domingo, 15 de março de 2009

Domingo




Laura Letinsky photo





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A humanização dos ditadores nunca me preocupou muito. A desumanização de que foram capazes, essa sim, preocupa-me, a mim e a todas as pessoas decentes, acredito. É muito mais inquietante percebermos que alguém que ama, que sofre, que gosta de passear e de fazer festas a um cão, que sorri para a empregada, que se preocupa com as vinhas e gosta de um bom copo de tinto, alguém que aprecia os prazeres da vida, é o mesmo alguém que reprime sem misericórdia, que manda matar, que sabe da tortura e a aceita. A existência de “monstros” desculpabiliza os homens. Mas haver homens iguais a mim que são capazes de tais torpezas alerta-me para o vizinho e para mim próprio. Nada é certo na vida, e é conveniente estar atento. Logo uma série de televisão sobre a vida amorosa de Salazar não me apoquenta. Saber que ele foi também capaz de pequenas tropelias sentimentais, que mentiu, traiu, escondeu-se, foi hipócrita, beijou, desejou, acariciou a pele de alguém, agarrou uma mão, tocou com o pé forrado a bota no delicado pé da mulher que estava ao seu lado no jantar, ou que deu uma queca bravia para os lados de Santa Comba Dão, com francesa ou portuguesa que se lhe atravessava pelo caminho, enquanto “estava casado com a Nação”, não me causa especiais engulhos. A Pide, a censura, o Tarrafal, Humberto Delgado (e muitos mais, com idêntica sorte), a guerra de África, as perseguições políticas, a falta de liberdade, o cinzentismo deste País (que ainda se prolonga em tantos salazarentos que por aí há, basta ler meia dúzia de blogues carregados de bolor e de ódio), isso sim, foi trágico. Saber que “ontem” existiu um homem, que até gostava de mulheres, mas que não gostava de pessoas que pensassem diferente dele, e que esse homem pôde chegar ao poder e fazer de um País o que lhe apeteceu, com a conivência cobarde de tantos, isso sim é revoltante. No entanto, salazarinhos de aviário continuam por aí, mandando beijinhos a senhoras, e proclamando a vontade de passar a ferro e fogo tudo quando mexa de forma diferente da sua. Preocupante, sobretudo quando há gente de boa fé (enfim, esperemos que estejam de boa fé!) que vai atrás da voz da sereia inquinada pelo ódio. Portanto, fica-se sabendo que amor e ódio coexistem na mesma pessoa facilmente. Quando ouvi falar na rodagem de “A Vida Privada de Salazar”, antecipei o pior, depois de livro de Felícia Cabrita, que oferecia pistas para uma escabrosa história de sexo e poder. Quase todos os portugueses sabiam do que se pretendia ter sido um “flirt” platónico com a jornalista francesa Christine Garnier que, no Verão de 1951, veio a Portugal fazer-lhe uma entrevista que deveria durar umas horas e acabou numa longa estada no retiro do Vimeiro, que culminaria num livro, “Vacances avec Salazar”. Mas, para lá desta aventura sentimental (e sexual), muitas outras se foram depois conhecendo a Salazar.

Sobre o filme " A vida privada de Salazar ", escrito por Lauro António

Continua ... AQUI (a não perder)




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Leftovers


Laura Letinsky photo , Chicago, from Hardly More Than Ever, digital C-print, 29.2x37 in., 2002.
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"I began to think about the idea of leftovers. It became important for me on a number of levels, because it has to do with what you do after the promise, when you realize the promise is not possible. This is fundamental to any utopian notion - the promise and its demise.
You can't have utopia without its loss."
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Laura Letinsky, entrevista de julie farstad

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quinta-feira, 12 de março de 2009

Os Tentáculos da Escrita


Francesca Woodman. fotos








A escrita é um polvo, um molusco versátil. Tem infinitos recursos. Escapa sempre. Abstractiza-se. Disfarça-se, adensa-se, adelgaça-se, esconde-se. Impele-se rápida. Compreende tudo: ascese, consolo íntimo, entrega; fluxos, refluxos, invasões, esvaziamentos, obstinação feroz. O seu rigor é místico. É uma infinita demanda. Perscruta o inaudito. Sideral Alice atravessa todas as portas, todos os espelhos. Cruza, descobre, inventa universos. A escrita é um fragmento do espanto, já alguém o disse.




Ana Hatherly, in 'Tisanas'










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quarta-feira, 11 de março de 2009







Ecce Homo, pintura de Giulio Cesare Procaccini


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Foi o próprio asco que me deu asas e forças capazes de pressentir as fontes?

De verdade, eu tive que voar ao lugar mais alto para poder reencontrar a nascente do prazer!











Friedrich Nietzsche, em " Ecce Homo"


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O Homem não Foge da Dor

imagem AQUI



Não é verdade que o homem procure o prazer e fuja da dor. São de tomar em conta os preconceitos contra os quais invisto. O prazer e a dor são consequências, fenómenos concomitantes. O que o homem quer, o que a menor partícula de um organismo vivo quer, é o aumento de poder: é em consequência do esforço em consegui-lo que o prazer e a dor se efectivam; é por causa dessa mesma vontade que a resistência a ela é procurada, o que indica a busca de alguma coisa que manifeste oposição. A dor, sendo entrave à vontade de poder do homem, é portanto um acontecimento normal - a componente normal de qualquer fenómeno orgânico. E o homem não procura evitá-la, pois tem necessidade dela, já que qualquer vitória implica uma resistência vencida. Tome-se como exemplo o mais simples dos casos, o da nutrição de um organismo primário; quando o protoplasma estende os pseudópodes para encontrar resistências, não é impulsionado pela fome, mas pela vontade de poder; acima de tudo, ele intenta vencer, apropriar-se do vencido, incorporá-lo a si. O que se designa por nutrição é pois um fenómeno consecutivo, uma aplicação da vontade original de devir mais forte. Em tudo isto, a dor não só tem por consequência necessária a diminuição da sensação de poder, como até serve, na maioria dos casos, como excitante da mesma sensação de poder, sendo o obstáculo um stimulus dessa vontade de poder.




Friedrich Nietzsche, in 'A Vontade de Poder'


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Amo tracinho te












Quando pela primeira vez escrevi amote
fui repreendida
pela gramática
Não quis saber
Tinha-te mais comigo
Assim numa palavra só
Quando pela primeira vez soletrei
a-mo-te tive medo e com pressa e gula
te comi inteiro te reuni em mim
Quando pela primeira vez
nos começamos a separar respeitei a ortografia e sem dar
por isso separei-te de mim
amo tracinho te
Quando
pela primeira vez nos reunimos soletrei melancolicamente
a-ma-me como quem esbagulha uma romã
Quando
pela última vez me disseste amo tracinho te
tudo
estava certo e solitário
eu separada de ti por um pântano
de ninguém
tu à distância sem mim sem barco
e sem vontade
Esbracejei não me quis conformar
Acenei-te gritei-te de longe Amasme?
numa palavra só
de braços estendidos a lutar contra os ventos separadores
da ortografia e do alto mar
Respondeste gritaste
claro que te amo
te
amo
te
amo
escandiam os ventos e o eco
em duas palavras
separadas
Então entre mim e ti o pântano cresceu
Depois secou
Depois a crosta terrestre desfez-se e refez-se
E houve
Novos mares e continentes e tudo ficou provisoriamente
adulto e definitivo
reconciliado com a geografia e a gramática
eu
tu
solidamente
solidariamente sós





Teresa Rita Lopes


segunda-feira, 9 de março de 2009

Tabucchi discípulo





Morreu a 28 de Agosto de 2008, com 88 anos, a grande filóloga e lusitanista Luciana Stegagno Picchio. Aqui reproduzimos a homenagem que lhe foi feita no jornal italiano Repubblica pelo seu discípulo e amigo Antonio Tabucchi.






Ascolta, la voce, di Luciana
in Repubblica — 30 agosto 2008 pagina 52 sezione: CULTURA






Gli incontri della vita sono guidati dal caso, ma quando non lo si lascia scivolare impunemente davanti agli occhi e lo si "riconosce" allora il caso, da sua cieca natura di coincidenza aleatoria, rivela il senso misterioso che portava con sé, diventa "Occasione" come diceva Montale, entra nella nostra vita quale evento, alla stregua degli altri eventi fondamentali da cui la nostra vita è segnata e scandita. Il "caso" che mi condusse da Luciana Stegagno Picchio si chiama Fernando Pessoa, anche se allora non sapevo bene chi fosse. O meglio, significa uno studente che pensava di essere tagliato per la filosofia, la Sorbona, molto tempo ben perduto a Parigi a scoprire cose diverse dalla filosofia, la decisione di tornare in Italia perché quello studente si era accorto che la letteratura gli piaceva di più. E un piccolo libro di versi dall' aspetto povero, un' edizione a tiratura limitata comprato per puro caso su una bancarella andando alla Gare de Lyon: Fernando Pessoa, Bureau de Tabac. Tabaccheria. Titolo davvero singolare per una poesia, perché di una poesia si trattava, firmata oltretutto da un certo alvaro de Campos che lì per lì mi sembrò uno pseudonimo dell' autore. Pessoa, chi era costui? E il portoghese, che lingua era? E il Portogallo, dov' era? Da qualche parte era, ma per l' Italia e l' Europa non stava in nessun luogo, perché il Portogallo di Salazar aveva girato le spalle all' Europa e l' Europa aveva fatto lo stesso con lui. Eppure, che grande poeta era quel signore ignoto di un paese ignoto che scriveva in una lingua ignota: lo intuivo dalla traduzione francese. E come sarebbe stato bello conoscere la sua lingua. Anno accademico 1964-' 65. Mi iscrissi alla facoltà di Lettere e filosofia dell' Università di Pisa, la mia città natale. E, per puro caso, nel dipartimento di Filologia romanza c' era un insegnamento di Lingua e letteratura portoghese. E io un giorno andai a sentire una lezione. E qui il "puro caso" finisce e diventa un' altra cosa. Perché in cattedra c' era una donna bella ed elegante che con la voce che meritano di essere lette le grandi poesie leggeva un' antica poesia del medioevo portoghese, coeva della Scuola Siciliana, che parlava di lontananze e di nostalgie. «Ondas do mar de Vigo/se vistes meu amigo?/E ay Deus, se verra cedo!». «Onde del mar di Vigo, avete visto il mio amico? Dio mio, che torni presto!», e ancora: «Alte onde del mare, avete visto il mio amico? Dio mio, che torni presto!». E poi, dopo la lettura, la professoressa raccontava di quella Scuola poetica che nella Galizia e nel nord del Portogallo aveva elevato il gallego-portoghese a lingua poetica "speciale", a tal punto che Alfonso X di Castiglia l' aveva eletta per le sue Cantigas alla Vergine. Quel professore d' eccezione era Luciana Stegagno Picchio. Quell' anno, sotto la sua guida studiai quei trovatori, le loro cantigas di scherno, di amore e di amicizia e appresi i primi rudimenti della filologia romanza. Alla fine dell' anno, dopo un buon esame (un puro caso), ebbi una borsa di studio e partii per il Portogallo. Conobbi un paese, conobbi scrittori e poeti perseguitati dal regime ai quali mi aveva indirizzato Luciana. E conobbi Maria José, che in seguito sarebbe diventata mia moglie. Ma soprattutto "riconobbi". Nel Portogallo degli anni Sessanta riconobbi l' Italia di cui mi aveva parlato mio nonno: un paese imbavagliato, castigato da un lungo fascismo. Un paese povero ma con una cultura e un passato ricchissimi. Un paese orgoglioso che il regime poliziesco non era riuscito a soffocare. Paradossalmente in un regime totalitario riuscii a capire meglio il valore della democrazia, ad apprezzare ciò che avevo e che a quel paese mancava. Il Portogallo era ormai entrato prepotentemente nella mia vita. Grazie a Luciana Stegagno Picchio. Nel tempo di quella borsa di studio saltai una generazione: al mio ritorno Luciana non era più solo la mia professoressa, era insieme un maestro e un interlocutore, una persona da cui si impara e con la quale si discute. Intanto Maria José era venuta a laurearsi in Italia e con Luciana era nato un sodalizio, come se noi tre fossimo un pezzetto di Portogallo fuori dal Portogallo. Di quel sodalizio è anche risultato la rivista Quaderni Portoghesi (1977-1988), da noi fondata a Pisa, attraverso la quale portammo il nostro Portogallo (erano numeri tematici) nelle università europee ed americane. Vi creammo una direzione collegiale condivisa con amici lusitanisti come, fra gli altri, Fernanda Toriello. Luciana, come i veri maestri, mi ha insegnato che lo studio è fatto di fatica, di pazienza e di rigore, e mi ha insegnato che la filologia è un grande strumento: non serve solo per l' edizione critica di un testo antico, è un metodo di indagine e in qualche modo una visione del mondo. E nella cultura del mondo intero ho viaggiato anche grazie a Luciana. Perché il suo è sempre stato un metodo comparatista dove la letteratura di lingua portoghese era uno dei termini di paragone, ma non si limitava al Portogallo, all' Africa e al Brasile, si confrontava col mondo intero. La sua Storia del Teatro Portoghese, che è del 1964, per far capire al lettore italiano la dimensione di un Gil Vicente, di un Cardoso Pires, di un Luis-Francisco Rebello, ad esempio, tratta con familiarità Ruzante, Pirandello, Brecht, e altri autori universali. Un' analoga impostazione ha La Letteratura Brasiliana pubblicata da Sansoni nel 1972, e poi ripresa in un' edizione molto ampliata e aggiornata da Einaudi nel 1997. Uno straordinario esempio, quest' ultimo, di un sapere composito che con la letteratura accoglie il cinema, la musica, il folclore, l' antropologia, l' economia, la politica. è impossibile, in un articolo, dare la misura dell' eccezionale produzione scientifica e critica di Luciana: oltre quattrocento voci annovera la sua bibliografia che spazia dalle raffinatissime edizioni critiche dei trovatori gallego-portoghesi a quelle di poeti contemporanei come Murilo Mendes; i suoi studi teorici; i suoi lavori di linguistica con Roman Jakobson; le sue recensioni e i suoi articoli su la Repubblica; i suoi saggi su Pessoa scritti lungo una vita e raccolti in un volume recente che ho avuto l' onore di presentare al pubblico del Salone del Libro di Torino (Nel segno di Orfeo. Fernando Pessoa e l' avanguardia portoghese, Il Melangolo, 2003). Oggi che Luciana ci ha lasciato, so che il cordoglio tocca non solo la cultura italiana ma quella di molti paesi: col Portogallo, il Brasile, gli Stati Uniti, l' Angola e gli altri paesi africani di lingua portoghese, la Spagna, l' Inghilterra, la Romania. Qui, dove mi trovo, Vigo non è poi tanto lontana e le onde sono quelle dell' Oceano Atlantico. Con l' avvicinarsi del settembre il mare sembra gonfiarsi e le onde si fanno maestose. Mi piace chiudere questo mio ricordo con la voce della mia amica Luciana che mi risuona nella memoria. Legge un' antica poesia.


ANTONIO TABUCCHI
Pubblicato da via dei Portoghesi.
AQUI



No seu próximo trabalho, “Cronos”, participarão nomes como Sérgio Godinho, Vitorino, Pedro Abrunhosa ou Jorge Palma com composições inéditas e ainda Janita Salomé que musicou um poema de Hélia Correia. Segundo a própria cantora, Rui Veloso, Amélia Muge e Fausto poderão também ter composições suas no disco que terá como fio condutor "o tempo".


Mais sobre

Guardadora de rebanhos (na pastorícia da palavra)





desfeitos os laços. polpa e pântano. folhagem. adeus. redondo o perfume.
hei de ser a outra tua face. estrangulada de lírios.
nós de seda. e de aço. nós. as duas no mesmo ventre. o laço.



________________para i.v._________________



Publicada por isabel mendes ferreira em Livro invisível




assim a mudança. o repouso. a expressão quieta que amacia o perfil dos dias.___________________e em rigor o belo é uma estrófe. moeda de troca para uma oração concessiva.


Publicada por isabel mendes ferreira em Livro invisível



voltar ao incerto dia da fruição do silêncio voltar à percepção de um divino poético onde a voz é nua onde a nudez é solar onde o quase tudo é apenas um ponto uma nota um sussurro.
voltar através de um fio de água para bordar de coerência um sossego que seja vegetal.


Publicada por isabel mendes ferreira em Livro invisível



desconstruir-te.a mil tempos e vozes. para voltar a denunciar o dócil e o indomável. ser desfolhagem de segredos que incomodam. respirar o primaveril como se a dança fosse vertigem. cúpula de gritos em vez de parágrafos silvestres.
desnudo um ombro teu. apenas. revelo-te a cintura. despenho-me.
aparecer e desaparecer como se de luz fosse quase tudo. dar-te a água visível e um dia de veludo.
o máximo é sempre inocente quando a palavra brilha na pastorícia da metáfora.


Publicada por isabel mendes ferreira em Livro invisível


e não sei das possíveis espigas. entardeço à sombra do incerto.aveludo-me de baldios onde a palavra é muda. e tudo muda. das veias para o peito numa renda fina. que se abre em rosa. flor sanguínea.


Publicada por isabel mendes ferreira em Livro invisível


há quanto tempo não te amava assim. lisboa.fragmentada de águas . memórias inchadas de prazer. assim caída nos meus ombros à deriva por outros mares outras marés outros cheiros mas sempre rente à música do teu ventre inclinado para o tejo.há quanto tempo não te fazia e dizia amor nos dentes. amor nas ancas dedilhadas por farpas e guitarras e vielas...assim te desdigo saudade. e volto aos teus flancos como gaivota em dezembros líquidos e densos.oleosos. florestais. lisboa de um piano que finalmente se cala.neste aqui. que já foi tanto. mesmo quando tocava sangue e silêncio.não é de adeus que te falo. é de mais longe. de mais logo. de outro lugar.as árvores dão ramos. que fazem de ninho. onde me aninho. e beijo-te lisboa. de teclas acesas. amanhã.outro rio. e voltar é o princípio.


Publicada por isabel mendes ferreira em Livro invisível



o fôlego enquanto estio tece o futuro acima das brechas. a manhã é sempre dia no destino das pedras. metade do sol desvia a distância e tudo se resume ao salto. de ti. tigre. amansado pelas águase não fora o brusco oráculo viria o teu corpo dos mares qual flor viril e vigilante vigiar-me o rumor dos dias. assim despes a poeira e iluminas-me a pele. o vermelho é duro abre-se e solta-se no musgo das tuas costas. solto um gesto de música. é verão nas tuas ancas.e tudo o que sobra é litoral. língua que escorre ao lado da sombra.templo. o fogo era só vestígio leve cru espada e da lama do tempo faço a ponte.faz-se tarde para lavrar o dia. é cedo para escavar-te a noite.deslizo no subúrbio da tua inconsistência.foste um risco. e de nada te serve a flutuante perfeição.


Publicada por isabel mendes ferreira em Livro invisível



e se te dissesse que somos contemporâneos da litania da loucura urbana?tu mais de Goethe eu mais da Síria. nós pó do mundo.e o mundo seco de nós. incondicionais fluxos. rebentação de protões que os olhos não dissecam e a alma não canta.disse-te a chave. e o dia nasceu. biográfico. como proust sem tempo. achado no chão de uma metáfora. brevíssima.


Publicada por isabel mendes ferreira em Livro invisível


tudo o que tenho para dar é este fio.melancólico frio. apelo de pele pastoril.recato de flauta enquanto guardo a montanha e o deslize das águas.veloz natureza a ser canto e chão. aberto. e nunca de estrelas.tecido propício ao vento. face a face na espessura do silêncio.


Publicada por isabel mendes ferreira em Livro invisível


venho do silêncio mais loba mais árabe menos faca antes farpa outro vestido a mesma capa.fui ao deserto. nasceu-me um filho.da terra vermelha. da terra sanguínea. da pele vestal sou agora outra muralha desabituei-me da planície. fiz-me à montanha. galopei-me. voltei. mais secreta. menos incerta. menos asa.mais de areia. menos perguntas. menos respostas. de esporas. quero menos. quero agora.só agora voltei. muitas mortes muitas viagens depois. para lembrar o que não esqueço.tudo o que trago nos traços da pele. lama. perfume.finitude que me cega claridades de cal. e que me afoga todos os afagos e cala as palavras e descola os gritos. como placenta como raiz.voltei para acordar do automatismo. do esboço. do risco.do retrato. do adjectivo. venho do silêncio das guelras da fome e do exótico. ramo sem folhas. sem reservas e dispersa. cénica. e nunca sedenta


Publicada por isabel mendes ferreira em Livro invisível



re.desenho o coração. em profético arrumo. exciso-me do in.vivido voo. (não me deixes assim) nua à poeira e ao vento ou em pétalas de chumbo. vou. sabes que iria antes do tempo. guarda-me. na avidez dos teus sonhos inimagináveis. na estranheza desnublada de um bosque sem caminhos.já muito pouco é resgatável na melancólica incumbência de qualquer vibração.ela chega na semelhança de um sentido único. compósita e afirmativa na razia dos mitos. vou.(não me deixes assim)chegas. tão viva como a morte.naturalmente linhagem confidencial de um corpo rendido.deixa-me assim. de mãos dentro do fogo.já desfiz a renda. em pós-silêncio de pó de adeus.


Publicada por isabel mendes ferreira em Livro invisível
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sábado, 7 de março de 2009

Realismo fantástico . humor . crítica social . parábola kafkaniana









O vestido era muito bonito, vermelho com pequenas grinaldas e uma espécie de avental branco na parte da frente; a mim custava reconhecer-me, mas o olhar da fotografia não enganava. Quer dizer, aquilo que primeiro julguei ver foi um porco vestido com aquele belo vestido vermelho, um porco fêmea talvez, uma bácora se quiserem insistir, tendo nos olhos esses olhar de cão espantado que eu tenho também quando estou mais cansada.


(...)


Era espantoso ver Yvan tão ligeiro, tão alado sob a luz da lua, movendo levemente a cauda prateada em direcção ao céu e acendendo assim uma espécie de bela fogueira. Toda a massa quebrada do seu corpo e toda a dor dos seus primeiros passos tinham desaparecido sob a sua pelagem de lua e sob os golpes das suas presas de alta precisão, sob os seus saltos, os seus bailados selvagens, os seus grandes sorrisos brancos. Perdi-me de uma paixão louca por Yvan.



___________ in " Estranhos perfumes - história de uma metarmofose " de Marie Darrieussecq, ed ASA, 2002
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sexta-feira, 6 de março de 2009


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Apetece ... fugir para um gesto liberto, através do gesto liberto.




em piece of quiet


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terça-feira, 3 de março de 2009



artbrut
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Governo Brasileiro escolhe Mação para ponte cultural com a Europa



_____________________________ http://81.193.119.47/~museu/museu_de_macao.html





O Ministro Edson Santos, do Governo Federal do Brasil, responsável pela Secretaria de Políticas para a Promoção da Igualdade Racial, inaugura dia 5 de Março as IV Jornadas de Arqueologia Ibero-Americana, que reunirão em Mação especialistas de Portugal, Espanha, Brasil, Colômbia, Chile, Guatemala, México e Peru.
Para além do Ministro, estará em Mação o Governador do Estado do Piauí, Wellington Dias, que tutela o território onde se situa o Parque da Serra da Capivara, sítio de património mundial de arqueologia e arte rupestre e onde terá lugar, em 2009, o Congresso Mundial de Arte Rupestre.
Estarão também em Mação quatro Secretários de Estado (Turismo, Igualdade, Desenvolvimento Regional, Relações Internacionais), dos Estados do Maranhão e Piauí, com os quais o Museu de Arte Pré-Histórica de Mação e o IPT colaboram activamente.
Sob o lema “Porto Seguro”, o Instituto Politécnico de Tomar coordena um vasto programa de cooperação entre a Europa e o Brasil, apoiado pela Comissão Europeia, que articula quatro projectos exemplares: três no Brasil (Serra da Capivara, Piauí; Pirajú, S. Paulo; Palhoça/Florianópolis, Santa Catarina) e um na Europa (Mação, Portugal).
Os projectos apoiam-se na investigação científica e no envolvimento com as comunidades locais, promovendo a sua participação na criação de conhecimento e o seu crescimento económico, bases essenciais para uma sociedade mais equilibrada e com real superação da xenofobia e do racismo.
O Brasil, país que tem investido na cultura e na arqueologia não apenas de forma tradicional, mas no quadro das políticas de desenvolvimento, será objecto de diversas homenagens durante as Jornadas.
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A televisão www.arqueomacao.tv começou a emitir as IV Jornadas de Arqueologia Ibero-americana. Dia 6, pelas 14h30, decorrerá um importante debate, transmitido em directo, sobre o lugar das Humanidades na sociedade actual.
O debate será introduzido por Adama Samassekou, Presidente do Conselho Internacional de Filosofia e Humanidades da Unesco e ex-Ministro da Educação do Mali, nele intervindo também a Senadora italiana Tullia Romagnoli Carettoni, Presidente de HERITY Italia, a Directora da Fundação Museu do Homem Americano, Niede Guidon, e o dirigente da União Internacional das Ciências Pré-Históricas e Proto-Históricas, François Djindjian.

O debate será moderado por Luiz Oosterbeek, e decorre no âmbito da cooperação do Instituto Politécnico de Tomar com diversos organismos internacionais e o governo brasileiro

segunda-feira, 2 de março de 2009

Foi prisão de Lula da Silva, de Elis Regina, de Oswald Andrade ...




Símbolo da tortura no Brasil foi requalificado como espaço museológico/resignificado para homenagear a resistência dos presos à ditadura. O antigo prédio de tijolos vermelhos do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), no Largo General Osório, mesmo no centro de São Paulo, perto do Museu da Língua Portuguesa, abriga hoje o Memorial da Resistência, em quatro celas da antiga prisão, simbolicamente resgatadas da erosão da memória.




" Os detidos, ao chegar, iam para as celas do térreo. No terceiro andar, ficava a sala do delegado Sérgio Paranhos Fleury, um dos mais duros agentes." Outros países sul-americanos, como Argentina, Uruguai e Chile têm um museu dedicado à luta contra a repressão. Segundo Marcelo Araújo, director da Pinacoteca de São Paulo, que integra o museu "no Brasil, ao menos que saibamos, este será o primeiro espaço museológico destinado a essa questão".

Em 2002, o espaço já havia passado por uma primeira reforma. O antigo nome, Memorial da Liberdade, foi mudado para Memorial da Resistência, após reivindicações dos ex-presos."








Passaram por lá, em diferentes períodos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o cardeal honorário de São Paulo, d. Paulo Evaristo Arns, os escritores Monteiro Lobato e Oswald de Andrade, a cantora Elis Regina, a artista Anita Malfatti, a militante e escritora Patrícia Galvão, a Pagu, entre outros.








Denominado Memorial da Liberdade, foi inaugurado em 2002, sob a gestão do Arquivo Público do Estado de São Paulo. Em Agosto de 2007, já integrado à Estação Pinacoteca, recebeu, por iniciativa da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, um projecto com nova perspectiva museológica, visando ampliar a acção preservacionista e seu potencial educativo e cultural, por meio de reflexões sobre os distintos caminhos da memória da resistência e da repressão. A implantação deste projecto teve início no dia 1º de maio de 2008, com a mudança do seu nome para Memorial da Resistência. Coordenados pela Pinacoteca do Estado de São Paulo, os trabalhos foram desenvolvidos por uma equipa interdisciplinar, contando com a participação do Fórum Permanente dos Ex-Presos e Perseguidos Políticos do Estado de São Paulo, além do apoio de diferentes colaboradores e instituições culturais, nomeadamente o Arquivo Público do Estado de São Paulo, onde está depositado o arquivo do DEOPS/SP.


O programa museológico do Memorial está estruturado em procedimentos de pesquisa, salvaguarda e comunicação patrimoniais, orientados sobre enfoques temáticos que evidenciam as amplas ramificações da repressão e as estratégias de resistência, por meio de seis linhas de acção: Centro de Referência, Lugares da Memória, Colecta Regular de Testemunhos, Exposições, Acção Educativa e Acção Cultural. Espera-se que o desenvolvimento dessas acções possa colaborar na formação de cidadãos conscientes e críticos de seu passado, sensibilizar e promover a importância do exercício da democracia, da cidadania e dos direitos humanos.


O espaço expositivo do Memorial da Resistência estruturado em quatro eixos temáticos:

- O edifício e suas memórias: são apresentados os diferentes usos e apropriações do edifício - construído no início do século XX para abrigar os escritórios e armazéns da Companhia Estrada de Ferro Sorocabana - além da estrutura e funcionamento do DEOPS/SP.

- Controle, repressão e resistência: o tempo político e a memória

- as noções e as estratégias de controle, repressão e resistência que configuram a abordagem deste espaço, apresentadas a partir de estrutura conceptual em painel interativo, desenvolvidas em uma linha do tempo (1889 ao ano de 2008) e referenciadas por um conjunto de publicações.

- A construção da memória: o quotidiano nas celas do DEOPS/SP - Este eixo trata exclusivamente do período do regime militar (1964 a 1983), a partir de diversos recursos expográficos como uma maqueta tridimensional que permite ao visitante compare o espaço prisional dos anos de 1969 a 1971 com o momento actual.


A primeira cela mostra os trabalhos do processo de implantação do Memorial da Resistência; a segunda presta uma homenagem aos milhares de presos desaparecidos e mortos em consquência de acções do DEOPS/SP; na terceira cela foi reconstituída a partir das lembranças de ex-presos políticos e a quarta cela oferece uma leitura da solidariedade entre os que estiveram encarcerados naquele local. Neste contexto do quotidiano na prisão, evoca-se também uma celebração religiosa realizada pelos frades dominicanos presos em 1969. Finalmente, um diorama permite ao visitante compreender como as manifestações públicas de resistência, naquele período, ecoavam nas celas.- Da carceragem ao Centro de Referência: oferece possibilidades de aprofundamento temático, por meio da consulta a bancos de dados referenciais, destacando-se o Banco de Dados do PROINProjeto Integrado de Pesquisa desenvolvido pelo Arquivo Público do Estado de São Paulo e a Universidade de São Paulo. Neste espaço também são apresentados objectos e documentos provenientes de dossiês e prontuários produzidos pelo DEOPS/SP, sob a guarda do Arquivo Público do Estado de São Paulo, além de iconografia sobre os diferentes espaços do edifício. Ainda em conformidade com a sua missão, a acção educativa do Memorial propõe-se à construção de diálogos entre o discurso expositivo e o público, por intermédio do desenvolvimento de processos formativos para educadores (ensino formal e não formal), da realização de visitas orientadas e da produção de materiais pedagógicos de apoio.






Projecto Museológico




Coordenação - Marcelo Mattos Araújo

Consultoria em Museologia - Maria Cristina Oliveira Bruno

Consultoria em História - Maria Luiza Tucci Carneiro

Consultoria em Educação - Mila Chiovatto e Gabriela Aidar

Consultoria sobre o Cotidiano nas Celas do DEOPS/SP - Ivan Seixas e Maurice Politi

Equipe Técnica de Implantação Museologia - Kátia Regina Felipini Neves

História - Erick Reis Godliauskas Zen

Educação - Caroline Grassi Franco de Menezes


Apoio - Fórum Permanente dos Ex-Presos e Perseguidos Políticos do Estado de São Paulo, Projecto Integrado Arquivo Público do Estado / Universidade de São Paulo – PROIN, Arquivo do Estado de São Paulo.


SERVIÇO: Memorial da Resistência



Estação Pinacoteca

Largo General Osório, 66 – Luz São Paulo – SP


Telefone: 55 11 3337.0185, ramal 27





Entrada gratuita de terça-feira a domingo, das 10h às 17h30.



Informações e agendamento

Telefone: 55 11 3324.0943/0944


Não sei quanto tempo somos

Fotografia Jorge Gallindo




Mas sei que hoje é 28 do mês que melhor me soa. Celebro-(me) Fe-ve-rei-ro. Estendo ritualmente a toalha de linho branco. Ergo mil cálices à vida. Rezo (como sei). Não sei quanto tempo somos ...
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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Letra livre



Uma pequena livraria, de livros novos e usados, localizada no centro de Lisboa especializada em literaturas de língua portuguesa e ciências humanas. Antropologia, África, Brasil, Género, História social, Lisboa, Literatura, Poesia, Política. Destaque para as pequenas editoras independentes: Antígona, Apenas, Aquário, Averno, Deriva, Dinossauro, Edições Mortas, &etc, Ela por Ela, Fenda, Frenesi, Ulmeiro (aqui http://www.letralivre.com/ encontra raras preciosidades. estudos e joias literárias de limitadíssima tiragem)




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Pela Calçada do Combro (hoje deambulando ...)
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Esta rua histórica que divide o Bairro Alto do Bairro da Bica, unindo o Chiado a São Bento, foi, desde o século XIX, um eixo central do coração da cidade que ligava dois bairros populares onde os livros, os jornais e a luta política e social faziam parte do quotidiano.
Mas, se a importância dos jornais, das tipografias e das organizações sindicais e sociais cresceu significativamente a partir do começo do século XX, desde o século XVIII, estes bairros de Lisboa tinham uma forte ligação ao comércio livreiro e à indústria tipográfica como demonstra a Igreja de Santa Catarina, cuja responsabilidade cabia à Confraria dos Livreiros.
Lojas Maçonicas, choças Carbonárias, jornais sindicais, republicanos e anarquistas, bem como inúmeras tipografias espalhavam-se por ruas e vielas destes dois bairros, vizinhos do Chiado, mais tradicional e burguês. As tascas e cafés da Bica e do Bairro Alto, tal como as da Rua da Misericórdia, onde funcionava o famoso Café dos Anarquistas, praticamente ao lado da editora Guimarães, uma das mais importantes da época, eram locais de encontro de intelectuais e operários envolvidos, primeiro, na luta contra a monarquia e, depois, nas lutas sociais da Primeira República. A Greve, diário operário criado em 1908, funcionou na Rua Luz Soriano e a Casa Sindical, inaugurada em 1912, no Palácio do Marquês de Pombal na Rua do Século até à sua invasão pela polícia da república. Próximo, na Rua da Barroca, teve também sua redacção A Sementeira, a principal revista libertária feita por trabalhadores no começo do século XX. Mas inúmeras outras publicações, folhas volantes e editoras, mais ou menos duradouras, e as tipografias onde eram impressas dividiam o espaço comercial dos prédios destes bairros populares.
Na Calçada do Combro nº 38-A, onde já havia tido sede, em finais do século XIX, o jornal Revolução de Setembro de Rodrigues Sampaio funcionou, a partir de 1919, no antigo Palácio dos Castro Marim, depois conhecido por Palácio do Correio Velho, a sede da Confederação Geral do Trabalho, a CGT anarco-sindicalista, e do seu jornal A Batalha a principal publicação operária e sindicalista da Primeira República. Por este palácio circulavam, juntamente com centenas de trabalhadores de diversos ofícios, intelectuais como Ferreira de Castro, Pinto Quartim, Manuel Ribeiro, Campos Lima, Emílio Costa, Jaime Brasil, Mário Domingues e tantos outros colaboradores de A Batalha e dos seus suplementos literários. Encerrada, assaltada, pilhada pelos diferentes governos republicanos e, finalmente, proibida a CGT e A Batalha tiveram de abandonar definitivamente a Calçada do Combro com a Ditadura do chamado Estado Novo. A Calçada do Combro foi assim nas primeiras décadas do século XX a via estratégica por onde passavam as manifestações operárias que após concentração na Praça de Camões seguiam até ao Parlamento em São Bento para reclamar ou protestar.
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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

A Tábua das Marés




Fotografia gabriele rigon






A barca desliza pela água com extrema suavidade. Mais do que golpear a água, os remos pensam-na, saboreiam-na. E a água, mais do que tolerar, recebe o suave peso. De tanto pensar a água, de puro Norte, a barca está desorientada.
Madeira e água desejam-se.
Há dois lábios de água para cada pedaço de madeira e uma boca de água para cada remo. O céu do paladar dessa boca de água é feito de espuma tranquila e a tranquilidade é o ensino que reparte o prazer, na forma de erecção deslizante.
O homem assiste a este espectáculo da suavidade com a boca seca e chama em seu auxílio a saliva. Apercebe-se de que acaricia os punhos, em círculos que se encerram na palma das suas mãos.
Da mesma maneira a água pule a madeira, a madeira é o polimento da água e os olhos aquosos do homem que rema sem remar parecem pérolas nesta cena nacarada.
Durante um longo tempo, o homem não se atreve a abandonar este estado nem a persistir nele.
Agora, a madeira está a ponto de incendiar a água e está a ponto de arder. Levanta o olhar e, do centro da ria, o homem contempla as margens.
Um denso bosque tomou conta da margem esquerda e fechou todas as suas entradas com os persuasivos cadeados das silvas. Coroando um monte inacessível, ergue-se a igreja negra. A agulha da torre do campanário parece cravar-se nas nuvens que chovem sobre a igreja e fazem-na brilhar como charão.
A margem direita é um jardim prolongado. O homem segue do barco a linha de cores até chegar ao roseiral, em cujo centro se ergue uma igreja branca.
Olha a igreja branca, na sua margem impudicamente soalhada e estremece quando a torre do campanário desperta com o som do carrilhão, que se expande rapidamente.
O homem dispõe-se a remar até à margem direita quando o único sino da igreja negra começa a repicar. Volta a cabeça para a margem esquerda. Os espinhos das silvas parecem ganhar vida e cravar-se no som, e o som profundo do sino parece trespassá-las. A música da igreja negra concentra-se.
O homem faz por remar para a margem direita, mas a margem esquerda impede-o. O homem vira as costas à margem esquerda quando na realidade quer ir ao seu encontro.
As mãos agarram-se agora aos remos, que começam a golpear a água. Madeira e água repelem-se, chamando-se. Madeira e água deixam de se acariciar e tocam-se.
Começa a levantar-se a ondulação, a água começa a subir a costa e a madeira a baixá-la, começa o outro prazer.
E o homem que olha a marulhada e que é parte dela, o homem que mal escuta agora o débil carrilhão da igreja branca, sente um intenso desejo de se atirar à água, de se despedaçar nela.




Menchu Gutiérrez , em " A tábua das marés ", 2000, editorial Teorema, Lisboa

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Chaconne for solo violin - Johann Sebastian Bach

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Saia dá medo ?




A roupa, alguém o afirmou, é um artefacto cultural.

Já em 2002, o prestigiado museu londrino Victoria and Albert, realizou uma exposição intitulada Men In Skirts (Homens de Saia) , em que se discutia se a saia também é roupa de homem, com o objectivo de expandir as fronteiras do vestuário masculino e desconstruir uma ideia feita.
A própria definição de saia pode ser bem ampla: os kaftans, por exemplo, tão populares nos anos 70, entraram na exposição.











Saia para homem por Gaultier

Macho e fêmea

Uma das funções da roupa é demarcar os géneros, diferenciar o macho da fêmea.
Mas isto é feito de forma diferente de acordo com a cultura. Se no mundo ocidental os homens vestem maioritariamente calças, em certas partes da Ásia e da África tanto homens quanto mulheres usam saia. Mas houve uma época em que os homens ocidentais incluíam a saia nos seus guarda-roupas.


















Foi a evolução da alfaiataria, a partir do século XIV, que impulsionou a especialização da vestimenta.
Aos poucos, a roupa do homem tornou-se intrinsecamente associada à masculinidade.



O estilista Rifat Ozbek acha que os homens têm medo de que a saia vá alterar a sua sexualidade.
Desde os anos 60, vários estilistas de moda tentaram reintroduzir a saia como uma forma aceitável de um homem se vestir.
Frequentemente pegando emprestado aqui e ali culturas e eras diversas, alguns designers inventaram e reinventaram a saia para homem.

Saia como símbolo

Em alguns momentos, estas roupas foram adoptadas pela contra-cultura, com grupos como hippies, punks e os novos românticos adoptando a saia como um sinal de rebeldia.
Os gays também adoptaram a saia como um símbolo de um estilo de vida alternativa.
Mais recentemente, a saia foi usada como uma forma de mostrar que um homem pode estar na moda. Isto pode ser feito por homens que têm o poder de formar opinião e ditar a moda como desportistas, estrelas pop ou artistas de cinema.
Músicos como Caetano Veloso e Gilberto Gil e o jogador de futebol inglês, David Beckham - num modelo assinado por Jean-Paul Gaultier - foram notícia na imprensa por usarem saias ou sarongues.
Com excepção da saia escocesa, o kilt, os homens continuam muito receosos na hora de vestir qualquer tipo de saia.
Através do trabalho dos designers contemporâneos (em que se inclui o português Miguel Vieira, para mim, um dos melhores), a ideia de homens de saia ganha um novo sopro de vida.


Para quando, másculos e maternos de saias ? Senhores de si ... homens do seu tempo, de um tempo rei de múltiplos artefactos. Não me iludo ...

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Tempo Rei [King Time] - Gilberto Gil

sábado, 14 de fevereiro de 2009

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"the essential is no longer visible" - Heiner Müller

O belo é a fera

Foto Por Joel Calheiros


fotografia http://www.saudek.com/en/jan/uvod.html






Desbaratamos deuses, procurando
Um que nos satisfaça ou justifique.
Desbaratamos esperança, imaginando
Uma causa maior que nos explique.
Pensando nos secamos e perdemos
Esta força selvagem e secreta,
Esta semente agreste que trazemos
E gera heróis e homens e poetas.
Pois Deuses somos nós. Deuses do fogo
Malhando-nos a carne, até que em brasa
Nossos sexos furiosos se confundam,
Nossos corpos pensantes se entrelacem
E sangue, raiva, desespero ou asa,
Os filhos que tivermos forem nossos.





José Carlos Ary dos Santos

PABLO HELGUERA: SUITE PANAMERICANA







Havia um tempo em que a arte se resumia à simplicidade de uma tela, uma escultura, uma partitura executada por uma orquestra. Este tempo não existe mais. Em seu lugar, surgiu uma selva de referências, uma colcha de retalhos intermináveis, cujas possibilidades se multiplicam em diferentes meios e linguagens. O novo trabalho do artista conceitual Pablo Helguera sintetiza perfeitamente esta nova ordem mundial. Durante meses, Helguera e alguns outros membros da The School of Panamerican Unrest (SPU) fizeram uma longa viagem de carro pelas Américas, partido de Anchorage, no Alaska e indo até Ushuaia, na Argentina, fazendo uma série de paradas ao longo do caminho. Em cada uma dessas paradas, por meio de performances, workshops, sessões de vídeos e debates, a SPU deu início a uma gigantesca troca de idéias, concentradas nas colagens integrantes da mostra “Suite Panamericana” (...) o ambicioso projeto de Helguera estende seus tentáculos por um site, um blog e um documentário.






sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009


e se te dissesse que somos contemporâneos da litania da loucura urbana? tu mais de Goethe eu mais da Síria. nós pó do mundo.e o mundo seco de nós. incondicionais fluxos. rebentação de protões que os olhos não dissecam e a alma não canta.disse-te a chave. e o dia nasceu. biográfico. como proust sem tempo. achado no chão de uma metáfora. brevíssima.

Texto de isabel mendes ferreira em Livro invisível

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Psicoclaustrofonia



fotografia Katia Chausheva



uma casa desarmada em flor bebe o arco-íris
pela aorta
engole fraccionadamente a mulher
que contrariada respira ar de brita
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nariz contra o espelho – foz errada
beijar inverso:
planos côncavos deterioram outros convexos
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frivolidade das arestas, a mulher invertida
a alienar uma epiderme mais espessa
que de estranha deixa corroê-la
pela borrasca intestinal
febre do stress
anjo-reflexo (...)




Porfírio

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fragmento do poema PSICOCLAUSTROFONIA (III), arrancado a ESTE imenso
poderoso
sôfrego januellarium







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regressada do X Congresso com uma mala de livros. recomendáveis. (com)vividos

" A gramática do tempo: para uma nova cultura política ", (2006) Ed. Afrontamento

Com base em trabalhos anteriores, o autor ( Boaventura de Sousa Santos) considera que as sociedades e as culturas contemporâneas são intervalares: situam-se no trânsito entre o paradigma da modernidade, cuja falência é cada vez mais visível, e um paradigma emergente ainda difícil de identificar. Esta transição tem duas dimensões principais: uma epistemológica e outra societal. A transição epistemológica ocorre entre o paradigma da ciência moderna (conhecimento-regulação) e o paradigma emergente do conhecimento prudente para uma vida decente (conhecimento-emancipação). A transição societal, menos visível, ocorre entre o paradigma dominante- sociedade patriarcal; produção capitalista, consumismo individualista e mercadorizado; identidades-fortaleza; democracia autoritária; desenvolvimento global, desigual e excludente - e um novo paradigma, ou conjunto de paradigmas, de que apenas podemos vislumbrar sinais. A argumentação centra-se em três grandes campos analíticos: a ciência, o direito e o poder. (...)


" A diferença ", (2002) Fenda Edições, Lisboa
As identidades culturais têm uma densidade histórica. Conforme se demonstra na obra de Michel Wieviorka, é necessária uma articulação entre as identidades específicas (de género, nação, religião, etnias e outras) e a modernidade universal, para evitar dois riscos: por um lado, o diferencialismo extremo, que pode conduzir à intolerância, ao racismo, ás guerras religioas e nacionalistas; por outro lado, a valorização excessiva da modernidade do mundo ocidental, com as violências que, por vezes, a acompanham.


" O tempo, as culturas e as instituições ", (2008) Edições Colibri, Lisboa
Esta obra, colige os seguintes textos e autores:
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Time, money and the cultural divide - Robert Livine
Modos de governação do tempo - Emília Araújo
Tempo a ganhar, tempo a perder - Maria Johanna Schouten
Représentation du temps et archives de la pensée: les devises de cadrans solaires - Jean-Marc Ramos
O tempo insuspenso. Uma aproximação a duas percepções carcerais da temporalidade - Manuela Ivone Cunha
Andante, andante: tempo para andar e descobrir um lugar - João Teixeira Lopes
Breve reflexão sobre a "linguagem silenciosa" do tempo, de Edward Hall - Ricardo Gouveia

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O XI Congresso Luso-Afro-Brasileiro, em 2011, será em S. Salvador da Baía e, em 2012, em Cabo Verde.

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A Assembleia-Geral do Congresso Luso-Afro-Brasileiro decidiu que o próximo Congresso de Ciências Sociais será em 2011 em São Salvador da Baia, no Brasil, disse à Lusa fonte da organização.
Manuel Carlos Silva, responsável da organização do X Congresso, que terminou dia 7 em Braga, adiantou que o encontro será, em princípio, organizado por várias universidades de São Salvador da Baia.
Os congressistas debateram a possibilidade de o próximo congresso se realizar em Cabo Verde, tendo agendado o 12º encontro, em 2012, naquele país africano.
A assembleia-geral seguiu-se à sessão de encerramento do X Congresso Luso-Afro-Brasileiro, que decorreu durante quatro dias na Universidade do Minho, em Braga, e que juntou 1600 investigadores de Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe, e Timor-Leste.

This Star is Mine


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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Tacteando enigmas . dobrando cismas


«O ENIGMA DE UMA JANELA O fascínio de uma janela está em que se vê de fora para dentro e de dentro para fora, mas de tal maneira que as duas visões não são coincidentes. Escreveu M.-A. Ouaknin: “A janela é um objecto misterioso. Ela abre para a intimidade e para o mundo”. Ela é “fronteira, limiar e sonho”. O que se vê de fora para dentro tem sempre a ver com o oculto, o segredo, a intimidade, o sagrado. E o que se vê de dentro para fora? Baudelaire escreveu: “Je ne vois qu’infini par toutes les fenêtres”: só vejo infinito por todas as janelas. Através de uma janela, não se vê apenas o que está aí, à frente dela. Uma janela dá para o ilimitado, para o infinito.»




Anselmo Borges, "A janela do (in)finito ", Campo das letras, 2009




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sexta-feira, 30 de janeiro de 2009


Onde é que estão as boas notícias?




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A fotografia é de Adelino Chapa e a pergunta servida AQUI, ao balcão, da mais afinada BloGuiTe
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terça-feira, 27 de janeiro de 2009

____________spirits of the departed


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White doves are kept at the Yasukuni Shinto shrine, dedicated to military personnel killed during Japan's wars. They are considered to be spirits of the departed.
JAPAN. Shinto. 2000

Copyright Abbas/Magnum Photos

sábado, 24 de janeiro de 2009

A chave da Magnum na mão de Abbas. Magnífico olho de pássaro.

Abbas, Dubai International Filmfest, Dezembro 2007

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Expresso — O que distingue a Magnum das outras agências ?

Abbas — A diferença é que a agência pertence aos fotógrafos. Eu trabalhei na Sipa, na Gamma e depois na Magnum ...
Quando estava na Sipa, era o caos. Se saía em reportagem, era eu que tinha de comprar o bilhete do avião, de arranjar os filmes, tudo.
Depois fui para a Gamma. Quando partia, davam-me um cartão para o telex, o dinheiro, o bilhete do avião, a lista dos voos nos quais era possível enviar os filmes, etc. Tudo estava organizado, tudo era perfeito.

Vou para a Magnum, e é o caos total outra vez.

Mas há uma diferença: dão-nos a chave da agência.

A Magnum é uma cooperativa de fotógrafos, pertence aos fotógrafos e eles têm o controle político, digamos, sobre a agência — são eles que definem as grandes linhas, e depois há um «staff» que gere o dia a dia.
A outra grande diferença é que na Magnum os fotógrafos são sempre os donos e senhores do seu trabalho, e todos os negativos continuam a pertencer-lhes. Cada fotógrafo paga os seus filmes e as suas revelações. E a Magnum é uma agência que não pode ser comprada pelos bancos ou pelos grandes grupos industriais, como sucede com as outras.

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in Expresso/Revista 17 de Julho de 1993, pp 36-41 (versão de arquivo/extracto)
entrevista a Abbas Attar , iraniano nascido em 1944, fotógrafo da Magnum desde 1981.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

De que falam Esperanza Aguirre e César Molona ?

Esperanza Aguirre y César Antonio Molona ante el tríptico de Bacon inspirado en un poema de T. S. Elliot.

Foto: Fernando Alvarado / EFE


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La gran retrospectiva organizada cuando se cumple el centenario del nacimiento del artista en Dublín mostrará prácticamente todas las obras fundamentales de Bacon, que falleció en Madrid en abril de 1992. (...)
El planteamiento será cronológico pero al mismo tiempo se dividirá en las diferentes zonas temáticas que él trato como el estudio de los animales, los hombres, la crucifixión, el retrato o sus archivos con importante documentación. La muestra, que se extenderá por todas las salas de exposiciones temporales de la ampliación del museo, continuará con temas épicos y finalizará con los relacionados con Grecia y con las últimas obras en las que se produce una vuelta al clasicismo. El gran valor económico de las obras de Bacon ha contribuido a que ésta haya sido una de las exposiciones más difíciles de organizar.






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Fonte: elCultural.notícias
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Gostaria que minhas pinturas dessem a impressão de que um ser humano passou pelo meio delas, como uma lesma, deixando aí rastros de sua presença e resquícios da memória de eventos passados, assim como uma lesma deixa rastros de sua baba ...
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Francis Bacon
in Osborne, H. Docionário Oxford de Arte. São Paulo. Martins Fontes. 1998

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