domingo, 30 de março de 2008

Linhos e unguentos



Fotografias © Flor Garduño



Penso linhos e unguentos
para o coração machucado de Tempo.
Penso bilhas e pátios
Pela comoção de contemplá-los.
(E de te ver ali
À luz da geometria de teus atos)
Penso-te
Pensando-me em agonia. E não estou.
Estou apenas densa
Recolhendo aroma, passo
O refulgente de ti que me restou.




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Hilda Hilst " Penso linhos e unguentos "


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quarta-feira, 26 de março de 2008

Materno e Másculo

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“É importante saber de onde provém o prazer de contemplar um quadro. Para mim, é a alegria de viver combinada com a sensualidade das formas. É por isso que o meu problema é criar sensualidade através da forma.”








Botero

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terça-feira, 25 de março de 2008

Luxo

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Profusamente decorado; belíssimos azulejos, tectos em estuque densamente trabalhados, o chão de madeira a ranger à nossa passagem, um pé direito de perder de vista, pátios interiores a ecoar estórias antigas, uma luz meiga a entrar pelas vidraças e ... uma pesada chave de ferro na mão a rondar as portas que se abrem , ruidosas, para um magnífico quarto de época.

Não tem hidromassagem, nem video vigilãncia, nem ...
mas é um luxo !

Situado na margem esquerda do Guadiana, na cidade de Moura, este fabuloso edifício, antigo convento da Ordem Militar de São João de Deus, do século XVII, convertido em hotel em 1900, é um verdadeiro luxo. Situado na Praça Gago Coutinho nº1, em pleno centro histórico de Moura, o hotel de Moura arrebata os sentidos.

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Este belo refúgio, perdido no Alentejo profundo (com acesso à internet), dispõe de três dezenas de quartos, um bar (onde se bebe um Porto maravilhoso) e uma sala com lareira, ideal para ler, namorar e fazer deslizar o serão nas peças gastas dos tabuleiros de xadrez, que por ali se oferecem, amigáveis aos nossos dedos. Ambiente único, requintada simplicidade, luxuosa lentidão.


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Nesta Páscoa chuvosa esteve sempre esgotado com turistas espanhois que vieram de longe para disfrutar deste luxo. Portugueses apenas meia dúzia. O recepcionista disse que é sempre assim, que os portugueses vão sempre para os mesmos sítios ...

Também disse que o belíssimo edifício do mercado, visita a que sempre me obrigo, está morto, oco por dentro, porque " à volta de Moura nem uma alface se planta, vem tudo de Espanha e vai para os hipermercados ". E a nossa identidade está a perder-se ... acrescentou desalentado.

E é verdade ... o mercado é um desalento. Lá dentro o silêncio e as bancas vazias, espelham o abandono. Animais de hábitos, os homens juntam-se ali, á porta, a queimar tempo e a ver passar os espanhois ... as mulheres sempre se vão entretendo. Os jovens ? Não sei ...


(A igreja, austera e em recuperação, estava vazia, o museu municipal fechado, as caixas multibanco sem dinheiro e ... no coreto, em vez da banda, os altifalantes da Rádio Planície )



quinta-feira, 20 de março de 2008

Passo a Passo ...


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AZUL SOBRE AMARELO, MARAVILHA E ROXO

Desejo, como quem sente fome ou sede,
um caminho de areia margeado de boninas,
onde só cabem a bicicleta e seu dono.
Desejo, como uma funda saudade
de homem ficado órfão pequenino,
um regaço e o acalanto, a amorosa tenaz de uns dedos
para um forte carinho em minha nuca.
Brotam os matinhos depois da chuva,
brotam os desejos do corpo.
Na alma, o querer de um mundo tão pequeno,
como o que tem nas mãos o Menino Jesus de Praga.




Adélia Prado

http://virtualbooks.terra.com.br/padregabriel/adeliaprado/links_adelia.htm

A poesia no seu dia..

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ccb/Sala de Leitura/


"Que outros se gabem dos livros que lhes foi dado escrever, eu gabo-me daqueles que me foi dado ler."
Jorge Luis Borges (1899-1986)

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O Dia Mundial da Poesia comemora-se a 21 de Março, sexta-feira, por iniciativa da UNESCO, que o proclamou em 1999 com o objectivo de defender a diversidade linguística.

No sábado, o CCB, tutelado pelo Ministério da Cultura, associa-se ao Plano Nacional de Leitura - para assinalar a data numa maratona de iniciativas entre as 12:00 e as 20:30, que culminará com um espectáculo no Grande Auditório.

Da programação constam, entre outras, uma feira do livro de poesia na recepção do centro de reuniões e uma exposição de poesia visual de Ana Hatherly, com cerca de 150 desenhos, oficinas de desenho, pintura e colagem inspiradas na obra da poeta e artista plástica portuguesa, que estará patente até 20 de Abril.

Também foram convidados actores e poetas, entre outras personalidades, para declamar, nomeadamente as actrizes e actores Suzana Menezes (dirá Natália Correia), Pedro Lamares (Al Berto), Beatriz Batarda (Sophia de Melo Breyner Andresen), e Diogo Dória (Herberto Helder).
Estarão presentes igualmente os poetas Ana Hatherly, Ana Luísa Amaral, Fernando Luís Sampaio, Gastão Cruz, Nuno Júdice, Manuel Alegre, Manuel António Pina, Pedro Tamen, Vasco Graça Moura e walter hugo mãe.

Na Sala de Leitura, estão previstas conferências de Fernando Pinto do Amaral sobre Cesário Verde e Osvaldo Silvestre sobre a poesia de Luís Quintais.

Outra iniciativa original é o "Espaço de Troca", onde o público poderá dirigir-se com livros e trocá-los por outros, não sendo permitido o uso de dinheiro.

No espaço "Diga Lá um Poema" - onde estarão como convidados José Jorge Letria e José Fanha - haverá poesia dita por personalidades públicas, mas qualquer pessoa pode participar.

Estará instalado um estúdio de gravação com um estrado e um microfone e o público é convidado a dizer poesia frente a uma câmara, sendo as gravações passadas em simultâneo no foyer dos Auditórios e em diferido junto à Sala de Leitura, em televisores montados para o efeito.





© 2008 LUSA

quarta-feira, 19 de março de 2008



O MEDO

Ah o medo vai ter tudo
tudo
(penso no que o medo vai ter e tenho medo
que é justamente o que o medo quer)
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O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho havemos todos de chegar
quase todos
a ratos
sim, a ratos


De Alexandre O'Neill, O Poema pouco original do medo
colhido NESTE delicado viravirou

Museus, museólogos e Museologia ________________ à distância de um clique


Campanha para que o logótipo da GOOGLE assinale o Dia Internacional dos Museus 2008


terça-feira, 18 de março de 2008

como George Sand e Musset


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como george sand e musset tu e eu. desmedidos nas vogais. bem abertas.abusadoras.ardentes.logo consumidas. com os dentes. o contrário dos semelhantes. livres enquanto cumes abismos fendas. cépticos do amor. irreconciliáveis. inseparáveis.tendencialmente obedecendo a rituais ora ternos ora ásperos densos leves .de contrastes sumptuosos. dois como um na semântica sedosa e errática de um penhasco virtual onde a terra e a maré alta se afundam. não decidimos ainda quem procura quem. viajamos à deriva na deriva de uma forte vaga que em si mesma é excêntrica e intrínseca como se um sem o outro não soubessemos beber o excesso de uma existência ébria de existir.lá fora o piano explode.tu desenhas mais uma estrófe de línguas . um perfil. eu toco-te. tu estremeces. tu cegas.eu abandono-te. tu desistes.como sand e musset numa itália imaginária. e a água lustral corrige.me.


IMF, em o livro invisivel














... quase Páscoa
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quase primavera
quase poesia
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quase dia.
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Uma vez ...

... uma mulher idosa foi ter com Buda e perguntou-lhe como meditar. Buda disse-lhe que tomasse consciência de todos os movimentos das suas mãos quando tirava água do poço, porque sabia que se ela assim o fizesse, em breve se encontraria naquele estado de atenta e espaçosa calma que é a meditação.
A prática da tomada de consciência, trazendo de volta a mente dispersa e, portanto, focando também os diferentes aspectos do nosso ser, é denominada "permanência calma" e leva a cabo três coisas: em primeiro lugar, todos os aspectos fragmentados de nós mesmos que estiveram em guerra uns com os outros arrumam-se, dissolvem-se e tornam-se amigos, e é essa arrumação que nós começamos a compreender um pouco melhor e por vezes, até temos relances da radiância da nossa natureza fundamental.
Em segundo lugar, a prática desarma a nossa negatividade, a agressão e as emoções turbulentas, que podem ter acumulado grande poder ao longo de muitos anos de vida. Aqui, em vez de suprimir ou saciar as emoções é importante encará-las - e aos pensamentos e tudo o mais que possa surgir - como a aceitação e generosidade tão abertas e amplas quanto possível. Os mestres tibetanos dizem que esta sábia atitude tem o sabor dos espaços infindáveis, tão calorosos e confortáveis que nos sentimos rodeados e protegidos por eles, como se estivéssemos envoltos por um coberto de luz do sol.



Rinpoche, Sogyal, "O Livro Tibetano da Vida e da Morte", Lisboa, Difusão Cultural, 1992

segunda-feira, 17 de março de 2008




Como si fuera ... la ultima vez

O beijo ocorreu por ocasião da visita de Gorbachov à RDA, em 1989, no qual Honecker pediria apoio para endurecer o regime. A resposta, como hoje é sabido, isolaria Honecher e levaria a sua substituição e posterior derrube do muro de Berlim. Foi de facto a última vez .


Jamais esquecerei a viagem à antiga RDA, em 1986 ... a chegada a Berlim leste, num dia sombrio com sete graus negativos. A imponente Alexanderplatz ... os armazéns " Centrum " (que, no interior, faziam lembrar os antigos armazéns do Chiado, em Lisboa) , a unter den linden , a histórica Avenida das Tílias, cortada a meio pelo muro. A permanente vigilância ... os discursos sobre o "homem novo" e as virtudes do Socialismo ... as conversas surrealistas com os então jovens, da minha idade, sobre o mundo "lá fora"; o mundo fantasiado ... idolatrado por uns / diabolizado por outros ... inacessível para todos.
Berlim era uma cidade clean (demasiadamente clean), parada no tempo, suspensa ... mas, simultaneamente rara, atraente, cinematográfica, literária. Não esqueço a entrada triunfante na Opera Estatal de Berlim, com os seus habitués ritualmente vestidos para a ocasião, enquadramento perfeito para a magistral interpretação da "Aida" de Verdi. e ... mesmo ao lado, o fabuloso Teatro Reinhart ... uma estranha sensação de viajar no tempo ... de tocar relíquias esquecidas num beco da História ... era assim como desfolhar as páginas de uma revista antiga, de um qualquer deutsch " Século ilustado ", a três dimensões, em contra-tempo. Perturbador e fascinante ...

Completamente Good Bye, Lenin!

domingo, 16 de março de 2008

Os amores - Ovídio


Os amores, V: 1-1, 9-26 (Ovídio)




Era intenso o calor, passava do meio dia;
Estava eu em minha cama repousando.

(...)

Eis que vem corina numa túnica ligeira,
Os cabelos lhe ocultando o alvo pescoço;
Assim entrava na alcova a formosa Semiramis,
Dizem, e Laís que amaram tantos homens.
Tirei-lhe a túnica, mas sem empenho de vencer:
Venceu-a, sem mágoa, a sua traição.
Ficou em pé, sem roupa, ali diante de meus olhos.
Em seu corpo não havia um só defeito.
Que ombros e que braços me foi dado ver, tocar!
Os belos seios, que doce comprimi-los!
Que ventre mais polido logo abaixo do peito!
Que primor de ancas, que juvenil a coxa!
Por que pormenorizar? Nada vi não louvável,
E lhe estreitei a nudez contra o meu corpo.
O resto, quem não sabe?
Exaustos, repousamos.
Que outros meios-dias me sejam tão prósperos
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quarta-feira, 12 de março de 2008


Fotografia Sérgio Jacques

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Túmulos e túmulos de vítimas de amor, sangue de Inês manchando eternamente a pedra sob as águas, já mineral, já rocha, sangue endurecido dos amantes imolados a uma aparência de não sermos finalmente nós, cântico de todos os mortos por amor clamando sobre as águas, sereias de morte gemendo e cantando o maior silêncio da consciência, Oh vontade da fusão, vontade de morte. Oh medo de sermos apenas, apenas sós, apenas isto, Amor, amor sexto oceano da realidade, amor lava ardente, amor voragem, amor fosso, amor vórtice, amor abutre, amor sapo!



Ana Hatherly__________________________________

Aqui
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12.ª Mesa-Redonda de Primavera

CONHECIMENTO E PRAZER
PRAZER DO CONHECIMENTO
TEMA E OBJECTIVOS


Ficha de inscrição

A nossa tradicional maneira de pensar destacou demasiado a cultura da vida, o saber do senso comum. Numa sociedade de cultura de massas, impõe-se que “o saber universitário” constitua cada vez mais um recurso público, não só porque isso é a própria justificação da sua constante produção e transmissão, mas também porque as sociedades complexas de hoje não podem prescindir de conhecimentos que tornem a vida mais digna de ser vivida.
As humanidades e as ciências sociais, em particular, acumularam um vasto património necessário ao equilíbrio e ao governo da comunidade, de que hoje pretendem usufruir todas as pessoas, tanto no seu trabalho como no seu lazer, embora com diferentes modos de recepção e fruição.
Ninguém gosta de se sentir ignorante, e todos sabem que a “escola da vida” não chega: para se sobreviver e sobretudo para se ser feliz e sentir realizado(a) são precisas competências novas. E o problema da formação, repetem todos, é o problema basilar do nosso país.O objectivo principal desta mesa-redonda é responder à questão geral e absolutamente básica, sob diferentes pontos de vista: como podemos tornar a “cultura” “apetecível”, realizando melhor a fusão entre prazer e saber? Como é determinado campo de saber, que é mais uma perspectiva que um domínio fechado, pode contribuir para o nosso bem-estar e felicidade?
Os sub-temas abaixo indicados são apenas por ora indicativos, para se proceder a convites. Apelam muito à experiência de cada investigador, no sentido deste explicar, afinal, qual o prazer que lhe dá o saber que tem. Após os títulos, indica-se entre parêntesis rectos os domínios disciplinares em que podem integrar-se.

Programa

Dia 10 de ABRIL, quinta-feira

09h00 Recepção dos participantes
09h15 Sessão de abertura, com a presença de autoridades académicas
09h30 Comunicação 1- O prazer da filosofia por PAULO TUNHAS
10h00 Comunicação 2 – O prazer da dança por EUGÉNIA VILELA
10h30 Comunicação 3 - O prazer das artes plásticas por CRISTINA MATEUS
11h00 Debate e Intervalo
11h30 Comunicação 4 – O prazer das artes visuais 1 por MIGUEL LEAL
12h00 Comunicação 5 – O prazer das artes visuais 2por FERNANDO JOSÉ PEREIRA
12h30 Debate13h00 Intervalo para almoço
15h00 Comunicação 6 – O prazer da música por JORGE CASTRO RIBEIRO
15h30 Comunicação 7 – O prazer da poesia por MANUEL ANTÓNIO PINA
16h00 Comunicação 8 – O prazer de ir ao teatro, estudando texto dramático por CRISTINA MARINHO
16h30 Debate e Intervalo
17h00 Comunicação 9 – O prazer da memória por LEANDRO SURYA
17h30 Comunicação 10 – O prazer da paisagem por MARIA ASSUNÇÃO ARAÚJO
18h00 Comunicação 11 – O prazer do espaço por MÉRCIA CARRÉRA
18h30 Debate final do 1º dia (máximo 1 hora)

Dia 11 de ABRIL, SEXTA-FEIRA

09h30 Comunicação 12 – O prazer de escavar - VÍTOR OLIVEIRA JORGE
10h00 Comunicação 13 – O prazer dos museus – ALICE SEMEDO
10h30 Comunicação 14 – Como conciliar prazeres opostos? O prazer de guardar informação e o prazer de comunicar por ARMANDO MALHEIRO
11h00 Debate e Intervalo
11h30 Comunicação 15 - O prazer de conhecer o Outro – a busca do prazer partilhado por PAULO CASTRO SEIXAS
12h00 Comunicação 16 – O prazer de conhecer o Outro por CONCEIÇÃO NOGUEIRA
12h30 Debate
13h00 Intervalo para almoço
15h00 Comunicação 17 – O prazer de viajar por EMÍLIA ARAÚJO
15h30 Comunicação 18 – O prazer de viver na cidade por JOÃO MIGUEL TEIXEIRA LOPES
16h00 Comunicação 19 – O prazer de consumir por ISABEL CRUZ
16h30 Debate e Intervalo
17h00 Comunicação 20 - 
Memória na pele: Uma pele para as lembranças. Reflexões em torno da tatuagem de um paciente adolescente
MARTINE ESTRADE
17h30 Comunicação 21 – O prazer de narrar por ALEXANDRA SILVA
18h00 Comunicação 22- O prazer de se sentir único por CONSTANÇA PAUL
18h30 Comunicação 23 – O prazer do desejo por FÁTIMA CABRAL
19h00 Debate final do 2º dia e da Mesa-redonda (máximo 1 hora)

Organização
Departamento de Ciências e Técnicas do Património

Coordenação Científica
Prof. Doutor Vítor Oliveira Jorge
http://trans-ferir.blogspot.com/

Local de realização / Horário
Faculdade de Letras da Universidade do Porto
Anfiteatro Nobre
10 de Abril de 2008 (Quinta-feira): 09h00-13h00; 15h00-19h30
11 de Abril de 2008 (Sexta-feira): 09h30-13h00; 15h00-19h30
Inscrições (Limitadas a capacidade do auditório – 100 lugares)
50€ / participantes
25€ / estudantes do ensino superior
20€ / estudantes da Universidade do Porto
10€ / estudantes da FLUPInformações
Gabinete de Eventos e Relações com o Exterior
Dra. Fátima Lisboa
Via Panorâmica, s/n4150-54 Porto
Telefone: 226 077 123
Fax: 226 077 173
gere@letras.up.pt





Fotografia: José Tolentino Mendonça, em http://meinem-lied.blogspot.com/
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SEM PALAVRAS NEM FLORES
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ADORMEÇO _ ME
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ao exorcismo do medo. à escrita ...


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Redentora Y.Arte primordial ...



terça-feira, 11 de março de 2008

Morreu Rogério Ribeiro




Estudo para 1383-1385 (pormenor), Rogéri Ribeiro, técnica mista, colecção particular


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_________ lamento ...

( A sua pintura faz parte das paisagens interiores da minha casa ... vou agora, revisitá-lo, cá dentro ... )


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Assim era apresentado Rogério Ribeiro, numa monografia editada em 2006 ...

Nome bastante conhecido e reconhecido no panorama das artes plásticas, Rogério Ribeiro, pintor e professor, actualmente com 76 anos tem, indiscutivelmente, um significativo percurso que evidencia disciplina, determinação, talento e muito trabalho. Só assim se justifica a múltipla obra que tem espalhada por todo o país e pelo estrangeiro, com predominância para o painel cerâmico "Azulejos para Santiago", no Metropolitano do Chile, na Casa de Portugal, na cidade universitária de Paris e o painel cerâmico para o Fórum Municipal Romeu Correia, em Almada.

A monografia (...), com cerca de 600 páginas e de autoria do jornalista Eduardo Paz Barroso e que incluiu, além do prefácio de Saramago, textos de Mário Cláudio e Ana Isabel Ribeiro, é, para já, a mais completa e exaustiva publicação que existe sobre o artista. De excelente qualidade gráfica e com várias centenas de reproduções de obras concebidas nas mais diversas fases, principalmente ao longo das últimas décadas, o livro/monografia proporciona uma viagem à vida e fundamentalmente à obra de Rogério Ribeiro, desde a fase inicial onde vigora o neo-realismo, até aos dias de hoje onde predomina a representação, de grande poder narrativo.

domingo, 9 de março de 2008





No dia em que o Hot Clube de Portugal completa 60 anos de actividade, a Big Band do HCP, com direcção de Pedro Moreira, convida Mário Laginha a apresentar um repertório de originais, com participação de Maria João.
Em grande parte inédito em Portugal, o programa resulta de encomendas da Orquestra da Rádio de Frankfurt (Hessicher Rundfunk Big Band), Brussels Jazz Orchestra, assim como da Orquestra de Jazz de Matosinhos e Hot Clube de Portugal.Hot Clube de Portugal – 60 AnosMário Laginha & Maria JoãoCom Big Band do HCP
19 de Março de 2008 - Cinema São Jorge - Sala 1
Entrada:

15,00€
Início do Evento : 22H00

Fotografia " Manifestação professores " D`AQUI

«ando com o cansaço de ontem e de anteontem, de uma série de dias que se uniformizam».


Irene Lisboa " Apontamentos ", 1943

D`Aqui (espalhem ... )


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_________________E ainda ... Irene Lisboa

«As coisas sem importância revestem-se subitamente de uma tão grande importância! Bastam apenas uns golpes de vista, divergentes ou casuais, enfim, impremeditados. E o que vêem uns não vêem outros. Até o que nós próprios notamos hoje, não o tínhamos notado ontem… Toda a vida é cheia de mistérios, de surpresas. E sempre obscura, sempre particular.» (O pouco e o muito – Crónica Urbana)

FM 160.2




O prazer da rádio ...

sábado, 8 de março de 2008

Entrada livre. Eu (vou) livre.mente ...


www.icom-portugal.org.



VI Jornadas do ICOM_Portugal


Na manhã de 14 de Março próximo, às 10-00h, na Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, realizar-se-ão as Jornadas de reflexão promovidas pelo ICOM_Portugal.


Consulte aqui o documento de referência.


mulheres em estado líquido ... Alices, Helenas de todas as águas ____________________________________________ festejo-vos

Lady in the Water.



por haver a noite ao fundo do mar

é que eu comecei a ser sede. das tuas mãos bebíveis

a matéria pungente das palavras. limos que entorpecem a fuga

dos lábios para o ar. e por vezes um perfume de água escura no meu

vestido branco. quando um beijo se levanta nas suas duas pernas.

sentes?


palavras de ALICE na tradução da memória


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A fashion model underwater in the dolphin tank at Marineland, Florida. View full size. A similar image by fashion photographer Toni Frissell was published in Vogue in October 1939. Frissell had a knack for taking photos of women underwater. In 1947 she took another photo at Weeki Wachee Spring, which we posted as Lady in the Water.


Por favor vejam, vejam, vejam .....

Correspondi, curiosa, ao apelo da anad, neste azul intenso
fiquei deslumbrada ...

Absolutamente fantástico ! Vejam, vejam ...

View the online exhibition

Download
interview - Curator Roxana Marcoci and Dan Perjovschi











sexta-feira, 7 de março de 2008

100.000 professores


Fotografia D`AQUI
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... um MAR de perguntas ?
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... veio-me à memória Irene Lisboa - uma associação de ideias ...
uma emoção de que falarei mais tarde. Entretanto fica a sugestão para uma visita a Arruda dos Vinhos. A sugestão para uma visita ao Museu Irene Lisboa. Uma viagem pela "Solidão"de João Falco (?)
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Nocturnamente te construo
para que sejas palavra do meu corpo

Peito que em mim respira
olhar em que me despojo
na rouquidão da tua carne
me inicio
me anuncio
e me denuncio

Sabes agora para o que venho
e por isso me desconheces


"Nocturnamente" Mia Couto
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Portugal e os portugueses ...

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... cheguei há pouco a casa e tinha, no meu e-mail, este convite da Ana Luísa, que lanço à comunidade bloguista ...

não tenho " piriquito " ________________________ :) !

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Portugal e os portugueses
vistos pelos correspondentes estrangeiros
[AQUI1]
Ana Luísa Rodrigues


Queridos amigos!!

Penso que já todos sabem que vou lançar o meu livro sobre os correspondentes.

É no próximo dia 13 MARÇO (5ª FEIRA), por volta das 18H30.
Vai ser numa sala do PALÁCIO FOZ, na PRAÇA DOS RESTAURADORES.

O espaço é especial, pois há décadas que é o local onde fica a sala de trabalho dos correspondentes e a sede da Associação de Imprensa Estrangeira.

( ... )

porque GOSTAVA MUITO DE VOS TER JUNTO DE MIM - mais o tio, o primo, a avó e o piriquito se quiserem - aviso-vos para poderem pôr este compromisso na vossa agenda.


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Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido.

Eu não: quero uma verdade inventada.



Clarice Lispector









&

Piano (ArteBlog IMF)

A par e passo ... (digo eu, para mim)


Clicar na imagem para ampliar
Ir até lá para tactear ...

Mesmo que um homem consiga divertir-se com a sua namorada ou noiva, na verdade ele não irá gostar de ver que ela cedeu. (Revista Querida, 1954)

quinta-feira, 6 de março de 2008

Património Cultural Imaterial

São Vicente, Mindelo - Janeiro 2008

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No âmbito da sua actuação sobre o Património Cultural Imaterial, o Instituto dos Museus e da Conservação promove actualmente um Programa de Estágios destinado a enquadrar a participação de Licenciados em Antropologia nos projectos em curso do Departamento de Património Imaterial.
O Programa de Estágios terá início em Maio de 2008, constituindo uma oportunidade de excelência para recém-licenciados em Antropologia que visem a aquisição de competências profissionais especializadas e a participação em projectos de qualidade com vista ao estudo, documentação, inventário e valorização do Património Imaterial.

Veja o regulamento dos estágios aqui

Mais informações:
Instituto Museus e ConservaçãoDepartamento de Património Cultural ImaterialPalácio Nacional da Ajuda,Ala Sul, 4.º1349-021 LisboaTel: 21-365 08 26Email : paulocosta@imc-ip.ptURL : www.ipmuseus.pt

In " O mundo dos Museus " - blog de Ana Carvalho
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terça-feira, 4 de março de 2008




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___No fogo das estradas é que
o medo de ter
tempo demais as mãos pousadas
no amor nas espáduas
na amargura no rio
é que molhar as mãos
na água dos joelhos e andar
um pouco mais ainda sobre o fogo
das pernas e alcançar a terra
o ar do tronco o vapor o
movimento infindável do corpo em torno
do amor é que o mar as estradas
é que a locomoção por sobre a mágoa
no fogo das estradas é que tudo
se pode incendiar____________________________________________________________

CRUZ, Gastão – A Doença in Poemas Reunidos.
Lisboa: Publicações D. Quixote, 1999______

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segunda-feira, 3 de março de 2008

Blogs de Museus






Março 7, 2008 by Ana Carvalho
Museu da Chapelaria, 1 Março 2008

Tal como tivemos oportunidade de divulgar aqui, no passado dia 1 de Março teve lugar o 1.º Encontro de Blogs de Museus que decorreu nas instalações do Museu da Chapelaria em S. João da Madeira. Este encontro permitiu que vários profissionais da museologia, gestores de blogues, pudessem trocar experiências sobre a blogoesfera e as suas potencialidades para os museus e a museologia em geral. Entre a assistência encontravam-se os gestores dos seguintes blogues: Mouseion, Pporto dos Museus, Crescer com o Património, Património Arterial, entre outros.
O encontro teve início com uma nota de boas vindas do vice-presidente da Câmara Municipal de S. João da Madeira, Dr. Rui Manuel Oliveira Costa, que salientou a importância de lançar o debate sobre esta temática.
De seguida, Susana Menezes, responsável pelo Museu da Chapelaria e gestora do bogue do museu, apresentou um enquadramento mais geral sobre os blogues e sua importância. Referiu ainda o surgimento do blogue do Museu da Chapelaria (2006), respectivas circunstâncias e interrogações, objectivos e balanço. Além disso, deu ainda enfoque à blogoesfera na sua ligação com a participação dos públicos, sublinhando esta vantagem. Neste contexto, os blogues permitem uma maior proximidade com os seus públicos, humanizando, de certo modo, a relação com o utilizador. Isto é, através da permissão de comentários, que possibilitam que o utilizador interaja deixando os seus comentários e por sua vez o museu responda, elimina de algum modo a distância formal de um e-mail e permite a participação dos públicos.
Ana Pires apresentou de seguida o blogue eMUSEU e falou da web 2.0 e dos inumeros gadgets que estão à nossa disposição, com diversos exemplos da sua utilização para os museus. Enfatizou ainda a história recente dos blogues em Portugal, que contam com aproximadamente 5 anos de existência, salientando o ano de 2006 como o grande “boom” da blogoesfera portuguesa.
“No Mundo dos Museus…” também participou no encontro com uma apresentação intitulada: “Os blogues como instrumentos para a Museologia. Alguns Exemplos.” Como não podia deixar de ser, foi apresentado o blogue “No Mundo dos Museus”, a criação do projecto (2006) e respectivo enquadramento, objectivos e público alvo. Com o objectivo de analisar o “estado da arte” da blogoesfera portuguesa no domínio dos museus foi apresentado um estudo e respectivas conclusões. Neste sentido, foi referido que entre 2003 e 2008 (Fev.) foram criados em Portugal 38 blogues cujas temáticas versam directa ou directamente sobre temáticas da museologia. Além disso, foi possível constatar que em 2006 houve um aumento significativo de blogues e o mesmo aconteceu em 2007, sendo que neste último ano o número foi ainda mais elevado comparativamente com o ano de 2006. Por esta ordem de ideias é expectável que o crescimento do número de blogues em 2008 seja promissor para a criação de novos blogues nesta área. Para finalizar, foram apresentados vários exemplos de blogues no domínio dos museus e da museologia, em contexto nacional e internacional, que revelam diferentes e interessantes utilizações dos blogues.
Seguiu-se o debate, onde a discussão se prolongou focando diversos aspectos ligados à utilização dos blogues, nomeadamente a reflexão sobre a existência ou não de aspectos negativos subjacentes à utilização dos blogues, dando como exemplo alguns casos recentes conhecidos na comunicação social. Por outro lado, reflectiu-se sobre a questão dos direitos de autor, nomeadamente a questão da utilização de imagens; os blogues como ferramentas gratuitas disponíveis a todos e as potencialidades que encerra; os blogues e os diversos softwares; os blogues em contexto de tutela municipal e respectivas implicações na gestão, o caso do blogue do Museu da Chapelaria; podem os blogues aproximar os públicos e trazê-los ao museu?
Com efeito, apesar das incertezas perante o futuro relativamente à utilização desta ferramenta parece evidente e bastante conclusivo que os blogues oferecem uma oportunidade estratégica para a política de comunicação dos museus, oportunidade que os museus não devem menosprezar. Com efeito, os blogues podem ser um campo de experimentação, interacção e de criatividade para os museus!


Mais impressões sobre o encontro de blogues:
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domingo, 2 de março de 2008

como george sand e musset tu e eu. desmedidos nas vogais. bem abertas.abusadoras.ardentes.logo consumidas. com os dentes. o contrário dos semelhantes. livres enquanto cumes abismos fendas. cépticos do amor. irreconciliáveis. inseparáveis.tendencialmente obedecendo a rituais ora ternos ora ásperos densos leves .de contrastes sumptuosos. dois como um na semântica sedosa e errática de um penhasco virtual onde a terra e a maré alta se afundam. não decidimos ainda quem procura quem. viajamos à deriva na deriva de uma forte vaga que em si mesma é excêntrica e intrínseca como se um sem o outro não soubessemos beber o excesso de uma existência ébria de existir.lá fora o piano explode.tu desenhas mais uma estrófe de línguas . um perfil. eu toco-te. tu estremeces. tu cegas.eu abandono-te. tu desistes.como sand e musset numa itália imaginária. e a água lustral corrige.me.



IMF o livro invisivel

sábado, 1 de março de 2008

Família - conceito e pre.conceito


Lar, doce lar. Algumas palavras prévias sobre o conceito de “família” e suas transformações recentes



O que apetece logo dizer quando alguém pretende abordar este assunto é que se não poderia escolher tema mais difícil e controverso.Primeiro, porque quase toda a gente (excepto os cientistas sociais, é claro) parece estar convencida de que se trata de algo de evidente, natural, vital, universal, simples de definir. Algo que, inclusivamente, seria próprio do ser humano, embora se possa falar metaforicamente ou por analogia de “famílias” entre os animais, como ocorre constantemente.Segundo, porque as conotações da ideia de “família” (mais ou menos espontânea ou trabalhada) com a “casa”, a consanguinidade, a intimidade e a emoção (e, mais genericamente, com a “ideologia” de cada um, ou seja, algo em que esse alguém está de certo modo “contido”) a tornam o “locus” mesmo da discórdia, da dificuldade de distinguir observação/argumentação pertinente e consistente de mera opinião ou então de “wishful thinking”. Por outras palavras, é difícil separar nestas matérias o inteligível e o sensível, para usar uma dicotomia habitual.Há assuntos como este em que toda a gente se sente não só com o direito de falar (o que é evidentemente desejável), mas com a autoridade de falar (o que é já confundir entre si saberes, ou planos, diferentes, ou seja, experiência de vida e competência para elaborar sobre essa experiência qualquer conceptualização sustentada).Sobretudo hoje em dia, em que equidade (igualdade de direitos) e igualdade em geral (horizontalização utópica das pessoas ao mesmo nível, como ideologia) permanentemente se con-fundem. O individualismo, o hedonismo e a vontade de afirmação pessoal pelo diferente e pelo “novo” levam as pessoas à crença de que qualquer um pode discretear sobre seja o que for, com igual pertinência.A família seria assim, como acentua F-H. Augé (1991, p. 271), “pelo menos na sua forma elementar [uma unidade], de tipo conjugal, definida pela união socialmente reconhecida de um homem e de uma mulher vivendo com os respectivos filhos.” Esta “célula conjugal elementar” seria a “unidade de base” das sociedades, tanto as sustentadas na “família extensa” como as de tipo poligâmico. Estas últimas famílias seriam aquelas em que um mesmo cônjuge (homem ou mulher) é partilhado por várias ou vários cônjuges. As “famílias extensas”, por seu turno, são aquelas em que coexistem, como diz F. H.-Augé (id, ib), “sob um mesmo tecto e uma mesma tutela” várias “células conjugais aparentadas” (incluindo linhagens colaterais) e descendentes de um antepassado comum e referencial, ao longo de diversas gerações.A evidência universal da ideia de família baseia-se numa ideologia que distingue os planos do material e do espiritual, ou da natureza e da cultura, e que é a da existência das “necessidades básicas” (v. H.-H., id. ib.) a que tal “unidade” proveria: sexo, procriação, sobrevivência, amparo dos descendentes e sua preparação para a vida, distribuição de papéis e de identidades baseados na cooperação. O locus por excelência dessas “necessidades” (e sua “satisfação”) é um universal mítico: a “casa”, ou lar (“home”, por oposição a “house” - desde a “caverna primitiva” à moderna habitação sofisticada). Munido desta ideologia, tida como indiscutível, o estudioso poderia então fazer a história, a antropologia, a sociologia, a arqueologia, etc., etc., deste “universal” (axioma) de partida: descrever as suas modalidades, a sua variabilidade no espaço e no tempo, a infinda experiência humana.O conhecimento poderia assim preencher uma cartografia, um continente, cujos contornos a ideologia “grosseira” das “necessidades básicas” contempla. “Grosseira”, obviamente, porque tais “necessidades básicas” só existem na ideologia basista, a que apeteceria chamar “fisiológica” (frequentemente de cariz materialista ingénuo) de quem não se apercebeu de que as suas “necessidades” elementares são tudo menos "elementares". Reduzir a pessoa humana a tal imagem é obsceno, e nada tem a ver, obviamente, com um materialismo filosoficamente sustentado. Este, pelo contrário, e como toda a interrogação filosófica, vai em busca do porquê de certas “necessidades” (acções, actividades, comportamentos) serem consideradas, ou não, “básicas” pela ideologia desta ou daquela sociedade, sem o que nada se entende sobre ela.É aliás na diferença, ou desfasamento, entre o que uma sociedade quer passar idealmente como básico, ou incorporou como tal, e o que realmente acontece, que se pode detectar traços da(s) sua(s) ideologia(s). Embora, claro, o primeiro aspecto (“representação”) e o segundo (“realidade”) estejam profunda e mutuamente imbricados, e se alimentem um ao outro, na “ilusão” característica de toda a ideologia que os distingue.Família seria então a “célula básica” de qualquer sociedade (H.-A, p. 274), “servindo” para ela se reproduzir, para realizar a troca (“échange”) de cônjuges sem a qual, não haveria, para a autora, organização social. Assim, diz-nos, não estamos aqui perante nenhuma necessidade básica, natural, ou “biológica”, mas perante o que designa uma característica “eminentemente social”, ou da ordem da “legalidade”.Assim, a autora aceita certas “exigências universais”; porém, transporta-as para a ordem institucional: a família é uma “instituição artificial” e “arbitrária” (id, p. 274) mas que, apesar das múltiplas formas que revestiu no espaço e no tempo, mostra, ainda assim, algumas invariantes. A razão seria a da necessidade “de estabelecer uma relação durável entre os indivíduos”, um princípio de cooperação estável, e portanto através de um “contrato” (persistente crença, esta do contratualismo social) que estabelecesse acordos fora do grupo consanguíneo (grupo esse que, se se mantivesse isolado, endogâmico, tenderia a ser fechado sobre si e a desencadear a agressividade dos grupos rivais). Na linha de Lévi-Strauss, a autora afirma assim peremptoriamente (id, ob): “A sociedade [e com ela, claro, acrescento eu, a família, seu núcleo] teve de se construir contra a consanguinidade.”E insiste (ib, p. 275): “Em qualquer sociedade o contrato de aliança entre grupos consanguíneos regidos por uma regra de filiação é o fundamento mínimo de uma sociedade estável; o casamento é o instrumento desse contrato; as mulheres são o seu material reprodutor.” Neste contexto, a família é o que permite à sociedade existir e reproduzir-se sem propriamente um plano prévio, mas segundo uma espécie, deduz-se, de fundamento tácito, imposto pela necessidade de um mínimo de ordem, de paz, inerente à existência das comunidades humanas. A família, o casamento, a consecução dessa união entre grupos diferentes torna-se assim em algo de perfeitamente explicável e de universal. Apenas passou da esfera do natural para a do cultural. Esta explicação, julgo, não satisfaz; nem sabemos se a autora, uma antropóloga, a escreveria hoje, pelo menos no que toca às sociedades contemporâneas.No mundo ocidental, a ideia predominante durante muito tempo foi a de que a “família extensa” seria a característica das sociedades tradicionais, rurais. Esse tipo de família teria ido dando lugar a sociedades mais modernas, industrializadas, urbanas, caracterizadas pela “família nuclear” (por exemplo, um casal e dois filhos) e pelo individualismo. Quem resume utilmente a evolução destes conceitos é, entre outros, Dortier (2004, pp. 232 e segs - apoiado na opinião de A. Burguière), chamando a atenção para que tal ideia da progressão da família extensa (ou comunitária) para a nuclear pode ter sido mais um mito, entre outros, que o Ocidente (e os próprios fundadores da sociologia, como Durkheim) criou sobre si próprio (sempre tendendo a afirmar a sua originalidade, a sua superioridade).Na verdade, o antropólogo Jack Goody (cit. por Dortier, ib.) é de parecer que a “família nuclear”, como unidade produtora e reprodutora, é praticamente um “universal do género humano”. Também este autor, contrariando ideias muito espalhadas, afirma que o “amor conjugal” ou “família afectiva” (versus o casamento por conveniências familiares) não é exclusivo da modernidade: mas os exemplos que dá são claramente recentes (da Idade Média em diante), europeus, e não se podem generalizar. Ou seja: temos de estar abertos a uma grande diversidade de formas de relação e de organização neste domínio, tanto hoje, como no passado.Giddens (1995) distingue claramente o amor apaixonado, que seria algo de “mais ou menos universal” (p. 26), do amor romântico, uma realidade ligada ao romantismo, ao séc. XIX, ao desenvolvimento do romance como género literário e a certa sublimação da sexualidade. Com a mulher burguesa em casa, o patriarca divide a sua vida relacional entre a prostituta (o sexo sem amor) e a amada idealizada, ou companheira sem sexo, isto em termos muito esquemáticos. A mulher entretanto ganha novos espaços de poder doméstico como esposa, tanto no que toca à regulação do lar como à educação dos filhos como, ainda, embora de forma diminuta, a tentativas de passar da idealização à verdadeira aventura extra-conjugal, que sempre foi apanágio das classes no poder (a ordem rígida é boa para os dominados).A fragmentação do ordenamento burguês familiar e as novas formas de "família" a que assistimos na modernidade tardia (se é que ainda lhes podemos chamar assim) estão ligadas, entre muitos aspectos, à maior revolução a que acabámos por assistir na segunda metade do séc. XX - a chamada “libertação das mulheres”, um processo ainda em curso. As guerras do século XX levaram muitas mulheres para fora de casa, para o mercado de trabalho, e para o ensino público; a pílula contraceptiva e o divórcio por consentimento mútuo tornaram-se depois uma realidade; deu-se a emergência de uma “feminilidade” autónoma (libertada da visão masculina), de uma concepção da mulher como ser diferente do homem, mas com os mesmos direitos (incluindo um certo direito ao desejo e à transgressão); em suma, o “campo social”, o espaço público deixou de ser uma propriedade privada do “homem”. Em breve essa "feminilidade" não se aceitaria como monolítica, como uma essência. Não há "mulher", existem mulheres. E, acima, de tudo, seres humanos, cada um com a sua especificidade.Simultaneamente a polarização dos sexos em “homem” e “mulher”, que tinha sido a base da família patriarcal burguesa, entrou em crise, com a ascensão à visibilidade pública de comportamentos sexuais de muito tipo. O individualismo (o culto do indivíduo “autónomo”, hedonista e consumidor, responsável pela criação da sua própria identidade e não apenas sujeito passivo de uma identidade imposta) e o mercado, estimulando sempre a procura de novos nichos de “aventura” pessoal, levaram à decomposição da figura do macho tradicional e da conjugalidade como modelo. Este mantém-se apenas como carcaça, como ritual oco: as pessoas casam para logo se descasar, numa sucessão de actos que os põem por um dia sobre o palco, que atraem a atenção sobre si (dos convidados e das agências que lhes vendem esses serviços), numa vacuidade repetitiva.A figura do indivíduo blasé, a do descomprometido, a do efeminado, e os movimentos feministas, lésbicos, homossexuais, transexuais, etc, decompuseram a ordem tradicional, fictícia ou real, das coisas. É óbvia a relação desta situação num primeiro momento com o Estado-providência e seu aspecto protector e “tolerante” (hoje em desaparecimento), e mais em geral com o desenvolvimento do capitalismo neo-liberal, com a sobreposição dos valores do lucro a quaisquer outros, e com a liquefacção das antigas polaridades e das identidades. As pessoas hoje em dia prestam-se a uma grande multiplicidade de “experiências” (pelo menos no Ocidente), recusando etiquetas relacionadas com essas opções, mas continua a ser muito grande, e certamente cada vez maior, o abismo entre as possibilidades de experimentação de uns e de outros.São identidades em permanente busca de si mesmas, com grande acesso a uma multiplicidade infinita de fontes de prazer, incluindo o tido como supremo, o sexual, que emergem com a modernidade (a pornografia é sobretudo uma criação dos sécs. XVIII-XIX) e que estão também ligadas à imagem, à fotografia, ao exotismo, ao turismo, e a um aspecto básico da modernidade que é a sacralização da "vida", do instante, em substituição da antiga transcendência e sacralização de um além (eternidade) ou de qualquer valor a longo prazo que hoje, dificilmente, encontra aderentes. Como o jogador e como o dinheiro, quando parado, não rende. Por isso os deuses, por definição parados, têm um estatuto ambíguo: só "rendem" enquanto ícones que se visitam, ante os quais circulamos; mas nenhum deles nos faz prostar a seus pés.Mesmo as formas de religiosidade popular e de massas tornam-se fenómenos de grande espectacularidade, como Fátima, Lurdes, ou outros destinos “turísticos” preparados para o “êxtase colectivo” de pessoas em geral pouco sofisticadas e urbanizadas, que buscam uma antiga identidade ritual perdida no meio desumanizado urbano, ou rural penetrado de urbanidade, de conforto. Sobretudo traduzem, como muitos outros fenómenos, a perda íntima de uma ordem tradicional e securizante; são formas embrionárias de “crise da consciência moderna”, não intelectualizadas. Cheias de autenticidade, são formas irrisórias aos olhos dos que tiveram a possibilidade de pensar sobres estes fenómenos, de sobre eles ganhar alguma distanciação. Quando muito, provocam nostalgia e compaixão.A facilidade e banalização do divórcio e o investimento a longo prazo na relação parental versus a relação conjugal (v. referência em Dortier, 2004, pp. 236-237) são outros elementos a entrar em linha de conta na liquefacção da família como instituição.Famílias monoparentais, casais homossexuais, adopção de crianças, inseminação artificial, etc – toda uma plêiade de fenómeno inovadores e de opções "a la carte" alterou por completo, nas ultimas décadas, a visão que se tinha da família. O que é importante são as relações, e não as uniões (v. Dortier, 2004, p. 235); e as fidelidades são do indivíduo a si próprio, à compulsão da auto-realização, a não a valores exteriores ou “elevados”.Cada indivíduo tornou-se no seu próprio deus, e assim, de certo modo, na sua própria fonte de ansiedade e de depressão. É frenético na aquisição de algo que lhe falta sempre, é movido por um desejo que não tem satisfação possível.Neste aspecto o aparecimento da psicanálise no início do séc. XX e a sua remodelação por muitos autores, e entre eles um como J. Lacan - que foi fundamentalmente um filósofo um tanto esotérico (e como todos datado, nomeadamente pela sua excessiva ligação à linguística saussuriana e ao estruturalismo) mas ainda hoje não totalmente absorvido, e muito sedutor (até pelo aspecto um tanto iniciático do seu saber e dos seus seminários) - são também sintoma de um movimento de curiosidade pelas “profundidades do ser” e, ao mesmo tempo, de descentramento da consciência racional herdada dos sécs XVII e seguintes e de afastamento de uma visão esterilizada da ciência que a leva, também, a ser um objecto de culto mas só acessível, na prática, ao entendimento de iniciados. A procura da profundidade, da escavação, da arqueologia de tudo e de nada vai a par com a superfície da sociedade actual, uma superfície polida des-sacralizada. A penetração em todos os "segredos" do mundo é coetânea da sua des-sacralização, da sua des-institucionalização. São produtos de consumo.Uma nova religião, de facto, como toda a cultura em geral, transformada, na “sociedade dita da informação”, no capital simbólico que todos desejam adquirir, numa competição cada vez mais generalizada e num estabelecimento de redes e de contactos, virtuais e reais, cada vez mais fragmentados.Estamos na sociedade do zapping e da visão irrequieta, saltando de ecrã em ecrã, de estímulo em estímulo. As novas relações humanas e sociabilidades que advirão desta grande transformação “ecológico-tecnológica” são difíceis de resumir e de prever. Aquilo a que chamávamos "família" é hoje um resto, desfigurado.

Vítor Oliveira Jorge (VOJ)

Algumas referências- Castells, Manuel (1997), "The Power of Identity", Oxford, Blackwell Publishers (esp. cap. 4).- Dias, Isabel (2004), "Violência na Família. Uma Abordagem Sociológica", Porto, Ed. Afrontamento.- Dortier, J.F. (coord.) (2002), “Familles: Permanence et Métamorphoses”, Auxerre, Sciences Humaines Éd. - Dortier, J.F. (coord.) (2004), “Le Dictionnaire des Sciences Humaines”, Auxerre, Sciences Humaines Éd. - Foucault, Michel (1976), “Histoire de la Sexualité”, vol. 1 : La Volonté de Savoir, Paris, Gallimard. - Foucault, Michel (1984), “Histoire de la Sexualité”, vol. 2 : L’Usage des Plaisirs”, Paris, Gallimard. - Foucault, Michel (1984), “Histoire de la Sexualité”, vol. 3 : Le Souci de Soi, Paris, Gallimard. - Giddens, Anthony (1995), “Transformações da Intimidade. Sexualidade, Amor e Erotismo nas Sociedades Modernas”, Oeiras, Celta.- Goody, Jack (1995), "Família e Casamento na Europa", Oeiras, Celta.- Héritier-Augé, F. (1991), “Famille”, entrada do “Dictionnaire de l’ Ethnologie et de l’ Anthropologie” (dir. De P. Bonte e de M. Lizard), Paris, PUF, pp. 273-275.- Mesure, Sylvie e Savidan, Patrick (2006), “Le Dictionnaire des Sciences Humaines”, Paris, PUF.- Segalen, Martine (1981), "Sociologie de la Famille", Paris, Armand Colin.
Publicada por Vitor Oliveira Jorge em 1:46 0 comentários

Llansol

Fotografia http://zwir.ru/gallery/other/other_41.html


O afecto toma notas. Cinge-o à cadeira em que está sentado, sentindo, desde a madrugada,o sol a florescer pela janela.Revolta rápida, a do afecto. Tem pressa de chegar ao alvo do problema, que se torna branco ___ uma autêntica pérola. A mãe.O seu segredo é minúsculo e insondável, as núpcias da mulher amada com outro. Mas pressente que só o que conseguir enterrar na paisagem das ruas subsistirá. O resto é veneno, cobra, mordedura, que não consegue chupar se não for escrito;nesta meditação,o afecto lhe responde, e mais uma vez lhe diz “e o labirinto evasivo das ruas?”Spleen, tédio, cafard. Imagina que toma café com alguém que se vai acendendo, como uma lembrança longínqua, na mão. Qual? Que lhe beija a mão, e ela desaparece, deixando-o a escrever e a ver na frente quem quiser. Basta o pulso que escreve desejar.É o pulso que escreve. Os dedos orientam apenas a escrita. E quem lhe chama poema é o pensamento rotineiro, que não encontrou ainda outro nome. Mas não me iludo. Escrita esconde o que esconde _____






Jeanne Lorioz









Dans son œuvre, jamais de tourment ! Un humour salvateur règne dans ses tableaux. Toujours une dame, toujours vue de dos, toujours des fesses « rebondies ». Jamais de vulgarité, jamais de sordide. Dépouillée, tout en rondeur, tout en douceur, que du bonheur.


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