sexta-feira, 1 de maio de 2009

Historicamente


de lutos e lutas ________________________________________________________
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(muito mais do que feriado)
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La mauvaise réputation - Georges Brassens
Fotografia Mário Cravo Neto




A reciprocidade perceptual entre os nossos corpos que sentem e a paisagem animada e expressiva, gera e sustenta, simultaneamente, a nossa reciprocidade linguística mais consciente com os outros. O complexo intercâmbio a que chamamos "linguagem" está enraízado na troca não-verbal já em curso entre a nossa própria carne e a carne do mundo.



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Fotografia Lilya Corneli




Esta noite deitei-me ao lado da tua ausência




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quinta-feira, 30 de abril de 2009

Acontece







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Num momento ocioso roubado à minha discreta participação nas VII Jornadas ICOM Portugal: Museus e Turismo , realizadas esta semana num dos atapetados auditórios da Gulbenkian em Lisboa, saí levitando (aquele chão fofo, cor de camurça, abafa o barulho dos saltos, dá-nos escala, uma sensação de ...) bem, deixemos isso, saí da sala e lá fui direitinha à livraria. Os 10 minutos de uma breve fuga para comprar um livro antecipadamente identificado, transformaram-se numa longa ausência de mais de meia hora. Perdi duas comunicações e alguns pertinentes comentários, mas encontrei-(me) com esta preciosidade literária que fala de falas, da percepção e linguagem num mundo mais-do-que-humano, da carne da linguagem e da ecologia da magia.
Enfeitiçada pela abordagem transdisciplinar (Filosofia/Ecologia/Religião), pelo tom envolvente da escrita e pela novidade do discorrer de David Abram, o cientista - ilusionista/mágico de rua/prestidigitador, filho de dois grandes artistas, uma pianista e de um pintor, que usa os seus dons ilusórios, criatividade e rigor científico para investigar a fenomenologia da percepção mais-do-que-humana, o grande poder dos xamãs e feiticeiros em recônditas aldeias do Bali, as artes da cura e o-mais-que-sensível equilíbrio entre o tangível e intangível na natureza.
Fiquei ali, encostada à estante, com o livro obrigatório debaixo do braço (aquele que inicialmente me tinha levado à livraria, já identificado e pago) e ESTE outro, de um azul cintilante, que me veio parar ás mãos num passe de mágica.
De volta ao auditório, ainda consegui ouvir a acutilante intervenção do presidente do ICOMOS-Portugal, que fez questão em distinguir, claramente, a coisa da coisificação, quando se fala de Patrimónios, Museus e Turismo.

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segunda-feira, 27 de abril de 2009

En Lisboa, asomados a las ventanas, los ancianos leen y releen ...



En Lisboa los portales poseen timbres individuales para cada piso, timbres que se amontonan unos encima de otros en la superficie de las puertas formando extraños mosaicos. En Lisboa los policías charlan en la calle sobre la colonia que utilizan, dándose a oler sus muñecas, mientras los tullidos no les quitan ojo. En Lisboa, asomados a las ventanas, los ancianos leen y releen novelas policíacas al caer la tarde. En Lisboa, desde lo alto del elevador de Santa Justa, a eso de la una del mediodía, puede verse a dos dubitativos suicidas charlando de pie sobre un tejado. En Lisboa, los sex-shops, por lo que he podido comprobar, son la mar de pudorosos. En Lisboa hubo una vez una empresa de limpieza de chimeneas, fundada en 1861, llamada A Lisbonense, situada sobra una floristería llamada A Gardenia. En Lisboa los tejados no parecen reales. En Lisboa hay pensiones que invitan a pensar. En Lisboa, a la hora del aperitivo, las parejas se sientan en las terrazas y hablan entre susurros que nadie más puede escuchar. En Lisboa los tranvías son como animales que engullen a las personas y así, en sus vientres, mientras hacen la digestión, las transportan por toda la ciudad. En Lisboa hasta los maniquíes se sientan al sol con la mirada perdida. En Lisboa los andamios son individuales, las calles tan solitarias como los andamios y la saudade puede contemplarse hasta en los zapatos de tacón de las mujeres sin prisa.


Texto e fotografia de Álex Nortub, publicado AQUI Relato "Ocho días en Lisboa "
Fiquei presa a este olhar estrangeiro _ http://hoteljuntoalavia.blogspot.com/

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sábado, 11 de abril de 2009

Passagem

Fotografia http://www.desireedolron.com/work.aspx











Dobro esta folha do caderno para assinalar mais uma Pessach, mais uma passagem. ázima. Regresso no Pentecostes. Até lá, silencio-me para escutar o que o vento aqui deixar.


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terça-feira, 7 de abril de 2009

O que é ser índio ?




Fotografias: Michel Blanco




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Quem nunca ouviu falar no Curupira e no Saci? Nem conhece mandioca, guaraná, tapioca, ou nunca deitou numa rede? Esses são elementos da cultura indígena reconhecidos como parte da identidade nacional. Em 19 de abril comemora-se o Dia do Índio, mas há pouco o que festejar nos mais de 500 anos de contato. No Brasil, vivem mais de 500 mil índios em aldeias. São 220 etnias e 185 línguas diferentes. Mas a sociedade brasileira pouco compreende a realidade deles - por falta de informação ou preconceito.



É o que afirma Betty Mindlin, antropóloga e autora de "Diários da Floresta" (Editora Terceiro Nome), lançado em 2006 e recentemente traduzido para o francês. Ela fala da complexidade da vida social, da organização econômica, da cultura e das relações de afeto dos índios e iniciou sua primeira grande pesquisa com o povo Suruí, de Rondônia, no fim da década de 1970.



Assim como outras etnias brasileiras, os Suruí passaram por transformações intensas nos últimos 30 anos. "Não há nada que seja estático e não podemos querer que os índios não sofram influência de uma sociedade dominante. Eles estão sujeitos a isso, às religiões proselitistas", explica Betty. "Se por um lado observo coisas fantásticas, pois hoje eles falam por eles mesmos, estão organizados, por outro essa questão da religião me entristece. Os pajés estão calados por força de uma lavagem cerebral", conta.



Mesmo com dificuldades, a população indígena brasileira cresce atualmente acima da média nacional, com índices de cinco e seis por cento ao ano. Mas a pressão pela integração à sociedade e a visão preconceituosa marcam o modo como a questão é tratada no País. "Muita gente tem dificuldade de nos entender porque ainda guarda a imagem antiga do índio nu, que não falava português. Hoje, temos contato com a tecnologia da sociedade não-indígena. São relógios, carros, computadores, telefones... Mas nem por isso deixamos de ser índios, pois temos a tradição", avalia Cipassé Xavante, cacique da aldeia Wedera, na terra indígena Pimentel Barbosa, em Mato Grosso.


Cipassé trabalha para mudar essa percepção. "Trabalhamos com crianças e professores em escolas da região e damos palestras para estudantes universitários. A educação deve informar e o povo brasileiro não sabe, não tem informação. Esse é um exemplo de troca".



O que é ser índio?

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A Organização das Nações Unidas (ONU) define como indígenas aqueles povos nativos que não se amalgamaram nos processos civilizatórios. Essa definição, no entanto, é insuficiente, embora sirva de base para discussões em âmbito internacional - caso da Declaração Universal dos Povos Indígenas, aprovada em 2007 por 143 países, incluindo Brasil, e que agora conta com a posição favorável da Austrália, até então opositora do texto, juntamente com Estados Unidos, Canadá e Nova Zelândia.



No Brasil, índio é aquele que preservou um sentido de comunidade e de lealdade a um passado mítico, "que não é necessariamente um passado histórico", afirma Mércio Gomes, antropólogo e ex-presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), onde ficou de 2003 a 2007.


"Nos EUA, é índio quem tem 1/124 de sangue indígena. Na Bolívia, essa questão é um pouco semelhante ao Brasil, e ser identificado como índio depende de especificações e preservações de características comunitárias", explica. Para Mércio, o modo de ser dos povos brasileiros está extremamente conectado com a relação que estabelecem com a terra.



A líder indígena e socióloga Azelene Kaingang, do Paraná, concorda e questiona a visão que não-indígenas têm do território. "A sociedade em geral pensa na terra com a visão do valor monetário: quanto vale a terra para compra e venda? Para os povos indígenas, a terra é a referência de identidade".



Formada pela PUC do Paraná e funcionária da Funai em Brasília, sempre que pode vai à aldeia e pretende, em breve, voltar para ficar de vez. Ao definir o índio no Brasil hoje, dá a seguinte declaração: "Ser índio no Brasil é se sentir pequeno, se sentir diminuído frente aos direitos dos cidadãos brasileiros. Somos sujeitos de juízo e de pensamento. Isso é história, não é passado. Estamos sofrendo um processo de recolonização." Azelene refere-se ao julgamento da demarcação da terra indígena Raposa Serra do Sol no Supremo Tribunal Federal (STF), em 19 de março desse ano, que culminou na determinação de 19 condicionantes para novos processos de regularização fundiária. Uma vida plena de sentidos.






Betty Mindlin lembra da história de Pedro Agamenon Arara, em Rondônia, que passou mais de 30 anos sem saber que era índio. Ameaçada, a mãe de Pedro fugiu da aldeia quando ele ainda era pequeno e nunca ensinou a língua e os costumes. A antropóloga conta que ele redescobriu as raízes e hoje é um dos líderes de seu povo. Histórias como essa repetem-se por todo o Brasil. "Não há caminho curto para o fim da injustiça social. Mas esses princípios devem estar na educação das crianças, na escola. A história de Pedro é a história do povo brasileiro", fala Betty, que entende a decisão do STF como um retrocesso.


"Não vejo porque é tão difícil para a sociedade entender os povos indígenas. É como a poesia de Cecilia Meireles: Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda..."



Muitos índios têm um nome "branco" e um indígena. O sobrenome, muitas vezes, identifica a etnia a qual pertencem. Assim, Azelene é da etnia Kaingang, do Paraná, e Cipassé, Xavante de Mato Grosso.
» Mesmo que pareça estranho, uma convenção da Associação Brasileira de Antropologia estabelece que não se faz uso de plural para nomes de etnias. Portanto, falamos em "os Suruí".
» Segundo dados oficiais da ONU, são cerca de duas mil etnias e 370 milhões pessoas que se consideram indígenas no mundo.
» Atualmente, as terras indígenas compõem cerca de 13% do território nacional.




Artigo de Júlia Magalhães




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Fontes:


Fundação Nacional do Índio (Funai)


seiva de toda a terra (e _________________ CRAVOS)



[ não há incêndios que salvem o odor do feno. estalam escamas.ardem os frutos. como golpes. cavos.]


C R A V O S._______________.



Um BEIJO inaugural. infinitamente belo



domingo, 5 de abril de 2009

em língua de gavetas

Fotografia Flor Garduño











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redemoinho de
disputas íntimas
poço
profundo em segredos
repositório
palheiro de agulhas
caixa falante
em língua de gavetas


" Cómoda ", poema de Carlos Augusto Lima ( Fortaleza 1973)


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"O Bê-á-bá dos Ciganos”

Tâmara (fotografia d`AQUI)
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A notícia de uma turma exclusiva de ciganos numa escola de Barqueiros voltou a relançar a polémica sobre a melhor maneira de integrar estas crianças. Mas o debate talvez tenha passado ao lado do essencial. Quando surgiu o Rendimento Mínimo, nos anos 90, os ciganos começaram a chegar às escolas em grande número. Ninguém estava preparado; nem as escolas, nem as crianças, habituadas a uma cultura do “posso, quero e mando”. Com a crise da venda ambulante, os pais começam a aceitar, e até a desejar que os filhos tenham uma educação com futuro. No entanto, para que isso aconteça é preciso investir na educação pré-escolar e valorizar o papel dos mediadores socioculturais.


Ouça aqui "O Bê-á-bá dos Ciganos, uma grande reportagem TSF



______ obrigada Mirna





Há pensamentos que são orações.
Há momentos nos quais, seja qual for a posição do corpo, a alma está de joelhos




Victor Hugo

sábado, 4 de abril de 2009



















Esplêndida
Cesário Verde




Ei-la! Como vai bela! Os esplendores
Do lúbrico Versailles do Rei-Sol
Aumenta-os com retoques sedutores.
É como o refulgir dum arrebol
Em sedas multicores.
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Deita-se com languor no azul celeste
Do seu landau forrado de cetim;
E os seus negros corcéis que a espuma veste,
Sobem a trote a rua do Alecrim,
Velozes como a peste.
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É fidalga e soberba. As incensadas
Dubarry, Montespan e Maintenon
Se a vissem ficariam ofuscadas
Tem a altivez magnética e o bom-tom
Das cortes depravadas.
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É clara como os pós à marechala,
E as mãos, que o Jock Club embalsemou,
Entre peles de tigres as regala;
De tigres que por ela apunhalou,
Um amante, em Bengala.
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É ducalmente esplêndida! A carruagem
Vai agora subindo devagar;
Ela, no brilhantismo da equipagem,
Ela, de olhos cerrados, a cismar
Atrai, como a voragem!
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Os lacaios, vão firmes na almofada;
E a doce brisa dá-lhes de través
Nas capas de borracha esbranquiçada,
Nos chapéus com roseta, e nas librés
De forma aprimadora.
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E eu vou acompanhando-a, corcovado,
No trottoir, como um doido, em convulsões,
Febril, de colarinho amarrotado,
Desejando o lugar dos seus truões,
Sinistro e mal trajado.
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E daria, contente e voluntário,
A minha independêndcia e o meu porvir,
Para ser, eu poeta solitário,
Para ser, ó princesa sem sorrir,
Teu pobre trintanário.
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E aos almoços magníficos do Mata
Preferiria ir, fardado, aí,
Ostentando galões de velha prata,
E de costas voltadas para ti,
Formosa aristocrata!




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imagem do filme A Corte do Norte de João Botelho, que conta a história de Emília de Sousa, a maior actriz que o teatro português conheceu nos finais do séc. XIX, que abandonou por uns anos a carreira para se casar com o rico madeirense Gaspar de Barros e transformar-se na Baronesa da Madalena do Mar. Tão bela quanto Sissi, a Imperatriz da Áustria, com quem conviveu no Inverno de 1860/61 decidiu construir um mistério que perdurou por quatro gerações e por mais de um século.










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bendito é o fruto



Fotografia d` AQUI

terça-feira, 31 de março de 2009




O estado geral de medo durante o fascismo. Durante as dezenas de anos do Estado Novo, muitos portugueses olharam cuidadosamente em redor, na rua, no café ou na tasca, antes de exprimir a sua opinião sobre qualquer assunto tido por «político».


Diana Andringa
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Palavras sem fronteiras no Museu da Língua portuguesa




Exposição baseada na obra do embaixador Sergio Corrêa da Costa entra em cartaz no dia 06 de abril e interage de maneira inédita com acervo permanente do museu;

Pela primeira vez em três anos de existência, que se completam em 21 de março, o Museu da Língua Portuguesa lança uma exposição que se confunde com seu próprio acervo, ocupando os espaços da Grande Galeria, Auditório, Praça da Língua e até a Livraria da Imprensa Oficial.

Trata-se de Palavras sem fronteiras – Mídias Convergentes, baseada na obra do embaixador e membro da Academia Brasileira de Letras Sergio Corrêa da Costa, falecido em 2005. A realização é da Secretaria de Cultura do Governo do Estado de São Paulo e da Poiesis - Organização Social de Cultura que administra o museu.


Com curadoria de Maria Eugênia Stein e de Julio Heilbron, da EMC – Marketing Cultural, a mostra, que vai até 14 de junho, apresenta palavras que transitam por diferentes idiomas sem perder seus significados originais. Dividida em quatro módulos, utiliza o conceito de mídias convergentes, ou seja, a união de imagem, palavra, som e tecnologia digital.

“Esta exposição revela, de maneira moderna e dinâmica, como as palavras se movem e se mesclam a diversos idiomas, tão distintos como português e árabe, mas sempre mantendo o significado original. Certamente, enriquecerá ainda mais a visita ao Museu da Língua Portuguesa e surpreenderá o visitante”, afirma Antonio Carlos Sartini, diretor do museu.


Para a curadora Maria Eugênia Stein, “a montagem da exposição Palavras sem fronteiras - Mídias Convergentes, busca integrar, pela primeira vez, uma mostra inovadora com as concepções virtuais da Grande Galeria e da Praça da Língua, principais espaços expositivos do museu. O objetivo é compatibilizar conteúdos e tecnologias por meio de intervenções pontuais, em concordância e estreita sintonia com a percepção museográfica original da instituição”.


A primeira concepção de Palavras sem fronteiras, com linguagem multimídia e recursos tecnológicos de última geração, cuidadosamente selecionados com o propósito de transmitir os efeitos e impactos imaginados, foi realizada em 2007 nas dependências da Biblioteca Rodolfo Garcia, da Academia Brasileira de Letras, uma das mais modernas e bem equipadas do país, e alcançou expressivo sucesso.Sobre a obra Palavras sem fronteiras


Sergio Corrêa Costa sempre foi um apaixonado pela língua francesa, herança de sua mãe. E em 45 anos de carreira, nunca tinha passado nem um só mês na França. Quando se aposentou, se estabeleceu em Paris. E foi lá que surgiu a idéia de buscar palavras e expressões em francês que ultrapassavam suas fronteiras e foram ganhando o mundo. Inicialmente sem grandes pretensões, o projeto tomou corpo e acabou virando uma obra de referência no campo do vocabulário universal.


A obra Palavras sem fronteiras é, nas palavras do próprio embaixador, “uma coleção de palavras que viajam pelo mundo”. Publicada originalmente na França sob o título Mots sans Frontières por Éditiions Du Rocher, em 1999, obteve no mesmo ano o Grande Prêmio da Fundação Prince Louis de Polignac. No Brasil, o livro foi editado em 2000, pela Editora Record, e contém um índice com três mil palavras e expressões e 16 mil exemplos de seus empregos. O material foi recolhido pelo embaixador durante dois anos em jornais de 15 países, de oito línguas, que refletem 46 idiomas e acabam por integrar uma espécie de “vocabulário sem fronteiras”, que aumenta sem cessar e aproxima as culturas.Corrêa da Costa coletou palavras com vocação cosmopolita, ou seja, que viajaram intactas ou com mínima variação para as demais línguas e se incorporaram a elas. Hoje, podemos pedir no mundo inteiro um capuccino, ou uma pizza, um carpaccio, lasanhas, um expresso. Os grafitti, os paparazzi, as prima donnas, as divas, os dilettantes, a extravaganza, o imbroglio fazem parte de nossas vidas. Quem não se interessa pela dolce vita, o farniente, os gran finales, até as proezas da Mafia ou dos maffiosi?


Sobre a exposição


A mostra Palavras sem Fronteiras ocupa os segundo e terceiro andares do museu. Ao sair do elevador e entrar no saguão do segundo andar, no entorno da Árvore da Palavra, o visitante já se depara com o primeiro módulo: um painel sobre o livro, o escritor e as palavras sem fronteiras. O espaço terá ainda duas telas de plasma. Uma apresentará momentos importantes da vida do escritor e a outra mostrará como a pesquisa foi realizada.O próximo módulo será apresentado na Grande Galeria – o telão de 106 metros. Entre os intervalos das projeções, uma animação gráfica com as palavras sem fronteiras. Sons de termos em diversas línguas compõem a trilha sonora desse módulo. São quatro filmes de cada vez, um ao lado do outro, cobrindo todo o comprimento da galeria.O terceiro módulo poderá ser visto no auditório e na Praça da Língua do Museu da Língua Portuguesa, localizados no terceiro andar. Serão apresentadas 12 criações de videopoesia de profissionais que têm se notabilizado nessa modalidade de expressão artística. Cada artista convidado interpreta simbolicamente, em linguagem virtual, uma das palavras identificadas pelo autor, considerando, além dos aspectos artísticos, a fidelidade ao conceito e aos componentes socioculturais contidos na proposta. As sessões no auditório serão apresentadas quatro vezes ao dia, duas de manhã e duas à tarde: 11h e 12h30, 14h e 15h30, respectivamente.


Algumas das palavras selecionadas e respectivos videoartistas:
Abat-jour (fr); abajur (po) – Walter Silveira
Barroco (po); baroque (fr, in); Barok (al) – Marcos Bonisson
Chérubin (hebreu); querubim (po) – André Vallias
Samba (po); samba (fr,in) – João Bandeira
Sertão (po); sertão (fr,in) – Gabriel Tupinambá


Após assistir a estes vídeos, o visitante irá ver, nos mesmos horários citados acima, animações com palavras sem fronteiras na Praça da Língua. Elas serão projetadas no teto da praça, envolvem todo o espaço criando, com seus movimentos e sincronismo, a sensação de um ambiente quase holográfico. Essas animações estão divididas por lugar de origem dessas palavras (inglesas, latinas, francesas, etc.). As sessões serão subsequentes às apresentadas no auditório, complementando-as. Sussurros e murmúrios compõe a trilha sonora desse módulo.Até mesmo a Livraria da Imprensa Oficial, no andar térreo do Museu, participa da exposição com uma cenografia especial. A partir do dia 4 de maio, textos e imagens impressos em vinil serão adesivados nos vidros do local. Este módulo foi produzido especialmente em homenagem à língua francesa – por ocasião do Ano da França no Brasil – e aproxima as Palavras sem Fronteiras da literatura brasileira.


O catálogo, que será lançado no dia 4 de maio, está em sintonia com o próprio conceito da exposição, e revela imagens dos filmes e instalações que criam outra dimensão para a compreensão da ideia fundamental que orienta a exposição.


Acessibilidade para pessoas com deficiência visual


A proposta da exposição também estará acessível às pessoas com deficiência visual com consultoria da Museus Acessíveis e apoio da Fundação Dorina Nowill para Cegos.

Serão oferecidas visitas educativas inclusivas com educadores treinados para conduzir as pessoas com deficiência visual no museu e proporcionarem um roteiro áudio-descritivo da exposição.

Além das visitas, a partir do dia 04 de maio, será oferecido acesso aos textos de curadoria da exposição, uma pesquisa sobre as palavras de língua francesa e o livro “Palavras sem Fronteiras” em versão resumida em terminais multimídia na Livraria da Imprensa Oficial.

Estes textos e o livro estão sendo produzidos pelo Departamento de Livro Digital Acessível da Fundação Dorina para Cegos, utilizando a tecnologia DAISE, que transforma os conteúdos textuais visuais em versões auditivas com diferentes possibilidades de busca.



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CANCLINI, Néstor Garcia. Culturas Híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. Tradução de Ana Regina Lessa e Heloísa Pezza Cintrão. 3. ed. São Paulo: Edusp, 2000 (Ensaios Latino-americanos, 1).
Marcos Aurélio Souza*
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Culturas híbridas - estratégias para entrar e sair da modernidade do argentino Néstor Garcia Canclini apresenta uma importante reflexão sobre a problemática da modernidade na América latina. O subtítulo desse livro, nesse caso, não é apenas mero complemento, mas sobretudo, uma poderosa sugestão. A modernidade já não é mais uma via sem saída, é possível entrar nela, assim com é possível e preciso sair dela. Daí, como saída, o autor apresentar questões como: pós-modernidade, hibridação, poderes oblíquos, descoleção e desterritorialização, as quais se configuram, de uma forma muito peculiar, no processo de modernização, estabelecido e estabelecendo-se, tardiamente, no chamado Terceiro Mundo latino.O livro de Canclini é o primeiro de uma série de publicações, intitulada Ensaios latino-americanos, publicada pela EDUSP, da qual faz parte outros títulos como América Latina do século XIX de Maria Lígia Coelho, Ángel Rama: Literatura e cultura na América Latina de Flávio Aguiar e Sandra Guardini e Paisagens imaginárias: intelectuais, arte e meios de comunicação de Beatriz Sarlo. O professor de História da arte da Universidade do México, com essa publicação, insere-se, também, no rol de vigorosos pensadores da contemporaneidade, a exemplo de Edward Said, Homi Bhabha, Stuart Hall, Kwame Appiah, e o nosso Silviano Santiago, intelectuais sintonizados com a produção multicultural: as relações e trocas simbólicas entre as nações, as diásporas, as novas tecnologias e seu impacto sobre a tradição, os cruzamentos entre o popular e o erudito, as culturas de fronteira etc. De forma original, Canclini analisa as estratégias de entrada e saída da modernidade, partindo do princípio de que na América latina não há uma firme convicção de que o projeto moderno deva ser o principal objetivo ou o algo a ser alcançado, "como apregoam, políticos, economistas e a publicidade de novas tecnologias" (p.17). Essa convicção tão presente e relevante para o crescimento econômico das chamadas potências mundiais, desestabilizou-se a partir do momento em que se intensificou as relações culturais com países recém independentes do continente americano, na medida em que se cruzaram etnias, linguagens e formas artísticas. Canclini prefere chamar essa nova situação intercultural de hibridação em vez de sincretismo ou mestiçagem, "porque abrange diversas mesclas interculturais - não apenas as raciais, às quais costuma limitar-se o termo 'mestiçagem' - e porque permite incluir as formas modernas de hibridação, melhor do que 'sincretismo', fórmula que se refere quase sempre a fusões religiosas ou de movimentos simbólicos tradicionais" (p. 19).O autor transita entre diferentes manifestações culturais e artísticas (muitas delas anônimas): desde passeatas reivindicatórias, passando pela pintura, arquitetura, música, grafite e histórias em quadrinhos até a simbologia dos monumentos. Com isso ele começa a refletir sobre o que chama migrações multidirecionais, relativizadoras do paradigma binário (subalterno/hegemônico, tradicional/moderno) que tanto balizou a concepção de cultura e poder na modernidade. Tal reflexão se desenvolve em sete capítulos sem uma linearidade ou um esquema predeterminado, segue um movimento típico do gênero ensaístico, coadunando-se com a postura descentrada do autor: "para tratar dessas questões é inadequada a forma do livro que se desenvolve de um princípio a um final" (p. 28), a forma do ensaio permite, então, "um movimento em vários níveis" (idem). Aproveitando a oportunidade de livre acesso, sem uma preocupação seqüencial, farei, aqui, uma leitura mais detida do sétimo capítulo, intitulado "Culturas híbridas, poderes oblíquos", a fim de mostrar, mais nitidamente, os instrumentos conceituais trabalhados, ou seja, a contribuição teórica do pensamento de Canclini para os estudos contemporâneos nos diversos setores do conhecimento (arte, antropologia, história, comunicação etc.). Esse setores, aliás, perdem suas antigas fronteiras, misturam-se, confundem-se, em consonância com as novas tecnologias comunicacionais da atualidade.Utilizando a metáfora do videoclip, o autor fala da linguagem das manifestações híbridas que nascem do cruzamento entre culto e o popular. Dessencializa, assim, tanto a idéia de uma tradição autogerada, construída por camadas populares, quanto a noção de arte pura, ou arte erudita. A linguagem paródica, acelerada e descontínua do videoclip representa a desconstrução das ordens habituais, deixando que apareçam as rupturas e justaposições, entre essas duas noções tradicionais de cultura, que culminam em um outro tipo de organização dos dados da realidade. A fim de conter as formas dispersas da modernidade, Canclini investiga o fenômeno da cultura urbana, principal causa da intensificação da heterogeneidade cultural. É na cidade, portanto na realidade urbana, que se processa uma constante interação do local com redes nacionais e transnacionais de comunicação.O autor nos lembra que a idéia de urbanidade não se opõe a idéia de "mundo rural" ou comunidade, "o predomínio das relações secundárias sobre as primárias, da heterogeneidade sobre a homogeneidade [...] não são atribuíveis unicamente à concentração populacional nas cidades" (p. 285). Dissolver-se na massa e no anonimato é apenas uma das facetas da metrópole, a outra é das comunidades periféricas que criam vínculos locais de afetividade e de condescendência e saem pouco de seus espaços. A questão é que essas estruturas microssociais da urbanidade - o clube, o café , a associação de vizinhos, o comitê político etc. - que antes se interligavam com uma continuidade utópica dos movimentos políticos nacionais, estão cada vez mais desarticuladas enquanto representação política. Isso se deve, dentre outros fatores, às dificuldades dos grupos políticos para convocarem trabalhos coletivos, não rentáveis ou de duvidoso retorno econômico - e é cada vez mais imperativo o adágio : "tempo é dinheiro". Os critérios mais valorizados são os que se ligam à rentabilidade e eficiência. "O tempo livre dos setores populares, coagidos pelo subemprego e pela deteriorização salarial, é ainda menos livre por ter que preocupar-se com o segundo, ou terceiro trabalho, ou em procurá-los" (p. 288). A maior relevância da mídia, hoje, nesse sentido, é por se tornar a grande mediatizadora ou até substituta de interações coletivas. A participação de camadas periféricas relaciona-se cada vez mais com uma espécie de "democracia audiovisual", em que o real é produzido pela imagens da mídia.Da idéia de urbanidade e teleparticipação, Canclini passa a investigar a questão da memória histórica, desfazendo a perspectiva linear de que a cultura massiva e midiática substitui a herança do passado e as interações públicas. Nesse sentido, investiga a presença dos monumentos e a sua relação ambivalente em meio as transformações da cidade. O monumentos não são mais os cenários que legitimam o culto do tradicional, "abertos à dinâmica urbana facilitam que a memória interaja com a mudança, que os heróis nacionais a revitalizam graças à propaganda ou ao trânsito: continuam lutando com os movimentos sociais que sobrevivem a eles"(p. 301).Através das fotos de monumentos mexicanos, o autor ilustra bem a reedição simbólica dessas grandes construções na contemporaneidade. Um cena pré-colombiana de índios pedestres, quase no nível da rua, mistura-se a cena dos pedestres urbanos na capital mexicana. Canclini sugere que a figura heróica de Zapata na cidade de Cuernavaca, esteja lutando contra o trânsito denso que sugere os conflitos a sua enérgica figura. Mostra uma outra representação, mais tosca, do herói mexicano em um povoado "sem cavalo, sem a retórica monumental da luta, levemente irritado, uma cabeça do tamanho da de qualquer homem". O hemiciclo a Juárez na Cidade do México é palco de múltiplas interpretações do herói nacional, o pai do laicismo sustenta as lutas contemporâneas a favor do aborto e manifestação de pais que protestam por seus filhos desaparecidos. "Os monumentos contém freqüentemente vários estilos e referências a diversos períodos históricos e artísticos. Outra hibridação, soma-se logo depois de interagir com o crescimento urbano, a publicidade, os grafites e os movimentos sociais modernos" (p. 300).Analisando ainda a problemática da cultura urbana, Canclini estuda dois processos diferenciados e complementares de desarticulação cultural: o descolecionamento e a desterritorialização. O primeiro envolve a recusa pós-moderna(1) de se produzir bens culturais colecionáveis, o que seria uma sintoma mais claro de como se desconstituem as classificações que distinguiam o culto do popular e ambos do massivo. Desaparece cada vez mais a possibilidade de ser culto por conhecer apenas as chamadas "grandes obras"; o ser popular não se constitui mais a partir do conhecimento de bens produzidos por uma comunidade mais ou menos fechada. O intelectual pós-moderno se constitui a partir de sua biblioteca privada, onde livros se misturam com recortes de jornais, informações fragmentárias no "chão regados de papéis disseminados", conforme Benjamim (citado por Canclini, p. 303).A partir dos novos dispositivos tecnológicos como a fotocopiadora, o videocassete e o vídeo game que não podem ser considerados como cultos ou populares, as coleções se perdem e com elas, as referências semânticas e históricas que amarravam seu sentido. No primeiro dispositivo há a possibilidade do manejo mais livre e fragmentário dos textos e do saber, no segundo é permitido a reorganização de produções audiovisuais tradicionalmente opostas: o nacional e o estrangeiro, o lazer e o trabalho a política e a ficção etc. O terceiro, enfim, desmaterializa e descorporifica o perigo "dando-nos unicamente o prazer de ganhar dos outros ou a possibilidade, ao sermos derrotados, de que tudo fique na perda de moedas numa máquina" (p. 307).Canclini afirma que o segundo processo, o da desterritorialização, se constitui como mais radical significado de entrada e saída da modernidade. Para ilustrar isso, ele analisa primeiro a trasnacionalização dos mercados simbólicos e as migrações. Nesse sentido desconstrói os antagonismos : colonizador vs. Colonizado e nacionalista e cosmopolita, ao enfatizar a descentralização das empresas e a disseminação dos produtos simbólicos pela eletrônica e pela telemática, "o uso de satélites e computadores na difusão cultural também impedem de continuar vendo os confrontos dos países periféricos como combates frontais com nações geograficamente definidas" (p. 310). É importante esclarecer, para destituir a idéia de maniqueísmo, que a difusão tecnológica também permitiu a países dependentes registrarem um crescimento notável de suas exportações culturais, basta lembrar do crescimento da produção cinematográfica e publicitária do Brasil nos últimos anos. Outro fator importante para a desterritorialização, é o que o autor chama de migrações multidirecionais, a constância cada vez maior da realidade diaspórica. Tal realidade é muito bem ilustrada pelo seu estudo sobre os conflitos interculturais em Tijuana, fronteira entre o México e os Estados Unidos. Ele afirma: "várias vezes pensei que essa cidade é , ao lado de Nova Iorque, um dos maiores laboratórios da pós-modernidade"(p. 315) . O caráter multicultural desse local não se expressa apenas no uso do espanhol e do inglês, mas nas relações divergentes e convergentes que se dão entre uma cultura e outra. Ao mesmo tempo há uma tentativa de retorno ao tradicional, ou pelo menos, uma tentativa de reinventá-lo. Em Tijuana, a busca pelo autêntico atende também aos interesses do mercado turístico. Visitantes tiram foto em cima de burros pintados que imitam zebra, ao fundo imagens de várias regiões do México: vulcões, figuras astecas, cactos etc. Ao final do seu trabalho, Canclini se detém no papel da arte no entendimento da hibridação na América Latina. Cita o manifesto antropófago no Brasil e o grupo Martín Fierro na Argentina, como interpretações de nossa identidade, realizadas, muitas vezes, a partir de elementos estéticos e sociais de outro país - Oswald vê o Brasil no alto do atelier da Place Clichy. Sobre o cosmopolitismo e localismo desses artistas afirma: "O lugar a partir do qual vários artistas latino-americanos escrevem, pintam ou compõe músicas já não é a cidade na qual passaram sua infância, nem tampouco é essa na qual vivem há alguns anos, mas um lugar híbrido, no qual se cruzam os lugares realmente vividos" (p. 327).Por outro lado, em conseqüência ao processo da descoleção, como já fora explicitado, o artista perde sua áurea como fundador da gestualidade e das mudanças totais e imediatas. As práticas artísticas carecem agora de paradigmas consistentes: o cânone, a genialidade e a erudição são idéias ultrapassadas e pretensiosas. Ao artista ou ao artesão (categorias cada vez menos diferenciadas) restam às vezes as cópias, a possibilidade de repetir peças semelhantes, ou a possibilidade de ir vê-las num museu ou em livros para turistas.
Não vejo nesses pintores, escultores e artistas gráficos a vontade teológica de inventar ou impor um sentido ao mundo. Mas também não há neles o niilismo abissal de Andy Warhol, Rauschemberg e tantos praticantes do bad painting e da transvanguarda. Sua crítica ao gênio artístico, e em alguns ao subjetivismo elitista, não os impede de perceber que estão surgindo outras formas de subjetividade a cargo de novos agentes sociais (ou não tão novos), que há não são exclusivamente brancos, ocidentais e homens. (p. 331)
Como proposta de uma prática artística híbrida, Canclini finaliza seu texto, falando do grafite e dos quadrinhos, gêneros impuros que desde o nascimento abandonaram o conceito de coleção patrimonial, e se estabelecem como "lugares de interseção entre o visual e o literário, o culto e o popular" (p. 336). A ambivalência do grafite se constitui, quando, ao mesmo tempo, que serve para afirmar territórios (arte neotribal) de grupos étnicos ou culturais, também desestrutura as coleções de bens materiais e simbólicos da chamada "alta cultura". Os quadrinhos contribuem para mostrar a potencialidade de uma nova narrativa e do dramatismo que pode ser condensado em imagens estáticas. É o estilo mais lido e o ramo da indústria editorial que produz maiores lucros; por sua relação constante com o cotidiano, acaba por revelar referências e contradições da própria contemporaneidade. Para ilustrar essas manifestações deslocadas, Canclini fala de uma famosa tira de Fontanarrosa, em que um personagem "contrabandista de fronteira" foge da polícia "de 15 países"- o personagem não contrabandeia através de fronteira, mas a própria fronteira: balizas, barreiras, marcos, arames farpados etc. Após vender uma defeituosa, ele tem que se esconder para não ser preso pela Interpol. No final, quando estava sendo perseguido, o personagem acaba por entrar numa manifestação popular, pensando se tratar de uma procissão, porém, na verdade, se tratava de um movimento grevista de policiais. A frase conclusiva que encerra a tira, dita por outro personagem que presencia toda a aflição do protagonista, é emblemática do momento pós-moderno: "A gente nunca sabe onde vai estar metido no dia de amanhã".

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(1)Canclini entende a pós-modernidade "não como uma etapa ou tendência que substituiria o mundo moderno, mas como uma maneira de problematizar os vínculos equívocos que ele armou com as tradições que quis excluir ou superar para constituir-se" (p. 28).

*Marcos Aurélio Souza, Prof. DLA/UESB, Grupo ICER


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(simília similibus)


Fotografia http://www.lilyacorneli.com/


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Quem deita sal na carne crua deixa
a lua entrar pela oficina e encher o barro forte:
vasos redondos, os quadris
das fêmeas - e logo o meu dedo se poe a luzir
ao fôlego da boca: onde
o gargalo se estrangula e entre as coxas a fenda
é uma queimadura
vizinha
do coração - toda a minha mão se assusta,
transmuda,
se torna transparente e viva, por essa força que a traga
até dentro,
onde o sangue mulheril queimado
a arrasta pelos rins e aloja, brilhando
como um coração,
na garganta - o sal que se deita cresce sempre
ao enredo dos planetas: com unhas
frias e nuas
retrato as lunações, talho a carne límpida-
porque eu sou o teu nome quando
te chamas a toda a altura
dos espelhos e até ao fundo, se teus dedos abertos tocam
a estrela
como uma pedra fechada no seu jardim selvagem
entre a água: tu tocas
onde te toco, e os remoinhos da luz e do sal se tocam
na carne profunda: como em toda a olaria o movimento
toca a argila e a torna
atenta
à translação da casa pela paisagem rodando sobre si
mesma - a teia sensível,
que se fabrica no mundo entre a mão no sal
e a potência
múltipla de que esta escrita é a simetria,
une
tudo boca a boca: o verbo que estás a ser cada
tua morte
ao que ouço, quando a luz se empina e a noite inteira
se despenha
para dentro do dia: ou a mão que lanço sobre
esse cabelo animal
que respira no sono, que transpira
como barro ou madeira ou carne salgada
exposta
a toda a largura da lua: o que é grave, amargo, sangrento.

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Herberto Helder, PHOTOMATON & VOX, Assírio & Alvim 1995

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Fotografia: Sophie Calle
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Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso.

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in "Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres", Clarice Lispector



Quer flor ?















Porto de abrigo para múltiplas derivas e migrações, Setúbal é claramente uma cidade de culturas, um complexo artefacto de identidades, nem sempre decifráveis, nem sempre inter.comunicáveis, nem sempre hábeis na arte de inter.viver, socialmente disfuncionais, intermitentes e permeáveis ao "ruído" (ao spam gerado pela ignorância e pelo medo do outro).
O fora e o dentro, o ser e o não ser, são face da mesma moeda. Os museus operam com processos, ferramentas e categorias identitárias.
Recentremo-nos no caso em apreço: " Ser setubalense " é uma categoria identitária que constituíu tema de debate em Tarde museológica. A comunidade cresceu, diversificou-se, mas a forma de a pensar, de a nomear, não cresceu com ela. Intensificada a discussão, percebemos que esta ainda não comporta a ideia de que são setubalenses todos aqueles que, por uma razão ou por outra, têm Setúbal ( ou a sua metáfora ) inscrita.
As culturas desconfiguram-se e reconfiguram-se em diferentes momentos. Não há culturas fechadas, nem identidades fixas. Tudo é mutável, tudo resulta de uma complexa construção que precisa de espaço e tempo para se reconhecer e dar a conhecer. Na vertigem dos dias, na voracidade dos novos tempos, ainda se torna mais difícil. É tudo tão rápido e difuso que chega a ser angustiante. Abrir canais acessíveis à cognição, ao diálogo e à livre fruição. Viver e fazer a experiência. Usufruir plenamente dos serviços museológicos é um direito a que todos (sem excepção) devem ter acesso. Diferença não pode ser sinónimo de exclusão. O desenvolvimento, a participação e a não discriminação, são direitos consignados pela constituição. Estão decretados mas não interiorizados. Ainda não é coisa amada (sentida). Falta dar operacionalidade ao conceito de património pleno (desarrumar as ideias; desfazer as caixas do "material" e do "imaterial" e de outros modismos que nos confinam), deixar fluir, abrir os museus à diversidade. Valorizar os processos de mudança, transformar produtos finais (outputs) em resultados (outcomes) . Rever as narrativas, os conteúdos e as formas (que, por vezes são fôrmas). Expôr-se, mais do que expôr. Admitir novos modelos de comunicação e de representação.
A comunicação entre culturas de diferentes etnias, nacionalidades, géneros, gerações, profissões, e as demais condições (nomináveis e inomináveis), é um processo lento, difuso, jamais acabado. Vai-se cumprindo timidamente nos gestos mais escondidos, em notas sensíveis, que só se revelam através do estreitamento das relações interpesssoais, da minúcia dos olhares, da escuta cerimoniosa, de subtis entendimentos. Estreitam-se na mútua confiança; na abertura crítica (e metódica) aos mundos próximos e distantes.
O aturado trabalho de campo que o Museu do Trabalho Michel Giacometti tem vindo a realizar com os diferentes grupos na comunidade, reforça a ideia de que as pulsões dominam as memórias e que as comidas e os modos de cozinhar, são sofisticados laboratórios de criação e hibridação das culturas. Processos alquímicos que buscam a essência (o in.manifesto); gestos repetidos que operam adaptações históricas (transmissíveis e transmutáveis). A pulsão de comer aguça o engenho, impõe a mistura de sabores, jeitos e trejeitos emergentes, que se fundem em fervilhantes panelões interculturais.
Talvez por isso, a praça de Setúbal, o belíssimo " Mercado do Livramento ", seja citado por setubalenses alentejanos, setubalenses algarvios, setubalenses Murtoseiros (varinos), setubalenses africanos, setubalenses chineses, setubalenses russos, setubalenses romenos, setubalenes goeses, setubalenses timorenses, setubalenses brasileiros, setubalenses pasquistaneses (quer flor ?), e ainda outros setubalenses, como um sítio de referência.
Um lugar de memórias. Um incontornável ponto de encontro.
E se o Museu fosse um grande mercado de marcas identitárias ? Resposta múltipla e colorida aos mais diversos sabores; ás mais intensas pulsões ? Um lugar de referência. amável. inspirador. atento. socialmente util ? Primordial como a vida. vivo.

Os comeres e a música são vida e ritmo, respiram e transpiram culturas/misturas.
A língua, mater dolorosa de Natália Correia, a cal o pão e o vinho.

O tradicional mercado ( metáfora contemporânea da ágora ou do Rossio) refuncionalizou-se para melhor servir, tornou-se "necessariamente" intercultural. Nas falas de outros falares ele faz sentido, está na rota das necessidades, é util e incontornável; para sobreviver teve que ser.
E se o museu fosse ?
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in " Interculturalidade: culturas (re)configuradas "
Isabel Victor
Museu do Trabalho Michel Giacometti
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Sugestão de leitura: ELIAS, Norbert e SCOTSON, John L.: Os estabelecidos e os Outsiders

Movimentos Sociais Urbanos






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Em muitas cidades portuguesas, os problemas urbanos, pelo menos desde os finais do século XIX, foram sempre gravíssimos. Neste livro analisa-se a dinâmica de participação dos cidadãos na resolução dos problemas urbanos existentes, do mesmo modo que se apresenta uma proposta para a gestão preventiva dos processos de degradação da qualidade de vida urbana, tomando como referência o caso de Setúbal na segunda metade do século XX.
Num país que não tem por hábito valorizar as boas práticas que se vão experimentando aqui e ali, o que nesta obra encontramos é uma reconstituição daquilo que se fez ― e daquilo que se deveria ter feito ―, numa cidade em concreto, para evitar as nefastas consequências de um urbanismo tardio, mesquinho e submetido exclusivamente a interesses fundiários e imobiliários.
O autor estudou Setúbal como um caso singular: nesta cidade, os habitantes, enquadrados em diversos tipos de organizações, conseguiram suscitar, apresentar, criticar, reabilitar e requalificar ideias, projectos e propostas de políticas urbanísticas estimulantes, que importa conhecer e reinventar.Escritores e poetas, políticos e filósofos, cientistas e técnicos ― muitos são os que continuam a interrogar-se, no início de um novo milénio, acerca da possibilidade ambiciosa de a humanidade dispor da «boa cidade». Uma cidade modelo pode ainda ser concretizada, desde que todos os intervenientes, habitantes-moradores incluídos, participem no processo de planeamento, execução e avaliação da requalificação da cidade manifesta. Nesse processo participativo todos poderão expressar a cidade oculta que cada um transporta e que funciona como referente crítico da realidade urbana existente.


in "As cidades na cidade", Carlos Vieira Faria



Carlos Vieira de Faria, estudou em Paris, licenciando-se em Sociologia. Trabalhou com Alain Touraine e Manuel Castells na École des Hautes Études en Sciences Sociales, onde concluiu em 1979 o mestrado. Com a co-orientação de Jean Remy, da Universidade de Louvain-la-Neuve, e Casimiro Balsa, da Universidade Nova de Lisboa, concluiu em 2004 o doutoramento em Sociologia. Foi docente no Instituto Superior de Serviço Social e na Universidade Autónoma de Lisboa. Actualmente é professor na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias.Entre 1971 e 2004 exerceu funções técnicas na hoje designada Direcção-Geral do Ordenamento e Desenvolvimento do Território, tendo desempenhado vários cargos e cumprido diversas missões no país e no estrangeiro. É membro da Association des Sociologues de Langue Française desde 1982. Desenvolveu actividade científica no CEOS ― Investigações Sociológicas (Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da UNL) entre 1995 e 2006. Publicou em 1981 o livro Novo Fenómeno Urbano: A aglomeração de Setúbal. Ensaio de Sociologia Urbana (Assírio e Alvim).A sua produção científica apresenta um fio condutor comum que dá conta das suas preocupações teóricas e profissionais: o estudo da cidade como artefacto e produto da acção humana, inacabada por natureza.



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sábado, 28 de março de 2009

à janela ...


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Tarde de vento.
Até as árvores
querem vir para dentro.

Paulo Leminski
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sexta-feira, 27 de março de 2009




O Museo Reina Sofía incorporará nos seus fundos permanentes em regime de depósito uma dezena de gravuras de Goya cedidos pelo Prado e pertencentes às suas séries Los desastres de la guerra e Los caprichos. Os exemplares expostos não serão sempre os mesmos mas irão rodando com o tempo e romperão a barreira cronológica tradicional que situa as obras mais “antigas” mostradas no Reina Sofía por volta de 1881, ano do nascimento de Picasso. Está previsto que o empréstimo destas peças se prolongue durante vários meses e que abra as portas a um período frutífero de colaboração entre o Prado e o Reina Sofía em que ambas as instituições possam ceder uma à outra, de forma temporária, obras não “essenciais” nas suas colecções com o propósito de enriquecer o conteúdo de determinadas mostras. Esta notícia coincide também com o processo de reorganização de salas e remodelação de colecção permanente em que se encontra o centro dirigido por Manuel Borja-Villel. O objectivo é distribuir os fundos do museu numa perspectiva diferente da actual, superando a disposição cronológica e por autor para estabelecer outros critérios que guiem o espectador pelos ciclos-chave da arte dos séculos XX e XXI.


Está previsto que esta reforma se conclua em Maio.








Disponível em: http://www.masdearte.com/
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quinta-feira, 26 de março de 2009


Foto Armando Cardoso



Este parte, aquele parte
e todos, todos se vão.
Galiza, ficas sem homens
que possam cortar teu pão

Tens em troca orfãos e orfãs
e campos de solidão
e mães que não têm filhos
filhos que não têm pais.

Corações que tens e sofrem
longas ausências mortais



Cantar de emigração, Rosalía de Castro
O nosso amargo cancioneiro, Livraria Paisagem, 1973 - Porto, Portugal












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segunda-feira, 23 de março de 2009




«Londres, mil novecientos siete.
Querido amigo: Siempre estuve segura, lo sabes, de que un día... Mas trata de excusarme si divago; es invierno y no ignoras cuán poco me ocupo de mí misma.Te espero. Los enebros han crecido y las tardes culminan hacia el río y los rojos islotes. Soy triste y, si no llegas, un tema de suspiros hundirá al gabinete, de un raso ajedrezado, en el inmundo estiércol del tedio y la derrota. Para ti habrá una torre, un jardín afligido y unas campanas graves húmedas de armonía; y no habrá té ni libros ni amigos ni advertencias, pues yo no seré joven ni querré que te vayas... »




(excerto de "Carta de una dama" de Vicente Nuñez)





Acabei de falar com um amigo e apeteceu-me Vicente Nuñez. Sem imagens nem rodeios. Sem outros adereços. Apenas Vicente Nuñez. A palavra pela palavra. Como seixo rolado na maré. Simplesmente. Apeteceu-me ... e voltarei a Vicente Nuñez.

O sentimento oceânico


fotografia d`AQUI




Assim, estamos perfeitamente dispostos a reconhecer que o sentimento "oceânico" existe em muitas pessoas e nos inclinamos a fazer a sua origem remontar a uma fase primitiva do sentimento do ego. Surge então uma nova questão: que direito tem esse sentimento de ser considerado como a fonte de necessidades religiosas? Esse direito não me parece obrigatório. Afinal de contas, um sentimento só poderá ser considerado como a fonte de energia se ele próprio for expressão de uma necessidade intensa. A derivação das necessidades religiosas, a partir do desamparo do bebé, e do anseio pelo pai que aquela necessidade desperta, parece-me incontrovertível, desde que, em particular, o sentimento não seja simplesmente prolongado a partir dos dias da infância, mas permanentemente sustentado pelo medo do poder superior do Destino. Não consigo pensar em nenhuma necessidade da infância tão intensa quanto a protecção de um pai. Dessa maneira, o papel desempenhado pelo sentimento oceânico, que poderia buscar algo como a restauração do narcisismo ilimitado, é deslocada de um lugar em primeiro plano. A origem da atitude religiosa pode ser remontada, em linhas muito claras, ao sentimento de desamparo infantil. Pode haver algo mais por detrás disso, mas presentemente, ainda está envolto em obscuridade. Posso imaginar que o sentimento oceânico se tenha vinculado à religião posteriormente. A "unidade com o universo" que constitui o seu conteúdo ideacional, soa como uma primeira tentativa de consolação religiosa, como se configurasse uma outra maneira de rejeitar o perigo que o ego reconhece a ameaçá-lo a partir do mundo externo. (...)




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Sigmund Freud, "O Mal-Estar da Civilização"


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domingo, 22 de março de 2009

Delicatessen




“Se o Universo é a infinita lembrança da esperança, ele é, por isso mesmo, a expressão cósmica da Saudade.Também a consciência humana resulta de um movimento reflexo do espírito criador sobre as suas formas já criadas, da esperança espiritual sobre a lembrança espiritual, da imaginação revolucionária sobre a memória conservadora. E, por isso, a alma, como síntese daquelas duas forças, é a expressão transcendente da Saudade.”



Teixeira de Pascoais: “Os Poetas Lusíadas”

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_________________________________________________________ obrigada.


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sábado, 21 de março de 2009





Toca, sente dentro
o mistério do mundo,
a porta radiosa
de cinco faces
o mundo falante
a rosa de fogo
o lírio de neve
o Verbo gerado
no seio cerrado
a noite negra
a face dourada
do anjo enviado
Pelo ar chegado
à câmara secreta



Dalila Pereira da Costa

in Hora de Prima






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Dia Mundial da Poesia no CCB






Depois do enorme sucesso da primeira edição, realizada em 2008, que trouxe ao CCB mais de duas mil pessoas, o programa para 2009, que volta a contar com o apoio do Plano Nacional de Leitura, alarga os horizontes geográficos da poesia feita em português: autores do Brasil, Angola, Cabo Verde e Moçambique, juntarão a sua voz aos seus confrades portugueses para celebrar a língua que todos falam – e na qual escrevem.


Poetas que lêem a sua poesia (e a de outros poetas), espontâneos que encontram o seu espaço para dar largas à sua vontade de comunicar através de um poema, oficinas em que as crianças (e os pais) aprendem a brincar com as palavras, pequenos concertos onde se apura a relação entre a palavra poética e a música, documentários onde se recolhe o rosto e a voz de poetas que já não estão entre nós, uma feira do livro exclusivamente dedicada aos poetas em língua portuguesa, uma maratona de leitura de Os Lusíadas, e mais, muito mais coisas ...






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Sublime


Le seul Orchestre Symphonique de RDC à Kinshasa

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quarta-feira, 18 de março de 2009

Mater dolorosa


Fotografia d`AQUI



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Língua Mater Dolorosa




Tu que foste do Lácio a flor do pinho
dos trovadores a leda a bem-talhada
de oito séculos a cal o pão e o vinho
de Luís Vaz a chama joalhada
tu o casulo o vaso o ventre o ninho
e que sôbolos rios pendurada
foste a harpa lunar do peregrino
tu que depois de ti não há mais nada,
eis-te bobo da corja coribântica:
a canalha apedreja-te a semântica
e os teus verbos feridos vão de maca.
Já na glote és cascalho és malho és míngua,
de brisa barco e bronze foste a língua;
língua serás ainda... mas de vaca.




Poema publicado pela primeira vez no livro "Inéditos", 1973-76, que integra a antologia de toda a poesia de Natália Correia, "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias"





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Lisboa tinha o mar mesmo ali. soberbo e submisso em ondas de volúptia. em carradas de peixes luminosos e traineiras brancas e azuis com nomes em letras grandes e vermelhas. lembrou-se da fogueira dos ciganos. do mistério rubro que andava à solta pelas noites de Agosto.







Isabel Mendes Ferreira

in “A mais loura de Lisboa "

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