quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Letra livre



Uma pequena livraria, de livros novos e usados, localizada no centro de Lisboa especializada em literaturas de língua portuguesa e ciências humanas. Antropologia, África, Brasil, Género, História social, Lisboa, Literatura, Poesia, Política. Destaque para as pequenas editoras independentes: Antígona, Apenas, Aquário, Averno, Deriva, Dinossauro, Edições Mortas, &etc, Ela por Ela, Fenda, Frenesi, Ulmeiro (aqui http://www.letralivre.com/ encontra raras preciosidades. estudos e joias literárias de limitadíssima tiragem)




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Pela Calçada do Combro (hoje deambulando ...)
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Esta rua histórica que divide o Bairro Alto do Bairro da Bica, unindo o Chiado a São Bento, foi, desde o século XIX, um eixo central do coração da cidade que ligava dois bairros populares onde os livros, os jornais e a luta política e social faziam parte do quotidiano.
Mas, se a importância dos jornais, das tipografias e das organizações sindicais e sociais cresceu significativamente a partir do começo do século XX, desde o século XVIII, estes bairros de Lisboa tinham uma forte ligação ao comércio livreiro e à indústria tipográfica como demonstra a Igreja de Santa Catarina, cuja responsabilidade cabia à Confraria dos Livreiros.
Lojas Maçonicas, choças Carbonárias, jornais sindicais, republicanos e anarquistas, bem como inúmeras tipografias espalhavam-se por ruas e vielas destes dois bairros, vizinhos do Chiado, mais tradicional e burguês. As tascas e cafés da Bica e do Bairro Alto, tal como as da Rua da Misericórdia, onde funcionava o famoso Café dos Anarquistas, praticamente ao lado da editora Guimarães, uma das mais importantes da época, eram locais de encontro de intelectuais e operários envolvidos, primeiro, na luta contra a monarquia e, depois, nas lutas sociais da Primeira República. A Greve, diário operário criado em 1908, funcionou na Rua Luz Soriano e a Casa Sindical, inaugurada em 1912, no Palácio do Marquês de Pombal na Rua do Século até à sua invasão pela polícia da república. Próximo, na Rua da Barroca, teve também sua redacção A Sementeira, a principal revista libertária feita por trabalhadores no começo do século XX. Mas inúmeras outras publicações, folhas volantes e editoras, mais ou menos duradouras, e as tipografias onde eram impressas dividiam o espaço comercial dos prédios destes bairros populares.
Na Calçada do Combro nº 38-A, onde já havia tido sede, em finais do século XIX, o jornal Revolução de Setembro de Rodrigues Sampaio funcionou, a partir de 1919, no antigo Palácio dos Castro Marim, depois conhecido por Palácio do Correio Velho, a sede da Confederação Geral do Trabalho, a CGT anarco-sindicalista, e do seu jornal A Batalha a principal publicação operária e sindicalista da Primeira República. Por este palácio circulavam, juntamente com centenas de trabalhadores de diversos ofícios, intelectuais como Ferreira de Castro, Pinto Quartim, Manuel Ribeiro, Campos Lima, Emílio Costa, Jaime Brasil, Mário Domingues e tantos outros colaboradores de A Batalha e dos seus suplementos literários. Encerrada, assaltada, pilhada pelos diferentes governos republicanos e, finalmente, proibida a CGT e A Batalha tiveram de abandonar definitivamente a Calçada do Combro com a Ditadura do chamado Estado Novo. A Calçada do Combro foi assim nas primeiras décadas do século XX a via estratégica por onde passavam as manifestações operárias que após concentração na Praça de Camões seguiam até ao Parlamento em São Bento para reclamar ou protestar.
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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

A Tábua das Marés




Fotografia gabriele rigon






A barca desliza pela água com extrema suavidade. Mais do que golpear a água, os remos pensam-na, saboreiam-na. E a água, mais do que tolerar, recebe o suave peso. De tanto pensar a água, de puro Norte, a barca está desorientada.
Madeira e água desejam-se.
Há dois lábios de água para cada pedaço de madeira e uma boca de água para cada remo. O céu do paladar dessa boca de água é feito de espuma tranquila e a tranquilidade é o ensino que reparte o prazer, na forma de erecção deslizante.
O homem assiste a este espectáculo da suavidade com a boca seca e chama em seu auxílio a saliva. Apercebe-se de que acaricia os punhos, em círculos que se encerram na palma das suas mãos.
Da mesma maneira a água pule a madeira, a madeira é o polimento da água e os olhos aquosos do homem que rema sem remar parecem pérolas nesta cena nacarada.
Durante um longo tempo, o homem não se atreve a abandonar este estado nem a persistir nele.
Agora, a madeira está a ponto de incendiar a água e está a ponto de arder. Levanta o olhar e, do centro da ria, o homem contempla as margens.
Um denso bosque tomou conta da margem esquerda e fechou todas as suas entradas com os persuasivos cadeados das silvas. Coroando um monte inacessível, ergue-se a igreja negra. A agulha da torre do campanário parece cravar-se nas nuvens que chovem sobre a igreja e fazem-na brilhar como charão.
A margem direita é um jardim prolongado. O homem segue do barco a linha de cores até chegar ao roseiral, em cujo centro se ergue uma igreja branca.
Olha a igreja branca, na sua margem impudicamente soalhada e estremece quando a torre do campanário desperta com o som do carrilhão, que se expande rapidamente.
O homem dispõe-se a remar até à margem direita quando o único sino da igreja negra começa a repicar. Volta a cabeça para a margem esquerda. Os espinhos das silvas parecem ganhar vida e cravar-se no som, e o som profundo do sino parece trespassá-las. A música da igreja negra concentra-se.
O homem faz por remar para a margem direita, mas a margem esquerda impede-o. O homem vira as costas à margem esquerda quando na realidade quer ir ao seu encontro.
As mãos agarram-se agora aos remos, que começam a golpear a água. Madeira e água repelem-se, chamando-se. Madeira e água deixam de se acariciar e tocam-se.
Começa a levantar-se a ondulação, a água começa a subir a costa e a madeira a baixá-la, começa o outro prazer.
E o homem que olha a marulhada e que é parte dela, o homem que mal escuta agora o débil carrilhão da igreja branca, sente um intenso desejo de se atirar à água, de se despedaçar nela.




Menchu Gutiérrez , em " A tábua das marés ", 2000, editorial Teorema, Lisboa

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Chaconne for solo violin - Johann Sebastian Bach

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Saia dá medo ?




A roupa, alguém o afirmou, é um artefacto cultural.

Já em 2002, o prestigiado museu londrino Victoria and Albert, realizou uma exposição intitulada Men In Skirts (Homens de Saia) , em que se discutia se a saia também é roupa de homem, com o objectivo de expandir as fronteiras do vestuário masculino e desconstruir uma ideia feita.
A própria definição de saia pode ser bem ampla: os kaftans, por exemplo, tão populares nos anos 70, entraram na exposição.











Saia para homem por Gaultier

Macho e fêmea

Uma das funções da roupa é demarcar os géneros, diferenciar o macho da fêmea.
Mas isto é feito de forma diferente de acordo com a cultura. Se no mundo ocidental os homens vestem maioritariamente calças, em certas partes da Ásia e da África tanto homens quanto mulheres usam saia. Mas houve uma época em que os homens ocidentais incluíam a saia nos seus guarda-roupas.


















Foi a evolução da alfaiataria, a partir do século XIV, que impulsionou a especialização da vestimenta.
Aos poucos, a roupa do homem tornou-se intrinsecamente associada à masculinidade.



O estilista Rifat Ozbek acha que os homens têm medo de que a saia vá alterar a sua sexualidade.
Desde os anos 60, vários estilistas de moda tentaram reintroduzir a saia como uma forma aceitável de um homem se vestir.
Frequentemente pegando emprestado aqui e ali culturas e eras diversas, alguns designers inventaram e reinventaram a saia para homem.

Saia como símbolo

Em alguns momentos, estas roupas foram adoptadas pela contra-cultura, com grupos como hippies, punks e os novos românticos adoptando a saia como um sinal de rebeldia.
Os gays também adoptaram a saia como um símbolo de um estilo de vida alternativa.
Mais recentemente, a saia foi usada como uma forma de mostrar que um homem pode estar na moda. Isto pode ser feito por homens que têm o poder de formar opinião e ditar a moda como desportistas, estrelas pop ou artistas de cinema.
Músicos como Caetano Veloso e Gilberto Gil e o jogador de futebol inglês, David Beckham - num modelo assinado por Jean-Paul Gaultier - foram notícia na imprensa por usarem saias ou sarongues.
Com excepção da saia escocesa, o kilt, os homens continuam muito receosos na hora de vestir qualquer tipo de saia.
Através do trabalho dos designers contemporâneos (em que se inclui o português Miguel Vieira, para mim, um dos melhores), a ideia de homens de saia ganha um novo sopro de vida.


Para quando, másculos e maternos de saias ? Senhores de si ... homens do seu tempo, de um tempo rei de múltiplos artefactos. Não me iludo ...

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Tempo Rei [King Time] - Gilberto Gil

sábado, 14 de fevereiro de 2009

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"the essential is no longer visible" - Heiner Müller

O belo é a fera

Foto Por Joel Calheiros


fotografia http://www.saudek.com/en/jan/uvod.html






Desbaratamos deuses, procurando
Um que nos satisfaça ou justifique.
Desbaratamos esperança, imaginando
Uma causa maior que nos explique.
Pensando nos secamos e perdemos
Esta força selvagem e secreta,
Esta semente agreste que trazemos
E gera heróis e homens e poetas.
Pois Deuses somos nós. Deuses do fogo
Malhando-nos a carne, até que em brasa
Nossos sexos furiosos se confundam,
Nossos corpos pensantes se entrelacem
E sangue, raiva, desespero ou asa,
Os filhos que tivermos forem nossos.





José Carlos Ary dos Santos

PABLO HELGUERA: SUITE PANAMERICANA







Havia um tempo em que a arte se resumia à simplicidade de uma tela, uma escultura, uma partitura executada por uma orquestra. Este tempo não existe mais. Em seu lugar, surgiu uma selva de referências, uma colcha de retalhos intermináveis, cujas possibilidades se multiplicam em diferentes meios e linguagens. O novo trabalho do artista conceitual Pablo Helguera sintetiza perfeitamente esta nova ordem mundial. Durante meses, Helguera e alguns outros membros da The School of Panamerican Unrest (SPU) fizeram uma longa viagem de carro pelas Américas, partido de Anchorage, no Alaska e indo até Ushuaia, na Argentina, fazendo uma série de paradas ao longo do caminho. Em cada uma dessas paradas, por meio de performances, workshops, sessões de vídeos e debates, a SPU deu início a uma gigantesca troca de idéias, concentradas nas colagens integrantes da mostra “Suite Panamericana” (...) o ambicioso projeto de Helguera estende seus tentáculos por um site, um blog e um documentário.






sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009


e se te dissesse que somos contemporâneos da litania da loucura urbana? tu mais de Goethe eu mais da Síria. nós pó do mundo.e o mundo seco de nós. incondicionais fluxos. rebentação de protões que os olhos não dissecam e a alma não canta.disse-te a chave. e o dia nasceu. biográfico. como proust sem tempo. achado no chão de uma metáfora. brevíssima.

Texto de isabel mendes ferreira em Livro invisível

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Psicoclaustrofonia



fotografia Katia Chausheva



uma casa desarmada em flor bebe o arco-íris
pela aorta
engole fraccionadamente a mulher
que contrariada respira ar de brita
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nariz contra o espelho – foz errada
beijar inverso:
planos côncavos deterioram outros convexos
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frivolidade das arestas, a mulher invertida
a alienar uma epiderme mais espessa
que de estranha deixa corroê-la
pela borrasca intestinal
febre do stress
anjo-reflexo (...)




Porfírio

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fragmento do poema PSICOCLAUSTROFONIA (III), arrancado a ESTE imenso
poderoso
sôfrego januellarium







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regressada do X Congresso com uma mala de livros. recomendáveis. (com)vividos

" A gramática do tempo: para uma nova cultura política ", (2006) Ed. Afrontamento

Com base em trabalhos anteriores, o autor ( Boaventura de Sousa Santos) considera que as sociedades e as culturas contemporâneas são intervalares: situam-se no trânsito entre o paradigma da modernidade, cuja falência é cada vez mais visível, e um paradigma emergente ainda difícil de identificar. Esta transição tem duas dimensões principais: uma epistemológica e outra societal. A transição epistemológica ocorre entre o paradigma da ciência moderna (conhecimento-regulação) e o paradigma emergente do conhecimento prudente para uma vida decente (conhecimento-emancipação). A transição societal, menos visível, ocorre entre o paradigma dominante- sociedade patriarcal; produção capitalista, consumismo individualista e mercadorizado; identidades-fortaleza; democracia autoritária; desenvolvimento global, desigual e excludente - e um novo paradigma, ou conjunto de paradigmas, de que apenas podemos vislumbrar sinais. A argumentação centra-se em três grandes campos analíticos: a ciência, o direito e o poder. (...)


" A diferença ", (2002) Fenda Edições, Lisboa
As identidades culturais têm uma densidade histórica. Conforme se demonstra na obra de Michel Wieviorka, é necessária uma articulação entre as identidades específicas (de género, nação, religião, etnias e outras) e a modernidade universal, para evitar dois riscos: por um lado, o diferencialismo extremo, que pode conduzir à intolerância, ao racismo, ás guerras religioas e nacionalistas; por outro lado, a valorização excessiva da modernidade do mundo ocidental, com as violências que, por vezes, a acompanham.


" O tempo, as culturas e as instituições ", (2008) Edições Colibri, Lisboa
Esta obra, colige os seguintes textos e autores:
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Time, money and the cultural divide - Robert Livine
Modos de governação do tempo - Emília Araújo
Tempo a ganhar, tempo a perder - Maria Johanna Schouten
Représentation du temps et archives de la pensée: les devises de cadrans solaires - Jean-Marc Ramos
O tempo insuspenso. Uma aproximação a duas percepções carcerais da temporalidade - Manuela Ivone Cunha
Andante, andante: tempo para andar e descobrir um lugar - João Teixeira Lopes
Breve reflexão sobre a "linguagem silenciosa" do tempo, de Edward Hall - Ricardo Gouveia

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O XI Congresso Luso-Afro-Brasileiro, em 2011, será em S. Salvador da Baía e, em 2012, em Cabo Verde.

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A Assembleia-Geral do Congresso Luso-Afro-Brasileiro decidiu que o próximo Congresso de Ciências Sociais será em 2011 em São Salvador da Baia, no Brasil, disse à Lusa fonte da organização.
Manuel Carlos Silva, responsável da organização do X Congresso, que terminou dia 7 em Braga, adiantou que o encontro será, em princípio, organizado por várias universidades de São Salvador da Baia.
Os congressistas debateram a possibilidade de o próximo congresso se realizar em Cabo Verde, tendo agendado o 12º encontro, em 2012, naquele país africano.
A assembleia-geral seguiu-se à sessão de encerramento do X Congresso Luso-Afro-Brasileiro, que decorreu durante quatro dias na Universidade do Minho, em Braga, e que juntou 1600 investigadores de Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe, e Timor-Leste.

This Star is Mine


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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Tacteando enigmas . dobrando cismas


«O ENIGMA DE UMA JANELA O fascínio de uma janela está em que se vê de fora para dentro e de dentro para fora, mas de tal maneira que as duas visões não são coincidentes. Escreveu M.-A. Ouaknin: “A janela é um objecto misterioso. Ela abre para a intimidade e para o mundo”. Ela é “fronteira, limiar e sonho”. O que se vê de fora para dentro tem sempre a ver com o oculto, o segredo, a intimidade, o sagrado. E o que se vê de dentro para fora? Baudelaire escreveu: “Je ne vois qu’infini par toutes les fenêtres”: só vejo infinito por todas as janelas. Através de uma janela, não se vê apenas o que está aí, à frente dela. Uma janela dá para o ilimitado, para o infinito.»




Anselmo Borges, "A janela do (in)finito ", Campo das letras, 2009




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