domingo, 21 de março de 2010

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à luz das conversas

(...)




despeço-me


mas antes, devo uma palavra de gratidão a quem, explicita ou implicitamente, alimentou as páginas deste caderno. Infinitamente grata a quem aqui deixou marca (a quem me marcou) e aos 110359 visitantes que, até hoje, foram húmus, alimento, para as mais de mil folhas que revestem esta estranha árvore.


iv* 


As flores ________ as que colhi, as que me ofereceram e, sobretudo, as que nasceram na árvore ________ as flores do espanto, as bravias que não pediram para nascer, são para as poetas, para os poetas _______ eternos enigmas da criação







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quinta-feira, 18 de março de 2010





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Toda a gente forceja por criar uma atmosfera que a arranque à vida e à morte. O sonho e a dor revestem-se de pedra, a vida consciente é grotesca, a outra está assolapada. Remoem hoje, amanhã, sempre, as mesmas palavras vulgares, para não pronunciarem as palavras definitivas. E, como a existência é monótona, o tempo chega para tudo, o tempo dura séculos.




Raúl Brandão
 
 
 
 
 
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fotografia http://www.portugalnotavel.com/a-ilha-praia-de-tavira/













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sábado, 13 de março de 2010







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Depois de tirar a roupa, atirou-se ao rio e pôs termo à vida. Vítima de bullying, a única saída possível foi a morte. Chamava-se Leandro, frequentava o sexto ano de escolaridade e tinha doze anos. E onde estavam todos? Onde andavam enquanto esta criança foi reiteradamente humilhada pelos colegas? Ninguém deu a menor importância a nenhum dos sinais de aflição? Oiço a notícia em forma de náusea na Rádio e à noite com sentimento de horror vejo-a confirmada num qualquer canal de televisão, já com sons de funeral. Uma informação monstruosa: a do rapazinho que se atirou ao Tua porque sofria violência física e psicológica por parte dos companheiros da escola face à paralisante imobilidade dos que o rodeavam. Com o espírito cheio de escárnio e desprezo deviam actuar em grupo, rir-se às gargalhadas e achar um piadão, cérebros de pigmeu, carcereiros de nojo. A valeta e o que nela vive fascina-os. Mancham as mãos com o sangue dos outros. Há o rapagão, com brutalidade no riso, que espanca e o miúdo frágil que exposto ao perigo sofre as agressões em silêncio porque tem medo e vergonha. É assim, sentem-se grandes, fortes e estupidamente engraçados por sujeitarem os que estão sozinhos ou são menos combativos, a situações vexatórias e cruéis; ignóbeis petrificados na insensibilidade mais absoluta que se enaltecem por arrastarem pela lama a auto-estima de inocentes. Indivíduos brutos, rudes com o objectivo de intimidar ou crucificar outro indivíduo incapaz de se defender. Repugnantes ameaças de forma continuada ao longo do tempo, sentiu aquele miúdo que nem sequer completou a Primavera. Praxar, rebaixar, envergonhar, agredir porque a lei que prevalece é a do mais forte e a do que está mais escoltado. Era uma criança calma, carinhosa e sensível, perfume leve e, ao contrário do irmão gémeo, nunca se conseguiu defender, talvez pretendesse dos outros apenas mera humanidade. Não era o super-homem; não era sequer rapaz encorpado; um menino assustado, uma vida em colherinhas de medo, uma sinfonia de tristeza. Dias de angustia, agitada e espasmódica. Vida pornograficamente curta, cheia de momentos e dias trágicos, amargos, sinistros nos seus avisos. Para ele havia apenas uma estação, a do sofrimento. Já tinha estado internado no hospital, há um ano, depois de ter sido pontapeado na cabeça. Um entre vários episódios de violência de que terá sido vítima. Cansado da tortura de quase todos os dias, agora é simplesmente um número que se encontra numa comprida galeria de vítimas, um dos muitos números sem vida. Desconhece-se o paradeiro do seu corpo, apenas que o tormento para ele foi um longo instante. As buscas alargadas até à foz do Tua e interrompidas sem sinal do cadáver: 130 homens da Protecção Civil, PSP e GNR e ainda cães treinados procuram Leandro. Alguém lembra ao Ministério da Educação uma frase de Antoine de Saint-Exupéry: «Todas as grandes personagens começaram por ser crianças, mas poucas se recordam disso». Amália e Armindo, pais da criança, debaixo de uma grande emoção, entorpecidos pela dor mais profunda, almas feridas de desgosto choram em desespero a morte do filho. Não têm palavras para exprimir a aflição e a desgraça. Em choque, deixam apenas as lágrimas correr pela face. O horror de pensar que uma existência se esgota de uma maneira revoltante. Estremeço com um apavorante pensamento: - "Podia ser o meu filho”.







 





Escrito por Luís Galego, http://infinito-pessoal.blogspot.com/














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... ,

..., ...

o silêncio do inocente

...






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Agradeço a Maria Manuela Cruz Gois a oferta da belíssima AGENDA "As Mulheres e a República", produzida pela UMAR  http://www.umarfeminismos.org   no ano em que a República comemora o seu 1º centenário.
Esta agenda põe as mulheres da Republica na ordem dos dias; efeminiza os dias da História ...




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segunda-feira, 8 de março de 2010

Hoje, especialmente hoje, quero frésias pela manhã ... e a poesia de Tolentino






Frésias são flores com cheiro a chá
e ela, aos trinta e sete anos, preferia-as
às flores que se vendem por aí
admitia a beleza mas não o esplendor
porque são tristes as repetições
num instante se tornam saberes
e ela, aos trinta e sete anos,
prezava apenas os segredos que mesmo ditos
permanecem como segredos

(em certas épocas, por alguma porta esquecida
escapava-se, sonâmbula, para o pátio
que dá acesso à mata
e, por vezes, iam buscá-la
gritando o seu nome ou com a ajuda dos cães
já muito longe de casa

tinha por hábito acender fogueiras
de que, depois, se esquecia
e por isso também os aldeões
a temiam)

nunca compreendeu a natureza da vida doméstica
intensa e aflita criança
incapaz de certezas

o que de mais belo soube
sempre o disse, de repente,
a alguém que não conhecia.





José Tolentino Mendonça, Baldios, Assírio e Alvim, p.21-22






















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sexta-feira, 5 de março de 2010

Cuando se cumplen 200 años del nacimiento de Fryderyk Chopin, Justo Romero, autor de Chopin, raíces de futuro, nos ayuda a desmitificar el perfil excesivamente blando y melancólico de un innovador implacable.







A pesar de ser uno de los compositores más populares de la historia de la música, Chopin es, al mismo tiempo, uno de los músicos más erróneamente apreciados. Un artista aparte, sin el menor parecido con cualquiera de los músicos de su tiempo, como reconocía su amigo Héctor Berlioz. Detrás de su aspecto asequible que parece tocar directamente al corazón sensible del oyente, su música oculta una personalidad “honda y violenta como un cráter en el océano”, por utilizar la expresión de su paisano Ignacy Jan Paderewski. “A Chopin”, escribe su amante George Sand, “no lo conoció, ni lo conoce todavía, la gran masa. Será menester que se operen grandes progresos en el gusto de la inteligencia del arte para que sus obras se popularicen. Llegará un día en que todo el mundo sepa que aquel genio tan inmenso, tan completo, tan sabio como cualquiera de los grandes maestros que asimiló, encerraba una individualidad más exquisita incluso que la de Johann Sebastian Bach, más poderosa todavía que la de Beethoven, más dramática incluso que la de Weber. Es como los tres juntos, pero también él mismo, es decir, más refinado en el gusto, más austero en la grandeza, más desgarrador en el valor”. Hoy, 200 años después de su nacimiento, estas palabras quizá exageradas se mantienen vigentes. Su modernidad implacable permanece intacta. Sin embargo, ni la musicología ni los maravillosos intérpretes que en los últimos decenios han acometido la obra de Chopin desde perspectivas alejadas de la cursilería han logrado ubicarle en el puesto que le corresponde entre los más rotundos innovadores de la historia de la música.

Justo ROMERO

http://www.elcultural.es/

quarta-feira, 3 de março de 2010









O texto é a única forma de identificar o sexo e a humanidade de alguém porque, ó poeta estranho, o sexo de alguém, é a sua narrativa. A sua, ou a que o texto conta, no seu lugar. Assim o sexo será como for o lugar do texto.


Quando se deseja alguém, como tu desejas Infausta, e ela deseja Johann,
é o seu lugar cénico que se deseja,
os gestos do texto que descreve no espaço
e chamar-lhe
precioso companheiro;
de mim, direi que fui uma vez enviado,
trouxeste a frase que nunca antes leras,
o meu corpo a disse, e não reparaste que ficaste com ela escrita.


Maria Gabriela Llansol
in Lisboaleipzig II, 1994











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Dedico esta página do Caderno à Daniela e ao "encontro inesperado do diverso", que marcou hoje, inesperadamente o nosso re.encontro, quando cruzávamos, distraídas, em sentido inverso, os degraus do tempo e a conversa nos levou para uma espantosa convergência (com Llansol em fundo ...). Um bom dia.


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