa Maria Aarão Reis. Sendo a minha tia uma viúva que mora sozinha, confesso, fiquei apreensivo. Em razão da sua faixa etária, estaria esta querida doceira de primeira linha, exposta a algum tipo de perigo mortal? A primeira sensação foi a de que aquele título sugeria um treinamento militar digno do Mosad. Raios duplos, pensei, por acaso um cyborg vindo do futuro - como aquele interpretado por Arnold Schwarzenegger em O Exterminador do Futuro (Terminator) -, estava a caça de mulheres de meia-idade, pronto para apontar-lhes um Kalashinikov e dizer-lhes: "hasta la vista, baby". Frequentar livrarias tem dessas, dá asas à imaginação." "




A VOLTA AO MUNDO A BORDO DE UMA LIVRARIA

Texto escrito por Oliver Pickwick AQUI








terça-feira, 15 de setembro de 2009

Só de Sacanagem


Clique AQUI para assistir (excelente)










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Meu coração está aos pulos!
Quantas vezes minha esperança será posta à prova?
Por quantas provas terá ela que passar? Tudo isso que está aí no ar, malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro, do meu, do nosso dinheiro que reservamos duramente para educar os meninos mais pobres que nós, para cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais, esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais.
Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta à prova?
Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais?
É certo que tempos difíceis existem para aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz.
Meu coração está no escuro, a luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e os justos que os precederam: “Não roubarás”, “Devolva o lápis do coleguinha”, “Esse apontador não é seu, minha filha”. Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar.
Até habeas corpus preventivo, coisa da qual nunca tinha visto falar e sobre a qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará. Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear: mais honesta ainda vou ficar.
Só de sacanagem! Dirão: “Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo mundo rouba” e vou dizer: “Não importa, será esse o meu carnaval, vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos, vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau.”
Dirão: “É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal”. Eu direi: Não admito, minha esperança é imortal. Eu repito, ouviram? Imortal! Sei que não dá para mudar o começo mas, se a gente quiser, vai dar para mudar o final!
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sexta-feira, 11 de setembro de 2009

11 de Setembro ________________________________________


Instantâneo do fotógrafo alemão Thomas Hoepker, ex-presidente da agência Magnum (de 2003 a 2006)




A mais polémica foto da tragédia do 11 de setembro de 2001, não mostra o choque dos aviões contra os prédios do World Trade Center nem as vítimas do atentado. Regista uma cena idílica de verão. Nela, cinco jovens conversam tranquilamente em algum lugar de Williamsburg, no cais do Brooklyn, no meio de ciprestes e flores, enquanto uma nuvem negra de fumaça cobre os prédios de Manhattan.


Hoepker define-se como fotojornalista, apesar de ser valorizado como artista no circuito internacional. Entrar nesse mercado, diz, foi apenas circunstancial. Com a redução do orçamento das revistas impressas, consequência da concorrência da internet, fotógrafos realizam cada vez menos trabalhos por encomenda de editoras, que garantiram a Hoepker fotografar séries históricas transformadas em livros, entre eles o impressionante Return of the Maya (Dewi Lewis Publishing, 160 páginas, 1998). A publicação regista a vida dos descendentes dos maias após a longa guerra civil da Guatemala, que acabou em 1996 e deixou um rasto de 150 mil mortes nos 36 anos do conflito, encerrado com o acordo entre o presidente Arzu e guerrilheiros.
Esse foi um trabalho para a revista Stern, que me mandou para a Guatemala fazer uma reportagem turística sobre os costumes locais”, conta Hoepker. Ele acabou subvertendo a pauta, envolvendo-se com o sofrimento dos maias. “Após 500 anos de opressão cultural, pela primeira vez esse povo pôde praticar seus rituais religiosos e resgatar antigos costumes de seus ancestrais”, lembra o fotojornalista, que visitou o país quatro vezes, registrando, de 1990 a 1997, como os descendentes dos maias recuperaram os corpos de seus mortos no confronto com o governo guatemalteco e a maneira como conduziram os ritos fúnebres em cavernas, ravinas e cachoeiras.

Para a mesma Stern ele realizou, em 1975, outra impressionante série sobre a vida quotidiana em Berlim Oriental, quando a cidade alemã ainda era dividida pelo muro. Hoepker, um alemão de 72 anos nascido em Munique, atravessou a cortina de ferro como assistente técnico da revista, registando imagens de dissidentes políticos como Wolf Bierman e Robert Havemann, além do retrato inquietante de um comerciante exibindo um ganso em plena época do Natal, uma raridade gastronómica na triste Berlim Oriental. “Comparando com o tempo em que lá vivi, a reunificação fez bem para os alemães do Leste, a despeito da nostalgia de alguns representantes do antigo regime, que não enxergam com bons olhos as mudanças na Alemanha”, observa.

Por essa época as fotos de Hoepker já eram distribuídas pela Magnum e seus documentários exibidos pela televisão alemã, chamando a atenção de editores americanos. Todos conheciam a série de Muhammad Ali, feita para a Stern em 1966, época em que negros eram discriminados em locais públicos nos EUA. O punho de Cassius Clay, exibido na foto desta página, era visto então como um protesto contra a opressão. “Foi uma leitura equivocada da foto, que é de facto ambígua, mas nem tanto como a do 11 de setembro”, esclarece Hoepker, dizendo que pretendeu apenas destacar o punho de um campeão.

No caso da foto desta página, a da tragédia das torres gêmeas, foi justamente o seu carácter indeterminado que fez Hoepker mantê-la escondida por três anos, até que um amigo seu da Alemanha resolveu incluí-la numa retrospectiva dedicada ao fotógrafo. Quando publicada nos EUA, ele foi acusado de banalização do terror. Hoepker defendeu-se, dizendo que não pretendia, de modo algum, ser desrespeitoso com a memória dos mortos na tragédia. “Tanto que, ao selecionar as fotos da Magnum para um livro, retive a minha, por considerar que sua publicação poderia distorcer a realidade tal como a percebemos naquele dia.”

A imagem foi registada por acaso. Retido no seu carro no Brooklyn, sem poder atravessar a ponte, ele viu um grupo de pessoas conversando descontraidamente no cais de Williambsurg e tirou três fotos. “Não pensei em nada naquele momento, nem mesmo em fazer uma crítica à alienação dos garotos (?), como denunciaram posteriormente dois deles”, admite o fotógrafo. “De qualquer modo, acho que é da natureza humana habituar-se ao horror”, diz o fotógrafo, um dos últimos da escola humanista de Cartier-Bresson e Elliott Erwitt, suas referências.





Fonte: CULTURA

blogdofavre.ig.com.br/tag/exposicao/


© Foto de Roosevelt Nina. Exposição “Objetos”, CCJF, Rio de Janeiro.







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quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Horror de ser sempre com vida a consciência!
Horror de sentir a alma sempre a pensar!
Arranca-me, ó vento; do chão da existência,
De ser um lugar!











Fernando Pessoa, in Vendaval (fragmento)


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domingo, 6 de setembro de 2009

Entrada intermitente




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Este ano fui à festa do Avante. Foi um ímpeto, uma vontade irresistível de (re)ver gente, caras conhecidas e amigos, alguns saudosos cumplices de lutas e carícias, outros nem tanto. Há muito tempo que não fazia esta via (em tempos sacra). Praticamente, desde a altura em que festa assentou arraiais na Atalaia, deixei de cumprir calendário. Alguém que me conhece, atento, perguntou-me o que achava, o tinha mudado aos meus olhos. Insistiu, solicitou-me uma resposta rápida, a quente . Adorei a ideia da ópera na abertura, encantou-me (como sempre) ouvir Maria João e Mário Laginha, detive-me com imenso interesse na 16ª Bienal de arte, com realce para as obras de Luís Ralha, mas a minha maior surpresa é que não tive surpresas. Pareceu-me tudo tremendamente na mesma. O mesmo grafismo, o mesmo discurso, o mesmo modelo, os mesmos ritos e mitos. Se calhar sempre foi assim, o que mudou foi o meu ponto de vista ...

Surpreendentes mesmo, foram as conversas "andantes" com os mais novos, que eram muitos e muito apaixonados e o silêncio dos mais velhos, sentados à sombra dos novos tempos, nos pontos altos, onde a vista se alarga e ainda vai correndo alguma aragem.





Nesta, como noutras celebrações (formalidades à parte), emocionam-me sempre as pessoas, o espírito da coisa, a vivência mágica que estes dias proporcionam a tanta gente de nova geração, que vive fechada numa redoma "asséptica" onde a política é tabu. Nas escolas não se discutem ideias (não há tempo nem modo para tal "subversão") e as famílias evitam falar de política por ser algo fracturante, como agora se usa dizer. Discute-se futebol, chora-se a crise, fala-se das performances sexuais, das dietas, das faustosas férias ( dos outros, dos famosos) e dos dramas sazonais que animam os noticiários. Este quadro deixa pouco espaço para que se discuta abertamente política e se conheça melhor a História e a Geografia das ideias. Muitos jovens vivem hoje num paupérrimo presentismo, convencidos que o mundo é apenas aquilo que a sua visão alcança. Pensam que o mundo é um umbigo que neles começa e que neles acaba. Não se sentem hereditários nem herança. Não se sentem responsáveis pelo que estão a construir. Não se estimam o suficiente para impor o seu ponto de vista. Faz falta desarrumar as ideias, soltar as perguntas.








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sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Pintura iman maleki





Hay hombres que de se cencia
Tienen la cabeza llena;
Hay sabios de todas menas,
Mas digo sin ser muy ducho -
Es mejor que aprender mucho
El aprender cosas buenas.


(Fragmento)
Martín Fierro- O anti-herói do Pampa
José Hernández 1872


in http://umbilicum.blogspot.com
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Há dias, numa grande superfície comercial, reparei em duas raparigas que passeavam, cúmplices, cores de Verão, pelos corredores repletos de pastas, lápis, cadernos e outros apetrechos da dura faina do aprender (aprendendo). Também lá andava, à procura de canetas de ponta fina, deambulando entre rotring`s e esquadros, quando afinei a orelha para a conversa do lado. Uma das raparigas, colada ás prateleiras. dizia para a outra: - " Anda ver, gosto tanto deste cheiro, gosto tanto das coisas da escola, não gosto é da escola " . Dito isto, sorriu, encolheu os ombros e seguiu com a amiga para a secção dos perfumes. Perdi-lhes o rasto mas ...

fiquei a pensar nesta "escola" e lembrei-me de Agostinho _____














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"Não podemos negar que a escola não deu aos seus alunos todas as possibilidades que lhes devia dar, desprezou os mal dotados, obrigou-os a actos ou tarefas que lhes depuseram na alma as primeiras sementes do despeito ou da revolta, lhes deu, pelo quase exclusivo cuidado que votou ao saber, deixando na sombra o que é o mais importante — formação do carácter e desenvolvimento da inteligência —, todas as condições para virem a ser o que são agora; se não saíram da escola com amor à escola, a culpa não é deles, mas da escola. Acresce ainda que, lançados na vida, a escola nunca mais procurou atraí-los, nunca mais foi ao encontro dos seus antigos alunos, para lhes aumentar a cultura, os informar e esclarecer sobre novas orientações de espírito, para lhes pedir a sua colaboração, o seu interesse na educação das gerações mais moças. Houve um corte de relações, quando a sua manutenção poderia ainda de algum modo apagar as más lembranças que os alunos levavam. Que admira que sintamos agora à nossa volta paixão e rancor? Tivemo-los nas nossas mãos e não fizemos por eles tudo quanto podíamos, mesmo com as possibilidades económicas e pedagógicas de que nos cercara o meio; em nós temos de reconhecer o principal defeito; por consequência, também em nós a principal causa do ataque."



Agostinho da Silva, in 'Glossas'


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Pintura http://www.imanmaleki.com/

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Em cheio !


Mélanie Laurent é Shosanna Dreyfus no filme "Sacanas sem Lei" de Quentin Tarantino






Ontem fui ao cinema numa sala perto de casa. Atraída por Tarantino, que nunca perco, fui ao cinema para assentar o pó das férias. Habitualmente vou ao cinema no ultimo dia de férias cumprindo uma espécie de ritual de iniciação aos trabalhos, prazeres e rotinas da cidade. Recentro-me no escuro da sala, viajo para uma outra realidade.

É assim há algum tempo, mas desta vez foi especial. Tarantino excedeu-se em talento. Este filme é notável. Representa o melhor do cinema, o poder da sétima arte. Um filme a não perder. Estremeci na cadeira com estes gloriosos "Sacanas sem lei ". Viva Tarantino !


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segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Fotografia GEORGES DUSSAUD






















Não é um festival, é um convite para caminhar


Passear por um dos bairros mais antigos de Lisboa.
Palmilhar S. Domingos, Martim Moniz, Intendente, Mouraria e Anjos, para passar a conhecê-los como a palma da mão.


Um fim-de-semana para:


cortar o cabelo num cabeleireiro chinês, ou africano, como em Bollywood, ou na Moldávia,

vestir um sari,

descansar na rua da Palma,

comer carne Halal, muamba, makoufe,

ouvir cânticos ucranianos da antiguidade,

deitar-se a céu aberto e, com roupa usada, desenhar continentes,

calibrar os pneus do carro a preços convidativos…




TODOS propõe ao longo de quatro dias um contacto com as culturas que habitam esta zona da cidade através das músicas, das religiões, das comidas, do comércio e das pessoas. Passeios a pé levam o público a conhecer uma pessoa na sua própria casa, a descobrir uma escadaria de azulejos à luz da vela, uma mesquita onde só os homens poderão entrar, ou lições de culinária com ida prévia às compras.A substituir a publicidade urbana de grande formato, o fotógrafo francês Georges Dussaud instala nas paredes vazias dos edifícios imagens novas de uma população fulgurante oriunda de vários pontos do mundo, que vive nas sombras do bulício da cidade.Concertos multiculturais no largo do Intendente e Martim Moniz, uma fanfarra oriental pelas ruas da Palma, Benformoso e ruelas da Mouraria, filmes documentais que falam de realidades "invisíveis" que existem no coração das cidades, pequenas peças de teatro, dança e música instaladas em lojas e associações culturais que se dão a conhecer em salas referenciais do bairro. TODOS é um momento de uma festa internacional com enfoque nos países das pessoas que vivem nesta zona da cidade. TODOS é um espaço de reconhecimento e celebração de uma Lisboa outra e nova que devemos incluir definitivamente na nossa identidade urbana.Um programa que se desenha num jogo informal de diálogos culturais, encontros entre moradores e artistas, vivificação de espaços, trocas entre culturas, encontros entre tradições portuguesas e estrangeiras. Um programa que se faz de eventos maiores de rua e de acontecimentos mais pequenos que ligam o público à comunidade e aos artistas convidados. Lojas, restaurantes, cabeleireiros, lugares de culto e associações tornam-se também protagonistas nesta caminhada que se deseja festiva. Caminhada para o cruzamento dos povos que habitam a cidade e que são também afinal lisboetas.








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Cinema, música, dança, exposições _ Lisboa, primeira quinzena de Setembro


terça-feira, 25 de agosto de 2009




Quando recentemente vi, ouvi e li, inquietantes notícias sobre distúrbios, jovens, violência e muitos polícias na Quinta da Princesa, veio-me à ideia o milagre de _______


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Uma orquestra diferente 'made in' Venezuela






"Um documentário, agora editado em DVD entre nós, mergulha no 'sistema' de orquestras infantis e juvenis da Venezuela criado nos anos 70, que tem como jóia da coroa a bem-sucedida Orquestra Sinfónica Simón Bolívar, à frente da qual se destacou o maestro-revelação Gustavo Dudamel"


Fonte:
Diário de notícias










25 anos de festival

http://www.festroia.pt/





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quinta-feira, 13 de agosto de 2009

To Be Written on the Mirror in Whitewash


I live only here, between your eyes and you,
But I live in your world. What do I do?
Collect no interest--otherwise what I can;
Above all I am not that staring man.







Elizabeth Bishop

quarta-feira, 5 de agosto de 2009




Saudosamente, Solnado ...




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Humor sereno. Com amor


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Em estado de árvore ...







Fotografia por Filomena Fonseca













Para entrar em estado de árvore é preciso
partir de um torpor animal de lagarto às
3 horas da tarde, no mês de agosto.
Em 2 anos a inércia e o mato vão crescer
em nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até
o mato sair na voz .
Hoje eu desenho o cheiro das árvores.











in O livro das ignorãças Manoel de Barros


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terça-feira, 4 de agosto de 2009

Valem Mais as Vidas do que os Livros

Defende Cleantes a opinião de que em nada nos interessam as ideias dos homens e que acima de tudo devemos pôr o seu carácter, a honestidade e a firmeza, a independência e a lisura do seu procedimento. Se de política tratamos, Cleantes, que, por definição, é honesto, sentir-se-á muito bem representado ou muito bem governado não por aquele que, incluindo nos seus programas de eleição ou nas suas declarações ideias que perfeitamente se harmonizam com as dele, depois aparece apenas como um membro de toda a raça infinita dos que sobem por fora, mas por aquele que, tendo-o porventua irritado com a sua maneira de pensar, em seguida vem habitar a ilha minúscula dos que sobem por dentro. Se de dois candidatos que se apresentam, um está no partido contrário ao nosso mas é um honesto, seguro cidadão, e o outro se proclama correligionário, mas nos deixa dúvidas sobre a integridade moral, diz Cleantes que ninguém deve hesitar: o nosso voto deve ir para o que dá garantias de uma fiscalização séria dos negócios e não deixará que se maltrate a Justiça. Sobretudo se formos moralistas, isto é, se acreditarmos que o mundo se salvará pela moral; e, como cumpre a moralistas, se quisermos que o mundo se salve pela moral.






O mesmo acontecerá, por exemplo, nos domínios da filosofia: rio-me do estoico que usa um manto despedaçado e uma grande barba mal cuidada e vai à nona hora espreitar as damas amáveis do Foro; rio-me do pregador que não tolera a riqueza e vive num palácio, que desdenha a política e mergulha nas intrigas de Nero, que louva a paz dos campos e prefere o tumulto de Roma. E, ao contrário, darei lugar, entre os bustos domésticos, àquele Epicuro que defendeu o prazer (se defendeu o prazer), que amou a vida e desprezou os deuses, mas tão santamente procedeu e tão nobremente morreu nos seus jardins de Atenas; poria a seu lado Lucrécio, o homem de que nada sei, que adivinho, porém, austero e puro. Porque uns contribuíram com palavras e os outros contribuiram com actos; certamente, quando vier a hora de se reconhecer na palavra nada mais do que uma ferramenta, uma das muitas que serviram a erguer o edifício humano (temo que a palavra humano seja estreita), hão-de valer mais as vidas do que os livros e ninguém nunca mais se lembrará dos que apenas tiverem deixado atrás de si as páginas que escreveram.













Agostinho da Silva, in 'Textos e Ensaios Filosóficos'

Incógnito


Fotografia por Adelino Chapa
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segunda-feira, 27 de julho de 2009







fotografia por Elsa Mota Gomes
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Dormir um pouco — um minuto,
um século. Acordar
na crista
duma onda, ser
o lastro de espuma
que há no sono
das algas. Ou
ser apenas
a maré, que sempre
volta
para dizer: eu não morri, eu sou
a borboleta
do vento, a flor
incandescente destas águas.




Albano Martins, in "Castália e Outros Poemas"




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sábado, 25 de julho de 2009

Leve como um roçar de asa

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johann sebastian bach - maria callas - ave maria.







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Vaga, no azul amplo solta


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Vaga, no azul amplo solta,
Vai uma nuvem errando.
O meu passado não volta.
Não é o que estou chorando.


O que choro é diferente.
Entra mais na alma da alma.
Mas como, no céu sem gente,
A nuvem flutua calma.


E isto lembra uma tristeza
E a lembrança é que entristece,
Dou à saudade a riqueza
De emoção que a hora tece.


Mas, em verdade, o que chora
Na minha amarga ansiedade
Mais alto que a nuvem mora,
Está para além da saudade.


Não sei o que é nem consinto
À alma que o saiba bem.
Visto da dor com que minto
Dor que a minha alma tem.





Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Al di là delle Nuvole


___________________________________a busca pela essência humana, a arte como forma de viver, a consciência de um olhar ...








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Direção:
Michelangelo Antonioni, Wim Wenders

Ano:
1995

Gênero:
Drama, Romance
Duração:
112 min. / cor

Título Original:
Al di là delle Nuvole


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segunda-feira, 20 de julho de 2009

Tempo de férias ____________________________




Fotografias http://www.cliffordross.com/




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O início de férias, é sempre um turbilhão. Uma agitação interior _____________________
____________________________________ um des.propósito
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O meu filho António, antes de andar já falava. Era um menino estranho, pensativo ...
Numa noite de brilhos, apontando para a lua disse _________ " bola, luz !". A avó, uma professora experiente, iluminada pela mesma lua, suspirou ____________________ "este menino vai ser poeta".
E_________ é ! Estranhamente, à sua maneira, ____________________________________ é. Na altura não entendi. Hoje veio-me à ideia, assolou-me como uma imensa onda prata e luz. Uma onda fria, metálica, que irrompe do nada. E vai ___________________________ e vem __________________Não entendo.
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Já passaram tantas luas ... ______________________________________________________________________________
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(Tempo de férias. Tempo para pescar memórias no mar da tranquilidade ________________ no fundo.)

sexta-feira, 17 de julho de 2009


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“iluminar o obscuro, humanizar o mundo, aceder à dignidade da humanitas”
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in "Senso comum e modernidade em Hannah Arendt", de Anne-Marie Rovielloe

terça-feira, 14 de julho de 2009

A Perfeição


imagem http://www.saudek.com

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O que me tranqüiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição



Clarice Lispector

sábado, 11 de julho de 2009

voa voa _________________



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Estranho país: os rios não levam rios, levam leito. Os rios não correm, estão secos. Os rios não se atravessam, caminham-se. Os rios não têm fundo, afogam-se mesmo à superfície (...)


Pedro Mendes, em " O turismo sustentável como factor de desenvolvimento das pequenas economias insulares - o caso de Cabo verde ", Eduardo Sarmento Ferreira, Lisboa, 2008, Edições Universitárias Lusófonas.
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quinta-feira, 9 de julho de 2009


Que cantam os poetas ______________________________ ?


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Aqui “Destino di Bai” – Poesia Inédita





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Sobre o movimento literário "Claridade" e a defesa do Crioulo

A revista literária Claridade, surgida em 1936 na cidade do Mindelo, ilha de São Vicente, está no centro de um movimento de emancipação cultural, social e política da sociedade cabo-verdiana. Os seus responsáveis foram Manuel Lopes, Baltasar Lopes da Silva e Jorge Barbosa, a que, dada a excepcional qualidade logo alcançada se juntaram outros.

Os fundamentos do movimento Claridade, como um movimento de emancipação cultural e política cabo-verdiana, podem encontrar-se na nova burguesia liberal do século XIX, que instituiu a Escola como elemento homogeneizador da diversidade étnica das ilhas de Cabo Verde, no pressuposto de que o processo de alfabetização e formação intelectual da população era indispensável ao desenvolvimento de uma consciência geral esclarecida.

A Escola até então em Cabo Verde havia sido eminentemente eclesiástica, pelo que o aparecimento da escola laica desencadeou uma fome de leitura e instrução que está na base do extraordinário desenvolvimento cultural de Cabo Verde nos inícios do século XX face aos territórios semelhantes.

A criação do liceu-seminário, eclesiásticos e laico, da Ribeira Brava e, depois, os liceus da Praia e do Mindelo, para além de formarem os quadros dirigentes da administração crioula, constituíram os cadinhos de onde saíram sucessivas gerações de intelectuais que estão na origem da consciencialização e da reacção contra a mão forte do processo colonialista.

A poesia romântica cabo-verdiana havia-se sido eminentemente poética e pouco política, ou seja a poesia tinha-se debruçado especialmente sobre as emoções e as afectividades, como no caso das Mornas de Eugénio Tavares, mas pouco sobre a situação social.

Embora houvesse já uma certa carga política e, inclusivamente, Eugénio de Paula Tavares tivesse sido criado pela filha de um poeta madeirense emigrado em Cabo Verde por motivos políticos, escrevendo Eugénio poesia em crioulo e, nos artigos de New Bedford, pugnado pela autonomia de Cabo Verde, que pensava que ia chegar com a implantação da República, era ainda, e também, uma atitude romântica, como se comprovou com a implantação do Estado Novo, que desenvolveu a escolaridade, mas não autorizava qualquer discussão política.

Foi nesse sentido que nasceu a revista Claridade, que entre 1936 e 1960 produziu nove números, mas que se tornaram uma referência para toda a cultura caboverdiana. Do ponto de vista literário, a Claridade marca o início de uma fase de contemporaneidade estética e linguística, superando o conflito entre o Romantismo de matriz dominante durante o século XIX, e o novo Realismo, atento às realidades do quotidiano do povo e procurando reflectir a consciência colectiva do povo caboverdiana. Vai ser assim o palco privilegiado para a apresentação do crioulo caboverdiano, que sai de uma certa clandestinidade e menoridade artística, passando a espelhar verdadeiramente um sentir universalista e independente de um povo.
As referências da Claridade apontam assim muito mais para uma universalidade que para o curto e autista universo português de então.
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quarta-feira, 8 de julho de 2009


"Amar a Mãe-Terra e a Mãe-água com toda a força e pureza do Amor, compreendê-las como o menino compreende a linguagem da mãe e a canção de embalar e a profunda significação do embalo daqueles braços, e neles aprende a conhecer a segurança e a protecção contra as ameaças desconhecidas."



in "Chuva Braba" de Manuel Lopes

sexta-feira, 3 de julho de 2009



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Coisas de todos os dias ...
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fotografias de Bruno Ferro




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Rosalinda se tu fores à praia, se tu fores ver o mar ...

Fotografia de Eneias Rodrigues
http://www.asemana.publ.cv/


Hoje não é um dia igual aos outros. É um dia grande para Cabo Verde, para o mundo e para quem está lá fora”, comenta emocionada D. Rosalinda. Hoje, a guardiã da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, faz parte do Comité de Gestão do Património – que une governo, autarquia e cidadãos. Para ela, ainda é preciso muita sensibilização para fazer com que as pessoas entendam, e entranhem no espírito, a importância de ser Património Mundial da Humanidade.

in Nova era para a Cidade Velha por Catarina Abreu






A Cidade Velha de Cabo Verde é, a partir de 26 de Junho de 2009, Património Mundial da Humanidade. O reconhecimento pela UNESCO é o culminar de um projecto iniciado há 10 anos. A Cidade Velha de Santiago em Cabo Verde, berço da Pátria crioula, que nasceu e se desenvolveu por conta do tráfico negreiro, vulgo comércio de escravos, foi descoberta pelos portugueses em 1460 que aí construíram a primeira cidade do mundo nos trópicos, tendo sido capital do arquipélago até 1770. Que as pessoas que aqui moram, que habitam este lugar e pisam este chão, consigam exorcizar, em cada acto de liberdade, os tristes lamentos que ecoam da História. Que esta distinção lhes traga (nos traga) mais felicidade. Que seja alavanca de desenvolvimento e prosperidade, que se cumpra plenamente a marca "Património da Humanidade". Em espírito. Em festa.

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Decisão tomada por unanimidade, em Sevilha (Espanha), na 33ª sessão do Comité do Património Mundial, presidido por María Jesús San Segundo. A Ribeira Grande - redenominada Cidade Velha no final do séc. XVIII - foi a primeira cidade colonial construida por europeus (portugueses) abaixo dos trópicos, no séc. XV. A declaração (versão preliminar) da Cidade Velha-Ribeira Grande de Santiago a Património Mundial, de 2007, pode ser lida aqui.





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Ouvir Silencio - Bau

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Imagens http://abraaovicenti.blogspot.com/

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Não basta um grande amor
para fazer poemas.
E o amor dos artistas, não se enganem,
não é mais belo
que o amor da gente.

O grande amante é aquele que silente
se aplica a escrever com o corpo
o que seu corpo deseja e sente.

Uma coisa é a letra,
e outra o ato,

– quem toma uma por outra
confunde e mente.




Affonso Romano de Sant'Anna
http://www.affonsoromano.com.br/

quarta-feira, 24 de junho de 2009


Imagens de Abraão Vicente
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A arte opta sempre pelo individual, o concreto; a arte não é platónica
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Jorge Luis Borges
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Ouvir sum sabia - Herminia Ft. Morgadinho

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Entreposto humano?



"Nesta “coisa” das 7 Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo, uma das “maravilhas” a concurso era a Cidade Velha de Santiago em Cabo Verde, cidade que «nasceu e desenvolveu-se por conta do tráfico negreiro», vulgo comércio de escravos. Há bocado ouvi na RTP1 uma menina referir a Cidade Velha de Santiago como “importante entreposto humano”. Assim mesmo. E assim vai a História de Portugal e assim vai a nossa relação com a nossa História."
(no blogue de Rui Simões, Der Terrorist).


Disse João Branco AQUI


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Sugestão de João Branco, DIRECTOR ARTÍSTICO do Centro Cultural Português - ICA / Pólo do Mindelo – Cabo Verde
Presidente da Direcção da Associação Artística e Cultural Mindelact. Actor e encenador

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