terça-feira, 31 de março de 2009




Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso.

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in "Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres", Clarice Lispector



Quer flor ?















Porto de abrigo para múltiplas derivas e migrações, Setúbal é claramente uma cidade de culturas, um complexo artefacto de identidades, nem sempre decifráveis, nem sempre inter.comunicáveis, nem sempre hábeis na arte de inter.viver, socialmente disfuncionais, intermitentes e permeáveis ao "ruído" (ao spam gerado pela ignorância e pelo medo do outro).
O fora e o dentro, o ser e o não ser, são face da mesma moeda. Os museus operam com processos, ferramentas e categorias identitárias.
Recentremo-nos no caso em apreço: " Ser setubalense " é uma categoria identitária que constituíu tema de debate em Tarde museológica. A comunidade cresceu, diversificou-se, mas a forma de a pensar, de a nomear, não cresceu com ela. Intensificada a discussão, percebemos que esta ainda não comporta a ideia de que são setubalenses todos aqueles que, por uma razão ou por outra, têm Setúbal ( ou a sua metáfora ) inscrita.
As culturas desconfiguram-se e reconfiguram-se em diferentes momentos. Não há culturas fechadas, nem identidades fixas. Tudo é mutável, tudo resulta de uma complexa construção que precisa de espaço e tempo para se reconhecer e dar a conhecer. Na vertigem dos dias, na voracidade dos novos tempos, ainda se torna mais difícil. É tudo tão rápido e difuso que chega a ser angustiante. Abrir canais acessíveis à cognição, ao diálogo e à livre fruição. Viver e fazer a experiência. Usufruir plenamente dos serviços museológicos é um direito a que todos (sem excepção) devem ter acesso. Diferença não pode ser sinónimo de exclusão. O desenvolvimento, a participação e a não discriminação, são direitos consignados pela constituição. Estão decretados mas não interiorizados. Ainda não é coisa amada (sentida). Falta dar operacionalidade ao conceito de património pleno (desarrumar as ideias; desfazer as caixas do "material" e do "imaterial" e de outros modismos que nos confinam), deixar fluir, abrir os museus à diversidade. Valorizar os processos de mudança, transformar produtos finais (outputs) em resultados (outcomes) . Rever as narrativas, os conteúdos e as formas (que, por vezes são fôrmas). Expôr-se, mais do que expôr. Admitir novos modelos de comunicação e de representação.
A comunicação entre culturas de diferentes etnias, nacionalidades, géneros, gerações, profissões, e as demais condições (nomináveis e inomináveis), é um processo lento, difuso, jamais acabado. Vai-se cumprindo timidamente nos gestos mais escondidos, em notas sensíveis, que só se revelam através do estreitamento das relações interpesssoais, da minúcia dos olhares, da escuta cerimoniosa, de subtis entendimentos. Estreitam-se na mútua confiança; na abertura crítica (e metódica) aos mundos próximos e distantes.
O aturado trabalho de campo que o Museu do Trabalho Michel Giacometti tem vindo a realizar com os diferentes grupos na comunidade, reforça a ideia de que as pulsões dominam as memórias e que as comidas e os modos de cozinhar, são sofisticados laboratórios de criação e hibridação das culturas. Processos alquímicos que buscam a essência (o in.manifesto); gestos repetidos que operam adaptações históricas (transmissíveis e transmutáveis). A pulsão de comer aguça o engenho, impõe a mistura de sabores, jeitos e trejeitos emergentes, que se fundem em fervilhantes panelões interculturais.
Talvez por isso, a praça de Setúbal, o belíssimo " Mercado do Livramento ", seja citado por setubalenses alentejanos, setubalenses algarvios, setubalenses Murtoseiros (varinos), setubalenses africanos, setubalenses chineses, setubalenses russos, setubalenses romenos, setubalenes goeses, setubalenses timorenses, setubalenses brasileiros, setubalenses pasquistaneses (quer flor ?), e ainda outros setubalenses, como um sítio de referência.
Um lugar de memórias. Um incontornável ponto de encontro.
E se o Museu fosse um grande mercado de marcas identitárias ? Resposta múltipla e colorida aos mais diversos sabores; ás mais intensas pulsões ? Um lugar de referência. amável. inspirador. atento. socialmente util ? Primordial como a vida. vivo.

Os comeres e a música são vida e ritmo, respiram e transpiram culturas/misturas.
A língua, mater dolorosa de Natália Correia, a cal o pão e o vinho.

O tradicional mercado ( metáfora contemporânea da ágora ou do Rossio) refuncionalizou-se para melhor servir, tornou-se "necessariamente" intercultural. Nas falas de outros falares ele faz sentido, está na rota das necessidades, é util e incontornável; para sobreviver teve que ser.
E se o museu fosse ?
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in " Interculturalidade: culturas (re)configuradas "
Isabel Victor
Museu do Trabalho Michel Giacometti
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Sugestão de leitura: ELIAS, Norbert e SCOTSON, John L.: Os estabelecidos e os Outsiders

Movimentos Sociais Urbanos






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Em muitas cidades portuguesas, os problemas urbanos, pelo menos desde os finais do século XIX, foram sempre gravíssimos. Neste livro analisa-se a dinâmica de participação dos cidadãos na resolução dos problemas urbanos existentes, do mesmo modo que se apresenta uma proposta para a gestão preventiva dos processos de degradação da qualidade de vida urbana, tomando como referência o caso de Setúbal na segunda metade do século XX.
Num país que não tem por hábito valorizar as boas práticas que se vão experimentando aqui e ali, o que nesta obra encontramos é uma reconstituição daquilo que se fez ― e daquilo que se deveria ter feito ―, numa cidade em concreto, para evitar as nefastas consequências de um urbanismo tardio, mesquinho e submetido exclusivamente a interesses fundiários e imobiliários.
O autor estudou Setúbal como um caso singular: nesta cidade, os habitantes, enquadrados em diversos tipos de organizações, conseguiram suscitar, apresentar, criticar, reabilitar e requalificar ideias, projectos e propostas de políticas urbanísticas estimulantes, que importa conhecer e reinventar.Escritores e poetas, políticos e filósofos, cientistas e técnicos ― muitos são os que continuam a interrogar-se, no início de um novo milénio, acerca da possibilidade ambiciosa de a humanidade dispor da «boa cidade». Uma cidade modelo pode ainda ser concretizada, desde que todos os intervenientes, habitantes-moradores incluídos, participem no processo de planeamento, execução e avaliação da requalificação da cidade manifesta. Nesse processo participativo todos poderão expressar a cidade oculta que cada um transporta e que funciona como referente crítico da realidade urbana existente.


in "As cidades na cidade", Carlos Vieira Faria



Carlos Vieira de Faria, estudou em Paris, licenciando-se em Sociologia. Trabalhou com Alain Touraine e Manuel Castells na École des Hautes Études en Sciences Sociales, onde concluiu em 1979 o mestrado. Com a co-orientação de Jean Remy, da Universidade de Louvain-la-Neuve, e Casimiro Balsa, da Universidade Nova de Lisboa, concluiu em 2004 o doutoramento em Sociologia. Foi docente no Instituto Superior de Serviço Social e na Universidade Autónoma de Lisboa. Actualmente é professor na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias.Entre 1971 e 2004 exerceu funções técnicas na hoje designada Direcção-Geral do Ordenamento e Desenvolvimento do Território, tendo desempenhado vários cargos e cumprido diversas missões no país e no estrangeiro. É membro da Association des Sociologues de Langue Française desde 1982. Desenvolveu actividade científica no CEOS ― Investigações Sociológicas (Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da UNL) entre 1995 e 2006. Publicou em 1981 o livro Novo Fenómeno Urbano: A aglomeração de Setúbal. Ensaio de Sociologia Urbana (Assírio e Alvim).A sua produção científica apresenta um fio condutor comum que dá conta das suas preocupações teóricas e profissionais: o estudo da cidade como artefacto e produto da acção humana, inacabada por natureza.



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sábado, 28 de março de 2009

à janela ...


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Tarde de vento.
Até as árvores
querem vir para dentro.

Paulo Leminski
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sexta-feira, 27 de março de 2009




O Museo Reina Sofía incorporará nos seus fundos permanentes em regime de depósito uma dezena de gravuras de Goya cedidos pelo Prado e pertencentes às suas séries Los desastres de la guerra e Los caprichos. Os exemplares expostos não serão sempre os mesmos mas irão rodando com o tempo e romperão a barreira cronológica tradicional que situa as obras mais “antigas” mostradas no Reina Sofía por volta de 1881, ano do nascimento de Picasso. Está previsto que o empréstimo destas peças se prolongue durante vários meses e que abra as portas a um período frutífero de colaboração entre o Prado e o Reina Sofía em que ambas as instituições possam ceder uma à outra, de forma temporária, obras não “essenciais” nas suas colecções com o propósito de enriquecer o conteúdo de determinadas mostras. Esta notícia coincide também com o processo de reorganização de salas e remodelação de colecção permanente em que se encontra o centro dirigido por Manuel Borja-Villel. O objectivo é distribuir os fundos do museu numa perspectiva diferente da actual, superando a disposição cronológica e por autor para estabelecer outros critérios que guiem o espectador pelos ciclos-chave da arte dos séculos XX e XXI.


Está previsto que esta reforma se conclua em Maio.








Disponível em: http://www.masdearte.com/
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quinta-feira, 26 de março de 2009


Foto Armando Cardoso



Este parte, aquele parte
e todos, todos se vão.
Galiza, ficas sem homens
que possam cortar teu pão

Tens em troca orfãos e orfãs
e campos de solidão
e mães que não têm filhos
filhos que não têm pais.

Corações que tens e sofrem
longas ausências mortais



Cantar de emigração, Rosalía de Castro
O nosso amargo cancioneiro, Livraria Paisagem, 1973 - Porto, Portugal












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segunda-feira, 23 de março de 2009




«Londres, mil novecientos siete.
Querido amigo: Siempre estuve segura, lo sabes, de que un día... Mas trata de excusarme si divago; es invierno y no ignoras cuán poco me ocupo de mí misma.Te espero. Los enebros han crecido y las tardes culminan hacia el río y los rojos islotes. Soy triste y, si no llegas, un tema de suspiros hundirá al gabinete, de un raso ajedrezado, en el inmundo estiércol del tedio y la derrota. Para ti habrá una torre, un jardín afligido y unas campanas graves húmedas de armonía; y no habrá té ni libros ni amigos ni advertencias, pues yo no seré joven ni querré que te vayas... »




(excerto de "Carta de una dama" de Vicente Nuñez)





Acabei de falar com um amigo e apeteceu-me Vicente Nuñez. Sem imagens nem rodeios. Sem outros adereços. Apenas Vicente Nuñez. A palavra pela palavra. Como seixo rolado na maré. Simplesmente. Apeteceu-me ... e voltarei a Vicente Nuñez.

O sentimento oceânico


fotografia d`AQUI




Assim, estamos perfeitamente dispostos a reconhecer que o sentimento "oceânico" existe em muitas pessoas e nos inclinamos a fazer a sua origem remontar a uma fase primitiva do sentimento do ego. Surge então uma nova questão: que direito tem esse sentimento de ser considerado como a fonte de necessidades religiosas? Esse direito não me parece obrigatório. Afinal de contas, um sentimento só poderá ser considerado como a fonte de energia se ele próprio for expressão de uma necessidade intensa. A derivação das necessidades religiosas, a partir do desamparo do bebé, e do anseio pelo pai que aquela necessidade desperta, parece-me incontrovertível, desde que, em particular, o sentimento não seja simplesmente prolongado a partir dos dias da infância, mas permanentemente sustentado pelo medo do poder superior do Destino. Não consigo pensar em nenhuma necessidade da infância tão intensa quanto a protecção de um pai. Dessa maneira, o papel desempenhado pelo sentimento oceânico, que poderia buscar algo como a restauração do narcisismo ilimitado, é deslocada de um lugar em primeiro plano. A origem da atitude religiosa pode ser remontada, em linhas muito claras, ao sentimento de desamparo infantil. Pode haver algo mais por detrás disso, mas presentemente, ainda está envolto em obscuridade. Posso imaginar que o sentimento oceânico se tenha vinculado à religião posteriormente. A "unidade com o universo" que constitui o seu conteúdo ideacional, soa como uma primeira tentativa de consolação religiosa, como se configurasse uma outra maneira de rejeitar o perigo que o ego reconhece a ameaçá-lo a partir do mundo externo. (...)




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Sigmund Freud, "O Mal-Estar da Civilização"


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domingo, 22 de março de 2009

Delicatessen




“Se o Universo é a infinita lembrança da esperança, ele é, por isso mesmo, a expressão cósmica da Saudade.Também a consciência humana resulta de um movimento reflexo do espírito criador sobre as suas formas já criadas, da esperança espiritual sobre a lembrança espiritual, da imaginação revolucionária sobre a memória conservadora. E, por isso, a alma, como síntese daquelas duas forças, é a expressão transcendente da Saudade.”



Teixeira de Pascoais: “Os Poetas Lusíadas”

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_________________________________________________________ obrigada.


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sábado, 21 de março de 2009





Toca, sente dentro
o mistério do mundo,
a porta radiosa
de cinco faces
o mundo falante
a rosa de fogo
o lírio de neve
o Verbo gerado
no seio cerrado
a noite negra
a face dourada
do anjo enviado
Pelo ar chegado
à câmara secreta



Dalila Pereira da Costa

in Hora de Prima






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Dia Mundial da Poesia no CCB






Depois do enorme sucesso da primeira edição, realizada em 2008, que trouxe ao CCB mais de duas mil pessoas, o programa para 2009, que volta a contar com o apoio do Plano Nacional de Leitura, alarga os horizontes geográficos da poesia feita em português: autores do Brasil, Angola, Cabo Verde e Moçambique, juntarão a sua voz aos seus confrades portugueses para celebrar a língua que todos falam – e na qual escrevem.


Poetas que lêem a sua poesia (e a de outros poetas), espontâneos que encontram o seu espaço para dar largas à sua vontade de comunicar através de um poema, oficinas em que as crianças (e os pais) aprendem a brincar com as palavras, pequenos concertos onde se apura a relação entre a palavra poética e a música, documentários onde se recolhe o rosto e a voz de poetas que já não estão entre nós, uma feira do livro exclusivamente dedicada aos poetas em língua portuguesa, uma maratona de leitura de Os Lusíadas, e mais, muito mais coisas ...






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Sublime


Le seul Orchestre Symphonique de RDC à Kinshasa

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quarta-feira, 18 de março de 2009

Mater dolorosa


Fotografia d`AQUI



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Língua Mater Dolorosa




Tu que foste do Lácio a flor do pinho
dos trovadores a leda a bem-talhada
de oito séculos a cal o pão e o vinho
de Luís Vaz a chama joalhada
tu o casulo o vaso o ventre o ninho
e que sôbolos rios pendurada
foste a harpa lunar do peregrino
tu que depois de ti não há mais nada,
eis-te bobo da corja coribântica:
a canalha apedreja-te a semântica
e os teus verbos feridos vão de maca.
Já na glote és cascalho és malho és míngua,
de brisa barco e bronze foste a língua;
língua serás ainda... mas de vaca.




Poema publicado pela primeira vez no livro "Inéditos", 1973-76, que integra a antologia de toda a poesia de Natália Correia, "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias"





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Lisboa tinha o mar mesmo ali. soberbo e submisso em ondas de volúptia. em carradas de peixes luminosos e traineiras brancas e azuis com nomes em letras grandes e vermelhas. lembrou-se da fogueira dos ciganos. do mistério rubro que andava à solta pelas noites de Agosto.







Isabel Mendes Ferreira

in “A mais loura de Lisboa "

terça-feira, 17 de março de 2009













Foto " Mar de Sesimbra", Fábio Vicente - Fevereiro 2009
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Dormir um pouco — um minuto,
um século. Acordar
na crista
duma onda, ser
o lastro de espuma
que há no sono
das algas. Ou
ser apenas
a maré, que sempre
volta
para dizer: eu não morri, eu sou
a borboleta
do vento, a flor
incandescente destas águas.





Albano Martins, in "Castália e Outros Poemas"












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The Oyster Eater - Jan Steen


Este quadro de extrema delicadeza e enorme sedução é mais pequeno que uma folha A4. Uma verdadeira preciosidade. Encontra-se exposto numa das salas dedicada à pintura de Jan Steen  no http://www.mauritshuis.nl/ em Haia.

domingo, 15 de março de 2009

Como, logo existo

http://depressioncooking.blogspot.com/


Clara is a 93 year old cook and Great Grandmother. She is 100% Sicilian-American and grew up in a Chicago suburb, Melrose Park. She survived the Great Depression and claims to have actually gained weight during America's worst state of financial despair. How did she accomplish this? Check out her cooking show and discover her secret! Feel free to leave Clara a note at: DepressionCooking@gmail.com

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Segui esta pista e lá fui. Espreitei. Achei deveras interessante ... afinal nos momentos de crise o que ainda nos pode salvar é a reserva de conhecimentos, inteligência de antigos emigrantes de zonas periféricas, que rumaram ao novo mundo para trabalhar e viver. Pessoas que nunca esqueceram os tempos difíceis e que agora foram buscar ao património das famílias ensinamentos de sobrevivência e de enorme bom senso. Esta mulher (mãe a avó) americana de origem Siciliana, desencantou antigas receitas que ensinam a cozinhar com pouco dinheiro sem descurar, nos mais pequenos pormenores, o gosto e a qualidade dos pratos confeccionados. Isto é um acto de cultura da maior eloquência e responsabilidade. Clara podia chamar-se Maria, Amélia ou Joaquina. No mais ancestral gineceu, que sempre foi a cozinha, agora mediatizado por via da crise, esta e outras mulheres, um pouco por todo o mundo, mostram-nos que a comida é muito mais do que sustento; mostram-nos que a comida também é "boa para pensar"; que nos dá existência social, confirmando o pensamento de Lévi-Strauss. É no panelão das comidas, no acto de cozinhar, que se apura a mais subtil hibridação; é pelo fogo que se forja a prodigiosa simbiose entre natureza e cultura. Por força das necessidades, os emigrantes, desenvolvem formas criativas de sublimar a privação e ultrapassar as dificuldades. Desenvolvem-se adaptabilidades históricas. Cozinhar com poucos meios não significa comer mal. Clara lembra que as massas, a "pasta", era o prato diário em sua casa, na grande depressão de trinta. As massas não só saciavam a fome como cimentavam os laços entre pessoas de uma origem determinada. A comida é um meio poderoso de união (de comunhão). Quanto mais fragilizados, mais buscamos o que nos dá força, o que nos anima, o que nos lembra quem somos e de onde viemos. O padrão rural e os resquícios de uma cozinha frugal que a dureza de um passado recente impôs à maioria das pessoas dos países pobres do Sul, pode ser hoje uma tremenda mais valia. Ainda sabemos cozinhar, não perdemos o jeito de lidar com o fogo. A proximidade da terra, enraíza-nos, agarra-nos ao essencial. Ainda temos a rara capacidade de saber fazer muito, com muito pouco. Temos o gosto da comida e da mesa. Falta-nos cultivar o sentido da comunhão. Em tempo de crise, o sentido quase sagrado da comida (o valor da comensalidade) tem que ser retomado. É um valor fundamental da educação que a sociedade do lixo e do desperdício desgastou. Se a crise servir para o recentrar, nem tudo estará perdido. Ainda me lembro de levar uma palmada na mão por deitar pão para o chão. As minhas avós beijavam o pão antes de o deitar fora. Aprendi muito cedo que não se estraga comida. Que há preceitos no comer e no repartir. Cedo aprendi que a comida nos diferencia, que " como, logo existo ".

Domingo




Laura Letinsky photo





_______________________________________________ perdidamente






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A humanização dos ditadores nunca me preocupou muito. A desumanização de que foram capazes, essa sim, preocupa-me, a mim e a todas as pessoas decentes, acredito. É muito mais inquietante percebermos que alguém que ama, que sofre, que gosta de passear e de fazer festas a um cão, que sorri para a empregada, que se preocupa com as vinhas e gosta de um bom copo de tinto, alguém que aprecia os prazeres da vida, é o mesmo alguém que reprime sem misericórdia, que manda matar, que sabe da tortura e a aceita. A existência de “monstros” desculpabiliza os homens. Mas haver homens iguais a mim que são capazes de tais torpezas alerta-me para o vizinho e para mim próprio. Nada é certo na vida, e é conveniente estar atento. Logo uma série de televisão sobre a vida amorosa de Salazar não me apoquenta. Saber que ele foi também capaz de pequenas tropelias sentimentais, que mentiu, traiu, escondeu-se, foi hipócrita, beijou, desejou, acariciou a pele de alguém, agarrou uma mão, tocou com o pé forrado a bota no delicado pé da mulher que estava ao seu lado no jantar, ou que deu uma queca bravia para os lados de Santa Comba Dão, com francesa ou portuguesa que se lhe atravessava pelo caminho, enquanto “estava casado com a Nação”, não me causa especiais engulhos. A Pide, a censura, o Tarrafal, Humberto Delgado (e muitos mais, com idêntica sorte), a guerra de África, as perseguições políticas, a falta de liberdade, o cinzentismo deste País (que ainda se prolonga em tantos salazarentos que por aí há, basta ler meia dúzia de blogues carregados de bolor e de ódio), isso sim, foi trágico. Saber que “ontem” existiu um homem, que até gostava de mulheres, mas que não gostava de pessoas que pensassem diferente dele, e que esse homem pôde chegar ao poder e fazer de um País o que lhe apeteceu, com a conivência cobarde de tantos, isso sim é revoltante. No entanto, salazarinhos de aviário continuam por aí, mandando beijinhos a senhoras, e proclamando a vontade de passar a ferro e fogo tudo quando mexa de forma diferente da sua. Preocupante, sobretudo quando há gente de boa fé (enfim, esperemos que estejam de boa fé!) que vai atrás da voz da sereia inquinada pelo ódio. Portanto, fica-se sabendo que amor e ódio coexistem na mesma pessoa facilmente. Quando ouvi falar na rodagem de “A Vida Privada de Salazar”, antecipei o pior, depois de livro de Felícia Cabrita, que oferecia pistas para uma escabrosa história de sexo e poder. Quase todos os portugueses sabiam do que se pretendia ter sido um “flirt” platónico com a jornalista francesa Christine Garnier que, no Verão de 1951, veio a Portugal fazer-lhe uma entrevista que deveria durar umas horas e acabou numa longa estada no retiro do Vimeiro, que culminaria num livro, “Vacances avec Salazar”. Mas, para lá desta aventura sentimental (e sexual), muitas outras se foram depois conhecendo a Salazar.

Sobre o filme " A vida privada de Salazar ", escrito por Lauro António

Continua ... AQUI (a não perder)




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Leftovers


Laura Letinsky photo , Chicago, from Hardly More Than Ever, digital C-print, 29.2x37 in., 2002.
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"I began to think about the idea of leftovers. It became important for me on a number of levels, because it has to do with what you do after the promise, when you realize the promise is not possible. This is fundamental to any utopian notion - the promise and its demise.
You can't have utopia without its loss."
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Laura Letinsky, entrevista de julie farstad

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quinta-feira, 12 de março de 2009

Os Tentáculos da Escrita


Francesca Woodman. fotos








A escrita é um polvo, um molusco versátil. Tem infinitos recursos. Escapa sempre. Abstractiza-se. Disfarça-se, adensa-se, adelgaça-se, esconde-se. Impele-se rápida. Compreende tudo: ascese, consolo íntimo, entrega; fluxos, refluxos, invasões, esvaziamentos, obstinação feroz. O seu rigor é místico. É uma infinita demanda. Perscruta o inaudito. Sideral Alice atravessa todas as portas, todos os espelhos. Cruza, descobre, inventa universos. A escrita é um fragmento do espanto, já alguém o disse.




Ana Hatherly, in 'Tisanas'










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quarta-feira, 11 de março de 2009







Ecce Homo, pintura de Giulio Cesare Procaccini


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Foi o próprio asco que me deu asas e forças capazes de pressentir as fontes?

De verdade, eu tive que voar ao lugar mais alto para poder reencontrar a nascente do prazer!











Friedrich Nietzsche, em " Ecce Homo"


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O Homem não Foge da Dor

imagem AQUI



Não é verdade que o homem procure o prazer e fuja da dor. São de tomar em conta os preconceitos contra os quais invisto. O prazer e a dor são consequências, fenómenos concomitantes. O que o homem quer, o que a menor partícula de um organismo vivo quer, é o aumento de poder: é em consequência do esforço em consegui-lo que o prazer e a dor se efectivam; é por causa dessa mesma vontade que a resistência a ela é procurada, o que indica a busca de alguma coisa que manifeste oposição. A dor, sendo entrave à vontade de poder do homem, é portanto um acontecimento normal - a componente normal de qualquer fenómeno orgânico. E o homem não procura evitá-la, pois tem necessidade dela, já que qualquer vitória implica uma resistência vencida. Tome-se como exemplo o mais simples dos casos, o da nutrição de um organismo primário; quando o protoplasma estende os pseudópodes para encontrar resistências, não é impulsionado pela fome, mas pela vontade de poder; acima de tudo, ele intenta vencer, apropriar-se do vencido, incorporá-lo a si. O que se designa por nutrição é pois um fenómeno consecutivo, uma aplicação da vontade original de devir mais forte. Em tudo isto, a dor não só tem por consequência necessária a diminuição da sensação de poder, como até serve, na maioria dos casos, como excitante da mesma sensação de poder, sendo o obstáculo um stimulus dessa vontade de poder.




Friedrich Nietzsche, in 'A Vontade de Poder'


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Amo tracinho te












Quando pela primeira vez escrevi amote
fui repreendida
pela gramática
Não quis saber
Tinha-te mais comigo
Assim numa palavra só
Quando pela primeira vez soletrei
a-mo-te tive medo e com pressa e gula
te comi inteiro te reuni em mim
Quando pela primeira vez
nos começamos a separar respeitei a ortografia e sem dar
por isso separei-te de mim
amo tracinho te
Quando
pela primeira vez nos reunimos soletrei melancolicamente
a-ma-me como quem esbagulha uma romã
Quando
pela última vez me disseste amo tracinho te
tudo
estava certo e solitário
eu separada de ti por um pântano
de ninguém
tu à distância sem mim sem barco
e sem vontade
Esbracejei não me quis conformar
Acenei-te gritei-te de longe Amasme?
numa palavra só
de braços estendidos a lutar contra os ventos separadores
da ortografia e do alto mar
Respondeste gritaste
claro que te amo
te
amo
te
amo
escandiam os ventos e o eco
em duas palavras
separadas
Então entre mim e ti o pântano cresceu
Depois secou
Depois a crosta terrestre desfez-se e refez-se
E houve
Novos mares e continentes e tudo ficou provisoriamente
adulto e definitivo
reconciliado com a geografia e a gramática
eu
tu
solidamente
solidariamente sós





Teresa Rita Lopes


segunda-feira, 9 de março de 2009

Tabucchi discípulo





Morreu a 28 de Agosto de 2008, com 88 anos, a grande filóloga e lusitanista Luciana Stegagno Picchio. Aqui reproduzimos a homenagem que lhe foi feita no jornal italiano Repubblica pelo seu discípulo e amigo Antonio Tabucchi.






Ascolta, la voce, di Luciana
in Repubblica — 30 agosto 2008 pagina 52 sezione: CULTURA






Gli incontri della vita sono guidati dal caso, ma quando non lo si lascia scivolare impunemente davanti agli occhi e lo si "riconosce" allora il caso, da sua cieca natura di coincidenza aleatoria, rivela il senso misterioso che portava con sé, diventa "Occasione" come diceva Montale, entra nella nostra vita quale evento, alla stregua degli altri eventi fondamentali da cui la nostra vita è segnata e scandita. Il "caso" che mi condusse da Luciana Stegagno Picchio si chiama Fernando Pessoa, anche se allora non sapevo bene chi fosse. O meglio, significa uno studente che pensava di essere tagliato per la filosofia, la Sorbona, molto tempo ben perduto a Parigi a scoprire cose diverse dalla filosofia, la decisione di tornare in Italia perché quello studente si era accorto che la letteratura gli piaceva di più. E un piccolo libro di versi dall' aspetto povero, un' edizione a tiratura limitata comprato per puro caso su una bancarella andando alla Gare de Lyon: Fernando Pessoa, Bureau de Tabac. Tabaccheria. Titolo davvero singolare per una poesia, perché di una poesia si trattava, firmata oltretutto da un certo alvaro de Campos che lì per lì mi sembrò uno pseudonimo dell' autore. Pessoa, chi era costui? E il portoghese, che lingua era? E il Portogallo, dov' era? Da qualche parte era, ma per l' Italia e l' Europa non stava in nessun luogo, perché il Portogallo di Salazar aveva girato le spalle all' Europa e l' Europa aveva fatto lo stesso con lui. Eppure, che grande poeta era quel signore ignoto di un paese ignoto che scriveva in una lingua ignota: lo intuivo dalla traduzione francese. E come sarebbe stato bello conoscere la sua lingua. Anno accademico 1964-' 65. Mi iscrissi alla facoltà di Lettere e filosofia dell' Università di Pisa, la mia città natale. E, per puro caso, nel dipartimento di Filologia romanza c' era un insegnamento di Lingua e letteratura portoghese. E io un giorno andai a sentire una lezione. E qui il "puro caso" finisce e diventa un' altra cosa. Perché in cattedra c' era una donna bella ed elegante che con la voce che meritano di essere lette le grandi poesie leggeva un' antica poesia del medioevo portoghese, coeva della Scuola Siciliana, che parlava di lontananze e di nostalgie. «Ondas do mar de Vigo/se vistes meu amigo?/E ay Deus, se verra cedo!». «Onde del mar di Vigo, avete visto il mio amico? Dio mio, che torni presto!», e ancora: «Alte onde del mare, avete visto il mio amico? Dio mio, che torni presto!». E poi, dopo la lettura, la professoressa raccontava di quella Scuola poetica che nella Galizia e nel nord del Portogallo aveva elevato il gallego-portoghese a lingua poetica "speciale", a tal punto che Alfonso X di Castiglia l' aveva eletta per le sue Cantigas alla Vergine. Quel professore d' eccezione era Luciana Stegagno Picchio. Quell' anno, sotto la sua guida studiai quei trovatori, le loro cantigas di scherno, di amore e di amicizia e appresi i primi rudimenti della filologia romanza. Alla fine dell' anno, dopo un buon esame (un puro caso), ebbi una borsa di studio e partii per il Portogallo. Conobbi un paese, conobbi scrittori e poeti perseguitati dal regime ai quali mi aveva indirizzato Luciana. E conobbi Maria José, che in seguito sarebbe diventata mia moglie. Ma soprattutto "riconobbi". Nel Portogallo degli anni Sessanta riconobbi l' Italia di cui mi aveva parlato mio nonno: un paese imbavagliato, castigato da un lungo fascismo. Un paese povero ma con una cultura e un passato ricchissimi. Un paese orgoglioso che il regime poliziesco non era riuscito a soffocare. Paradossalmente in un regime totalitario riuscii a capire meglio il valore della democrazia, ad apprezzare ciò che avevo e che a quel paese mancava. Il Portogallo era ormai entrato prepotentemente nella mia vita. Grazie a Luciana Stegagno Picchio. Nel tempo di quella borsa di studio saltai una generazione: al mio ritorno Luciana non era più solo la mia professoressa, era insieme un maestro e un interlocutore, una persona da cui si impara e con la quale si discute. Intanto Maria José era venuta a laurearsi in Italia e con Luciana era nato un sodalizio, come se noi tre fossimo un pezzetto di Portogallo fuori dal Portogallo. Di quel sodalizio è anche risultato la rivista Quaderni Portoghesi (1977-1988), da noi fondata a Pisa, attraverso la quale portammo il nostro Portogallo (erano numeri tematici) nelle università europee ed americane. Vi creammo una direzione collegiale condivisa con amici lusitanisti come, fra gli altri, Fernanda Toriello. Luciana, come i veri maestri, mi ha insegnato che lo studio è fatto di fatica, di pazienza e di rigore, e mi ha insegnato che la filologia è un grande strumento: non serve solo per l' edizione critica di un testo antico, è un metodo di indagine e in qualche modo una visione del mondo. E nella cultura del mondo intero ho viaggiato anche grazie a Luciana. Perché il suo è sempre stato un metodo comparatista dove la letteratura di lingua portoghese era uno dei termini di paragone, ma non si limitava al Portogallo, all' Africa e al Brasile, si confrontava col mondo intero. La sua Storia del Teatro Portoghese, che è del 1964, per far capire al lettore italiano la dimensione di un Gil Vicente, di un Cardoso Pires, di un Luis-Francisco Rebello, ad esempio, tratta con familiarità Ruzante, Pirandello, Brecht, e altri autori universali. Un' analoga impostazione ha La Letteratura Brasiliana pubblicata da Sansoni nel 1972, e poi ripresa in un' edizione molto ampliata e aggiornata da Einaudi nel 1997. Uno straordinario esempio, quest' ultimo, di un sapere composito che con la letteratura accoglie il cinema, la musica, il folclore, l' antropologia, l' economia, la politica. è impossibile, in un articolo, dare la misura dell' eccezionale produzione scientifica e critica di Luciana: oltre quattrocento voci annovera la sua bibliografia che spazia dalle raffinatissime edizioni critiche dei trovatori gallego-portoghesi a quelle di poeti contemporanei come Murilo Mendes; i suoi studi teorici; i suoi lavori di linguistica con Roman Jakobson; le sue recensioni e i suoi articoli su la Repubblica; i suoi saggi su Pessoa scritti lungo una vita e raccolti in un volume recente che ho avuto l' onore di presentare al pubblico del Salone del Libro di Torino (Nel segno di Orfeo. Fernando Pessoa e l' avanguardia portoghese, Il Melangolo, 2003). Oggi che Luciana ci ha lasciato, so che il cordoglio tocca non solo la cultura italiana ma quella di molti paesi: col Portogallo, il Brasile, gli Stati Uniti, l' Angola e gli altri paesi africani di lingua portoghese, la Spagna, l' Inghilterra, la Romania. Qui, dove mi trovo, Vigo non è poi tanto lontana e le onde sono quelle dell' Oceano Atlantico. Con l' avvicinarsi del settembre il mare sembra gonfiarsi e le onde si fanno maestose. Mi piace chiudere questo mio ricordo con la voce della mia amica Luciana che mi risuona nella memoria. Legge un' antica poesia.


ANTONIO TABUCCHI
Pubblicato da via dei Portoghesi.
AQUI



No seu próximo trabalho, “Cronos”, participarão nomes como Sérgio Godinho, Vitorino, Pedro Abrunhosa ou Jorge Palma com composições inéditas e ainda Janita Salomé que musicou um poema de Hélia Correia. Segundo a própria cantora, Rui Veloso, Amélia Muge e Fausto poderão também ter composições suas no disco que terá como fio condutor "o tempo".


Mais sobre

Guardadora de rebanhos (na pastorícia da palavra)





desfeitos os laços. polpa e pântano. folhagem. adeus. redondo o perfume.
hei de ser a outra tua face. estrangulada de lírios.
nós de seda. e de aço. nós. as duas no mesmo ventre. o laço.



________________para i.v._________________



Publicada por isabel mendes ferreira em Livro invisível




assim a mudança. o repouso. a expressão quieta que amacia o perfil dos dias.___________________e em rigor o belo é uma estrófe. moeda de troca para uma oração concessiva.


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voltar ao incerto dia da fruição do silêncio voltar à percepção de um divino poético onde a voz é nua onde a nudez é solar onde o quase tudo é apenas um ponto uma nota um sussurro.
voltar através de um fio de água para bordar de coerência um sossego que seja vegetal.


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desconstruir-te.a mil tempos e vozes. para voltar a denunciar o dócil e o indomável. ser desfolhagem de segredos que incomodam. respirar o primaveril como se a dança fosse vertigem. cúpula de gritos em vez de parágrafos silvestres.
desnudo um ombro teu. apenas. revelo-te a cintura. despenho-me.
aparecer e desaparecer como se de luz fosse quase tudo. dar-te a água visível e um dia de veludo.
o máximo é sempre inocente quando a palavra brilha na pastorícia da metáfora.


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e não sei das possíveis espigas. entardeço à sombra do incerto.aveludo-me de baldios onde a palavra é muda. e tudo muda. das veias para o peito numa renda fina. que se abre em rosa. flor sanguínea.


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há quanto tempo não te amava assim. lisboa.fragmentada de águas . memórias inchadas de prazer. assim caída nos meus ombros à deriva por outros mares outras marés outros cheiros mas sempre rente à música do teu ventre inclinado para o tejo.há quanto tempo não te fazia e dizia amor nos dentes. amor nas ancas dedilhadas por farpas e guitarras e vielas...assim te desdigo saudade. e volto aos teus flancos como gaivota em dezembros líquidos e densos.oleosos. florestais. lisboa de um piano que finalmente se cala.neste aqui. que já foi tanto. mesmo quando tocava sangue e silêncio.não é de adeus que te falo. é de mais longe. de mais logo. de outro lugar.as árvores dão ramos. que fazem de ninho. onde me aninho. e beijo-te lisboa. de teclas acesas. amanhã.outro rio. e voltar é o princípio.


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o fôlego enquanto estio tece o futuro acima das brechas. a manhã é sempre dia no destino das pedras. metade do sol desvia a distância e tudo se resume ao salto. de ti. tigre. amansado pelas águase não fora o brusco oráculo viria o teu corpo dos mares qual flor viril e vigilante vigiar-me o rumor dos dias. assim despes a poeira e iluminas-me a pele. o vermelho é duro abre-se e solta-se no musgo das tuas costas. solto um gesto de música. é verão nas tuas ancas.e tudo o que sobra é litoral. língua que escorre ao lado da sombra.templo. o fogo era só vestígio leve cru espada e da lama do tempo faço a ponte.faz-se tarde para lavrar o dia. é cedo para escavar-te a noite.deslizo no subúrbio da tua inconsistência.foste um risco. e de nada te serve a flutuante perfeição.


Publicada por isabel mendes ferreira em Livro invisível



e se te dissesse que somos contemporâneos da litania da loucura urbana?tu mais de Goethe eu mais da Síria. nós pó do mundo.e o mundo seco de nós. incondicionais fluxos. rebentação de protões que os olhos não dissecam e a alma não canta.disse-te a chave. e o dia nasceu. biográfico. como proust sem tempo. achado no chão de uma metáfora. brevíssima.


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tudo o que tenho para dar é este fio.melancólico frio. apelo de pele pastoril.recato de flauta enquanto guardo a montanha e o deslize das águas.veloz natureza a ser canto e chão. aberto. e nunca de estrelas.tecido propício ao vento. face a face na espessura do silêncio.


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venho do silêncio mais loba mais árabe menos faca antes farpa outro vestido a mesma capa.fui ao deserto. nasceu-me um filho.da terra vermelha. da terra sanguínea. da pele vestal sou agora outra muralha desabituei-me da planície. fiz-me à montanha. galopei-me. voltei. mais secreta. menos incerta. menos asa.mais de areia. menos perguntas. menos respostas. de esporas. quero menos. quero agora.só agora voltei. muitas mortes muitas viagens depois. para lembrar o que não esqueço.tudo o que trago nos traços da pele. lama. perfume.finitude que me cega claridades de cal. e que me afoga todos os afagos e cala as palavras e descola os gritos. como placenta como raiz.voltei para acordar do automatismo. do esboço. do risco.do retrato. do adjectivo. venho do silêncio das guelras da fome e do exótico. ramo sem folhas. sem reservas e dispersa. cénica. e nunca sedenta


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re.desenho o coração. em profético arrumo. exciso-me do in.vivido voo. (não me deixes assim) nua à poeira e ao vento ou em pétalas de chumbo. vou. sabes que iria antes do tempo. guarda-me. na avidez dos teus sonhos inimagináveis. na estranheza desnublada de um bosque sem caminhos.já muito pouco é resgatável na melancólica incumbência de qualquer vibração.ela chega na semelhança de um sentido único. compósita e afirmativa na razia dos mitos. vou.(não me deixes assim)chegas. tão viva como a morte.naturalmente linhagem confidencial de um corpo rendido.deixa-me assim. de mãos dentro do fogo.já desfiz a renda. em pós-silêncio de pó de adeus.


Publicada por isabel mendes ferreira em Livro invisível
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sábado, 7 de março de 2009

Realismo fantástico . humor . crítica social . parábola kafkaniana









O vestido era muito bonito, vermelho com pequenas grinaldas e uma espécie de avental branco na parte da frente; a mim custava reconhecer-me, mas o olhar da fotografia não enganava. Quer dizer, aquilo que primeiro julguei ver foi um porco vestido com aquele belo vestido vermelho, um porco fêmea talvez, uma bácora se quiserem insistir, tendo nos olhos esses olhar de cão espantado que eu tenho também quando estou mais cansada.


(...)


Era espantoso ver Yvan tão ligeiro, tão alado sob a luz da lua, movendo levemente a cauda prateada em direcção ao céu e acendendo assim uma espécie de bela fogueira. Toda a massa quebrada do seu corpo e toda a dor dos seus primeiros passos tinham desaparecido sob a sua pelagem de lua e sob os golpes das suas presas de alta precisão, sob os seus saltos, os seus bailados selvagens, os seus grandes sorrisos brancos. Perdi-me de uma paixão louca por Yvan.



___________ in " Estranhos perfumes - história de uma metarmofose " de Marie Darrieussecq, ed ASA, 2002
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sexta-feira, 6 de março de 2009


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Apetece ... fugir para um gesto liberto, através do gesto liberto.




em piece of quiet


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terça-feira, 3 de março de 2009



artbrut
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Governo Brasileiro escolhe Mação para ponte cultural com a Europa



_____________________________ http://81.193.119.47/~museu/museu_de_macao.html





O Ministro Edson Santos, do Governo Federal do Brasil, responsável pela Secretaria de Políticas para a Promoção da Igualdade Racial, inaugura dia 5 de Março as IV Jornadas de Arqueologia Ibero-Americana, que reunirão em Mação especialistas de Portugal, Espanha, Brasil, Colômbia, Chile, Guatemala, México e Peru.
Para além do Ministro, estará em Mação o Governador do Estado do Piauí, Wellington Dias, que tutela o território onde se situa o Parque da Serra da Capivara, sítio de património mundial de arqueologia e arte rupestre e onde terá lugar, em 2009, o Congresso Mundial de Arte Rupestre.
Estarão também em Mação quatro Secretários de Estado (Turismo, Igualdade, Desenvolvimento Regional, Relações Internacionais), dos Estados do Maranhão e Piauí, com os quais o Museu de Arte Pré-Histórica de Mação e o IPT colaboram activamente.
Sob o lema “Porto Seguro”, o Instituto Politécnico de Tomar coordena um vasto programa de cooperação entre a Europa e o Brasil, apoiado pela Comissão Europeia, que articula quatro projectos exemplares: três no Brasil (Serra da Capivara, Piauí; Pirajú, S. Paulo; Palhoça/Florianópolis, Santa Catarina) e um na Europa (Mação, Portugal).
Os projectos apoiam-se na investigação científica e no envolvimento com as comunidades locais, promovendo a sua participação na criação de conhecimento e o seu crescimento económico, bases essenciais para uma sociedade mais equilibrada e com real superação da xenofobia e do racismo.
O Brasil, país que tem investido na cultura e na arqueologia não apenas de forma tradicional, mas no quadro das políticas de desenvolvimento, será objecto de diversas homenagens durante as Jornadas.
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A televisão www.arqueomacao.tv começou a emitir as IV Jornadas de Arqueologia Ibero-americana. Dia 6, pelas 14h30, decorrerá um importante debate, transmitido em directo, sobre o lugar das Humanidades na sociedade actual.
O debate será introduzido por Adama Samassekou, Presidente do Conselho Internacional de Filosofia e Humanidades da Unesco e ex-Ministro da Educação do Mali, nele intervindo também a Senadora italiana Tullia Romagnoli Carettoni, Presidente de HERITY Italia, a Directora da Fundação Museu do Homem Americano, Niede Guidon, e o dirigente da União Internacional das Ciências Pré-Históricas e Proto-Históricas, François Djindjian.

O debate será moderado por Luiz Oosterbeek, e decorre no âmbito da cooperação do Instituto Politécnico de Tomar com diversos organismos internacionais e o governo brasileiro

segunda-feira, 2 de março de 2009

Foi prisão de Lula da Silva, de Elis Regina, de Oswald Andrade ...




Símbolo da tortura no Brasil foi requalificado como espaço museológico/resignificado para homenagear a resistência dos presos à ditadura. O antigo prédio de tijolos vermelhos do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), no Largo General Osório, mesmo no centro de São Paulo, perto do Museu da Língua Portuguesa, abriga hoje o Memorial da Resistência, em quatro celas da antiga prisão, simbolicamente resgatadas da erosão da memória.




" Os detidos, ao chegar, iam para as celas do térreo. No terceiro andar, ficava a sala do delegado Sérgio Paranhos Fleury, um dos mais duros agentes." Outros países sul-americanos, como Argentina, Uruguai e Chile têm um museu dedicado à luta contra a repressão. Segundo Marcelo Araújo, director da Pinacoteca de São Paulo, que integra o museu "no Brasil, ao menos que saibamos, este será o primeiro espaço museológico destinado a essa questão".

Em 2002, o espaço já havia passado por uma primeira reforma. O antigo nome, Memorial da Liberdade, foi mudado para Memorial da Resistência, após reivindicações dos ex-presos."








Passaram por lá, em diferentes períodos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o cardeal honorário de São Paulo, d. Paulo Evaristo Arns, os escritores Monteiro Lobato e Oswald de Andrade, a cantora Elis Regina, a artista Anita Malfatti, a militante e escritora Patrícia Galvão, a Pagu, entre outros.








Denominado Memorial da Liberdade, foi inaugurado em 2002, sob a gestão do Arquivo Público do Estado de São Paulo. Em Agosto de 2007, já integrado à Estação Pinacoteca, recebeu, por iniciativa da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, um projecto com nova perspectiva museológica, visando ampliar a acção preservacionista e seu potencial educativo e cultural, por meio de reflexões sobre os distintos caminhos da memória da resistência e da repressão. A implantação deste projecto teve início no dia 1º de maio de 2008, com a mudança do seu nome para Memorial da Resistência. Coordenados pela Pinacoteca do Estado de São Paulo, os trabalhos foram desenvolvidos por uma equipa interdisciplinar, contando com a participação do Fórum Permanente dos Ex-Presos e Perseguidos Políticos do Estado de São Paulo, além do apoio de diferentes colaboradores e instituições culturais, nomeadamente o Arquivo Público do Estado de São Paulo, onde está depositado o arquivo do DEOPS/SP.


O programa museológico do Memorial está estruturado em procedimentos de pesquisa, salvaguarda e comunicação patrimoniais, orientados sobre enfoques temáticos que evidenciam as amplas ramificações da repressão e as estratégias de resistência, por meio de seis linhas de acção: Centro de Referência, Lugares da Memória, Colecta Regular de Testemunhos, Exposições, Acção Educativa e Acção Cultural. Espera-se que o desenvolvimento dessas acções possa colaborar na formação de cidadãos conscientes e críticos de seu passado, sensibilizar e promover a importância do exercício da democracia, da cidadania e dos direitos humanos.


O espaço expositivo do Memorial da Resistência estruturado em quatro eixos temáticos:

- O edifício e suas memórias: são apresentados os diferentes usos e apropriações do edifício - construído no início do século XX para abrigar os escritórios e armazéns da Companhia Estrada de Ferro Sorocabana - além da estrutura e funcionamento do DEOPS/SP.

- Controle, repressão e resistência: o tempo político e a memória

- as noções e as estratégias de controle, repressão e resistência que configuram a abordagem deste espaço, apresentadas a partir de estrutura conceptual em painel interativo, desenvolvidas em uma linha do tempo (1889 ao ano de 2008) e referenciadas por um conjunto de publicações.

- A construção da memória: o quotidiano nas celas do DEOPS/SP - Este eixo trata exclusivamente do período do regime militar (1964 a 1983), a partir de diversos recursos expográficos como uma maqueta tridimensional que permite ao visitante compare o espaço prisional dos anos de 1969 a 1971 com o momento actual.


A primeira cela mostra os trabalhos do processo de implantação do Memorial da Resistência; a segunda presta uma homenagem aos milhares de presos desaparecidos e mortos em consquência de acções do DEOPS/SP; na terceira cela foi reconstituída a partir das lembranças de ex-presos políticos e a quarta cela oferece uma leitura da solidariedade entre os que estiveram encarcerados naquele local. Neste contexto do quotidiano na prisão, evoca-se também uma celebração religiosa realizada pelos frades dominicanos presos em 1969. Finalmente, um diorama permite ao visitante compreender como as manifestações públicas de resistência, naquele período, ecoavam nas celas.- Da carceragem ao Centro de Referência: oferece possibilidades de aprofundamento temático, por meio da consulta a bancos de dados referenciais, destacando-se o Banco de Dados do PROINProjeto Integrado de Pesquisa desenvolvido pelo Arquivo Público do Estado de São Paulo e a Universidade de São Paulo. Neste espaço também são apresentados objectos e documentos provenientes de dossiês e prontuários produzidos pelo DEOPS/SP, sob a guarda do Arquivo Público do Estado de São Paulo, além de iconografia sobre os diferentes espaços do edifício. Ainda em conformidade com a sua missão, a acção educativa do Memorial propõe-se à construção de diálogos entre o discurso expositivo e o público, por intermédio do desenvolvimento de processos formativos para educadores (ensino formal e não formal), da realização de visitas orientadas e da produção de materiais pedagógicos de apoio.






Projecto Museológico




Coordenação - Marcelo Mattos Araújo

Consultoria em Museologia - Maria Cristina Oliveira Bruno

Consultoria em História - Maria Luiza Tucci Carneiro

Consultoria em Educação - Mila Chiovatto e Gabriela Aidar

Consultoria sobre o Cotidiano nas Celas do DEOPS/SP - Ivan Seixas e Maurice Politi

Equipe Técnica de Implantação Museologia - Kátia Regina Felipini Neves

História - Erick Reis Godliauskas Zen

Educação - Caroline Grassi Franco de Menezes


Apoio - Fórum Permanente dos Ex-Presos e Perseguidos Políticos do Estado de São Paulo, Projecto Integrado Arquivo Público do Estado / Universidade de São Paulo – PROIN, Arquivo do Estado de São Paulo.


SERVIÇO: Memorial da Resistência



Estação Pinacoteca

Largo General Osório, 66 – Luz São Paulo – SP


Telefone: 55 11 3337.0185, ramal 27





Entrada gratuita de terça-feira a domingo, das 10h às 17h30.



Informações e agendamento

Telefone: 55 11 3324.0943/0944


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